Por José Rios
Resumo
O presente artigo analisa as transformações políticas resultantes do ciclo eleitoral de 2026 nos Estados Unidos e de suas repercussões geopolíticas sob a ótica do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista. O estudo examina a virada eleitoral em distritos e estados de longa tradição conservadora, destacando o papel desempenhado pela fração superexplorada da classe trabalhadora — em particular mulheres negras, jovens e trabalhadores latinos — e a circulação internacional de símbolos de resistência popular. Argumenta-se que, embora essas vitórias representem vitais conquistas táticas de autopreservação contra o avanço neofascista, a apreensão em paralaxe revela a cisão entre a energia transformadora da classe e a função de contenção exercida pelo Estado liberal-burguês. Conclui-se que a superação da necroeconomia imperialista exige a conversão da mobilização eleitoral contingente em organização autônoma de classe e solidariedade anti-imperialista internacional.
Introdução: O Olhar em Paralaxe sobre o Estado Imperialista
A interpretação dos processos eleitorais no centro da formação social estadunidense exige a superação do idealismo liberal, que reduz a política à simples concorrência entre agremiações partidárias ou a escolhas morais conjunturais. A lente do materialismo histórico e dialético, aliada ao conceito de paralaxe classista, desvela a dualidade constitutiva do regime: de um lado, a aparência institucional de participação democrática e descompressão social; de outro, a essência material do capital monopolista e financeiro, orientado imperativamente para a preservação da taxa de lucro e a expansão do militarismo.
O ciclo de meio de mandato de 2026 desenrola-se em um contexto de crise orgânica do capitalismo. O declínio tendencial da acumulação na esfera produtiva, somado ao avanço irrefreável da multipolaridade geopolítica promovido pelos povos e governos soberanos do Sul Global, limita a capacidade do imperialismo de transferir integralmente os custos de sua ruína para as periferias. A consequente reversão dessa crise para o âmbito doméstico desencadeia o arrocho sobre a força de trabalho metropolitana, impulsionando a insatisfação social e fraturando os bastiões tradicionais de sustentação da extrema-direita.
A Vanguarda Social e a Sobrevivência Material
A fratura eleitoral em estados conservadores — historicamente marcados pelo chauvinismo e pela repressão política — encontra sua base objetiva no esgotamento das condições materiais de reprodução da força de trabalho. O encarecimento desmedido da habitação, a degradação dos serviços sociais básicos, o custo da energia e o envio de recursos para conflitos bélicos no exterior atingem prioritariamente as frações mais precarizadas da classe trabalhadora: a juventude, os trabalhadores imigrantes e, em especial, as mulheres negras.
Nesse cenário, a ida massiva às urnas e a eleição de candidaturas progressistas, diversificadas ou vinculadas a trajetórias comunitárias não resultam de uma conversão ingênua à ideologia institucional, mas de uma tática de preservação da existência. A classe trabalhadora atua como o sujeito real da resistência, utilizando os mecanismos formais da democracia burguesa para barrar o avanço das forças políticas mais abertamente violentas e autoritárias.
A Inversão dos Fluxos Ideológicos e a Práxis Transnacional
Um dos fenômenos dialéticos mais marcantes da conjuntura recente é a circulação e a redefinição de símbolos de luta do Sul Global no seio da própria metrópole imperial. A rápida adoção do gesto “L” e de referências à vitória do povo brasileiro contra o fascismo por movimentos populares, organizações comunistas como o CPUSA e a juventude estadunidense demonstra uma inversão histórica nas dinâmicas de influência ideológica.
Se ao longo do século XX a potência imperial exportou Doutrinas de Segurança Nacional e modelos institucionais para subordinar a periferia, no século XXI a classe trabalhadora metropolitana passa a buscar na práxis soberana e nas vitórias populares do Sul a inspiração para o confronto doméstico. O gesto antifascista transnacional sintetiza a percepção empírica de que a derrota da extrema-direita em qualquer ponto do globo fortalece a luta de classes em escala internacional.
A Contradição da Captura Institucional e a Invariância do Império
A paralaxe classista impõe uma postura analítica crítica em relação ao perfil sociopolítico dos adversários eleitos no âmbito do Partido Democrata. Embora a alteração na composição de forças parlamentares imponha uma paralasia legislativa interna ao Poder Executivo neofascista — o fenômeno do “pato manco” —, o Estado burguês dispõe de mecanismos para desativar o potencial revolucionário das massas.
O Partido Democrata atua como a engrenagem de amortecimento do sistema, especializada em absorver a representatividade de vanguarda para reestabilizar a ordem e revestir a dominação do capital financeiro com uma estética progressista. Além disso, a análise geopolítica demonstra que a política externa imperialista possui um caráter de Estado suprapartidário. A necroeconomia sustentada pelo complexo industrial-militar, a aplicação de sanções econômicas e as intervenções desestabilizadoras contra o Sul Global continuam a ser operadas, alterando-se apenas os métodos e a retórica diplomática.
Conclusão: O Imperativo da Organização Autônoma
A derrocada eleitoral das frações mais agressivas da extrema-direita nos Estados Unidos e em instâncias internacionais atesta a vitalidade das massas trabalhadoras em movimento. No entanto, o materialismo histórico ensina que a vitória nas urnas burguesas representa apenas um terreno de descompressão tática, e não a superação da ordem capitalista.
A grande tarefa histórica que se coloca para as vanguardas políticas, sindicais e teóricas é transformar o entusiasmo eleitoral episódico e a rebeldia dos costumes em organização autônoma de classe. Somente o fortalecimento do sindicalismo de base, a construção de comitês populares nos territórios e o estreitamento da solidariedade anti-imperialista internacionalista poderão transpor os limites da democracia liberal e erguer o caminho rumo à verdadeira emancipação social.
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