Por José Rios
Introdução
O colapso simultâneo do sistema bancário digital e da cúpula do Poder Executivo no Paraguai, consubstanciado na derrocada da instituição financeira digital Ueno Bank e na renúncia forçada do mandatário Santiago Peña, constitui um estudo de caso paradigmático sobre as fraturas estruturais do modelo neoliberal periférico. Ao longo dos últimos anos, aparelhos de propaganda transnacional e redes de agitação ideológica alinhadas à extrema-direita regional construíram uma narrativa fabulosa: o Paraguai como a “Suíça da América do Sul”, um território redentor de desregulamentação absoluta, impostos mínimos e liberdade individual desenfreada.
Essa construção imaginária atraiu não apenas vultosos fluxos de capitais voláteis e migração fiscal de frações do empresariado regional, mas também contingentes expressivos de indivíduos orientados por um ressentimento político ativo e por promessas desprovidas de lastro econômico e institucional.
Sob o prisma analítico do materialismo histórico-dialético e da paralaxe crítica, o presente artigo investiga as determinações materiais desse episódio. Trata-se de demonstrar como a aparência fenomênica do “livre mercado” opera como invólucro ideológico para a apropriação predatória do fundo público e para a especulação parasitária, culminando invariavelmente na socialização das perdas sobre a classe trabalhadora e sobre os estratos médios pauperizados pela ilusão rentista.
A Paralaxe Ideológica e a Construção do Mito Regulatório
A teoria da paralaxe, ao postular que a alteração do ponto de vista do observador não apenas modifica a imagem observada, mas expõe a irredutibilidade antagônica de dois campos de percepção sobre o mesmo objeto, aplica-se com precisão à análise das economias dependentes da América Latina.
Por um lado, a perspectiva apologética do ultraliberalismo apresentava a arquitetura econômica paraguaia como uma fronteira virtuosa de eficiência, caracterizada pelo regime tributário simplificado, baixo custo de intermediação e ausência do que denominava entraves burocráticos estatais. Esta formulação teórica e propagandística desconsiderava deliberadamente a realidade material subjacente: mais de sessenta por cento da força de trabalho inserida na informalidade estrutural, a precariedade ou inexistência de regimes universais de seguridade e previdência e uma assimetria profunda nos direitos trabalhistas fundamentais.
Por outro lado, a perspectiva materialista revela que a fragilidade regulatória celebrada pelos operadores de mercado não constituía modernização institucional, mas a desativação deliberada dos mecanismos de fiscalização prudencial do Estado. A ausência de vigilância pública consolidou-se como condição necessária para que grupos corporativos consolidados operacionalizassem a drenagem contínua de liquidez social para empreendimentos de altíssimo risco e estruturas financeiras circulares.
Captura do Aparelho Estatal e Acumulação por Espoliação
A dinâmica de ascensão e dissolução do Ueno Bank explicita a natureza da acumulação capitalista na periferia subordinada. Ao absorver a custódia de cerca de três milhões de contas em um país cuja população total mal ultrapassa sete milhões de habitantes, a instituição concentrou praticamente a totalidade da população economicamente ativa nacional, além de captar depósitos vultosos provenientes da comunidade de residentes estrangeiros e investidores transfronteiriços.
Mais decisiva, contudo, foi a absorção direta de mais de oitocentos milhões de dólares pertencentes aos cofres públicos, com destaque para as reservas do Instituto de Previdência Social e do Ministério da Saúde. Esse direcionamento de recursos não decorreu de dinâmicas impessoais de mercado, mas da confluência de interesses de classe no topo do aparelho burocrático-estatal. A presença de ex-acionistas controladores e executivos da instituição financeira nos postos máximos da Presidência da República e da diretoria do Banco Central do Paraguai ilustra a tese clássica da instrumentalização do Estado como comitê gestor das frações monopolistas da burguesia financeira.
A derrocada do arranjo manifestou-se a partir de empréstimos temerários cruzados concedidos a empresas pertencentes aos próprios conglomerados controladores, esvaziando o índice de solvência da entidade para patamares insustentáveis. Quando o fluxo de valorização fictícia cessou, a desarticulação da cadeia nacional de liquidez converteu-se em paralisia sistêmica: salários retidos, transações comerciais interrompidas e benefícios previdenciários bloqueados.
A reação do mandatário — caracterizada por uma renúncia apressada em cadeia nacional acompanhada por evasivas retóricas e pela tentativa de reivindicar prerrogativas constitucionais de imunidade legislativa vitalícia para contornar o julgamento político por impeachment — desnuda a inconsistência ética e política das elites dominantes periféricas. O governante que antes personificava a eficiência técnica do empresariado migrou, no instante do colapso, para a condição de mero espectador impassível da calamidade social provocada por suas próprias decisões administrativas.
Desinformação, Fanatismo Ideológico e Prejuízo Coletivo
O componente ideológico deste colapso possui raízes continentais. O fluxo migratório de pessoas e divisas que elegeu o território vizinho como refúgio foi impulsionado por uma indústria coordenada de desinformação, cujo motor residia no antagonismo belicoso e na aversão paranoica às estruturas do pacto social e democrático em seus países de origem. Promessas desprovidas de solidez macroeconômica foram amplamente divulgadas por redes de proselitismo político e empresarial, vendendo a miragem de enriquecimento e segurança patrimonial inviolável.
Nesse processo de mercantilização do ressentimento, a massa de aderentes desconsiderou os riscos elementares da assimetria monetária, a falta de um colchão soberano de liquidez na economia anfitriã e a fragilidade evidente de fundos garantidores locais, tecnicamente incapazes de cobrir o rombo provocado por fraudes massivas. O desfecho revelou o caráter trágico da mistificação social: enquanto os cabeças das operações corporativas dispunham de canais de fuga internacional, de assessoria jurídica especializada e de prerrogativas estatais de autoproteção, o prejuízo concreto recaiu de forma implacável sobre a maioria social.
Pequenos poupadores, trabalhadores assalariados, aposentados e imigrantes ideologicamente seduzidos viram-se desprovidos de suas economias de vida em questão de horas. A promessa redentora de uma sociedade sem Estado revelou seu resultado empírico: a ausência do Estado como regulador e protetor dos vulneráveis, somada à presença implacável desse mesmo Estado como garantidor da impunidade e do refúgio das frações dominantes.
Considerações Finais
O caso paraguaio confirma a premissa dialética de que crises financeiras na periferia dependente não são anomalias acidentais nem falhas individuais de caráter, mas a manifestação madura e inevitável das contradições do capital desregulamentado. A ilusão de que a supressão de controles públicos gera prosperidade universal dissolve-se diante da constatação de que a desregulamentação financeira serve unicamente à espoliação parasitária do trabalho e do fundo coletivo.
O espetáculo grotesco da fuga institucional dos líderes políticos e a desolação das massas populares despojadas de seus meios materiais de subsistência selam o encerramento de um ciclo de mistificação ideológica. A história reitera que o livre mercado dogmático não liberta o indivíduo das amarras da sociedade; ao contrário, entrega-o inteiramente desarmado à voracidade e ao arbítrio das forças predatórias do capital financeiro.
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