Por José Rios
Introdução
O processo de destituição e subsequente prisão do ex-presidente paraguaio Santiago Peña, deflagrado pela liquidação forçada do Ueno Bank em novembro de 2026, oferece um laboratório privilegiado para a investigação das contradições materiais do capitalismo dependente sul-americano. Nos anos que antecederam a derrocada, aparelhos de hegemonia regional e redes de agitação ideológica alinhadas ao neoliberalismo autoritário converteram o Paraguai em emblema discursivo de modernização institucional, caracterizado por baixa tributação, desregulamentação absoluta do trabalho e financeirização acelerada.
Sob a perspectiva da crítica da economia política e da paralaxe classista, este trabalho analisa as determinações concretas desse colapso, deslocando o foco das intrigas palacianas da burocracia governante para a dimensão ontológica fundamental: os efeitos estruturais da crise sobre as condições de reprodução material da classe trabalhadora paraguaia. Demonstra-se que o estrangulamento da circulação monetária popular não decorre de falha conjuntural de gestão técnica, mas expressa a dinâmica intrínseca da acumulação por espoliação, na qual o capital financeiro periférico parasita o fundo público e a subsistência das massas laboriosas antes de transferir integralmente os custos da crise para a base da pirâmide social.
A Visão em Paralaxe: O Fetiche do Éden Regulatório e a Realidade da Superexploração
O conceito de paralaxe classista evidencia a fissura irreconciliável entre duas leituras contraditórias do mesmo fenômeno econômico. De um lado, a narrativa burguesa apologética celebrava a ausência de amarras fiscais e trabalhistas no Paraguai como índice de liberdade econômica e dinamismo de mercado. Do outro lado, o ponto de vista da classe trabalhadora revela que essa desregulamentação consistia na precarização radical da força de trabalho, submetida a níveis de informalidade superiores a sessenta por cento da População Economicamente Ativa (PEA) e a um marco normativo que restringe severamente direitos coletivos básicos, tais como o acesso universal à seguridade social e a regimes equitativos de descanso remunerado.
Essa fratura expressa a lei geral da acumulação capitalista em economias periféricas, conforme formulada pela tradição marxista da dependência. O atrativo do capital transnacional e das frações agrofinanceiras regionais não repousava sobre ganhos de produtividade tecnológica, mas sobre a compressão máxima do valor da força de trabalho. O modelo festejado como paraíso de investimento assentava-se na fragilidade proposital das agências de regulação monetária, criando um ambiente de supervisão branda que viabilizava a drenagem de excedente sob a fachada de inclusão bancária digital.
A Captura do Fundo Público e a Espoliação do Salário Indireto
A trajetória do Ueno Bank desvela a fusão orgânica entre o aparelho estatal paraguaio e as frações financeiras monopolistas. Longe de operar como entidade concorrencial autônoma em livre mercado, a instituição expandiu-se vertiginosamente a partir da apropriação predatória de recursos do Estado. Cerca de oitocentos e cinquenta milhões de dólares de fundos públicos foram direcionados para os cofres do banco privado, incluindo parcelas expressivas dos ativos do Instituto de Previsão Social (IPS) e do Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social.
Esse direcionamento não ocorreu por mecanismos de mercado impessoais, mas pela consolidação de uma oligarquia financeira instalada nos postos de comando da República. O vínculo societal prévio do próprio chefe do Executivo com o grupo controlador da instituição, somado à nomeação direta de ex-executivos do banco para a presidência do Banco Central do Paraguai, ilustra a instrumentalização do Estado como garantidor de valorização fictícia. A concessão cruzada de créditos sem lastro a corporações coligadas corroeu os coeficientes de solvência da entidade até o esgotamento.
Para as massas trabalhadoras e aposentadas, essa dinâmica representou a expropriação do salário indireto. Os recursos que deveriam garantir o financiamento de pensões, hospitais públicos e a cobertura previdenciária de uma população desprovida de colchões de proteção social universal foram retidos em uma ciranda financeira insolvente. Ao bloquear os fundos previdenciários e salariais de quase metade da população do país — cerca de três milhões de contas —, o sistema financeiro operou uma transferência violenta de valor: o sacrifício material da subsistência de milhões de trabalhadores para a cobertura de rombos especulativos gerados por uma fração restrita de conglomerados familiares.
A Paralisia da Circulação Mercantil e a Degradação do Cotidiano Popular
O aspecto mais dramático da crise reside no impacto imediato sobre as condições biológicas e materiais de sobrevivência da classe trabalhadora paraguaia. Ao contrário de crises financeiras clássicas circunscritas a papéis de investimento de altas rendas, o banco liquidado detinha ampla capilaridade no consumo popular por meio de cartões de débito, crédito e aplicativos integrados ao comércio varejista básico.
A interrupção súbita das operações redundou em paralisia da cadeia elementar de pagamentos. Em um país de economia majoritariamente informal e com remunerações diárias ou semanais, a impossibilidade de movimentar salários e reservas gerou uma retração abrupta de até setenta por cento nas vendas do setor de alimentos em centros urbanos como Assunção e Ciudad del Este. As famílias trabalhadoras, ainda que detentoras formais de saldos bancários, viram-se desprovidas de meios circulantes para a aquisição de gêneros alimentícios de primeira necessidade, medicamentos e transporte coletivo.
O endividamento emergencial no circuito informal e a proliferação de esquemas usupários de crédito imediato aprofundaram a vulnerabilidade das camadas despossuídas. Simultaneamente, a desvalorização cambial do guarani decorrente da desconfiança sistêmica encareceu a cesta básica dependente de itens importados, penalizando duplamente aqueles cuja única fonte de rendimento é a venda diária de sua força de trabalho em moeda local depreciada.
A Recomposição Bonapartista e o Transformismo Colorado
Diante da insurreição popular nas praças e do cerco ao Congresso Nacional, as frações dominantes paraguaias ativaram mecanismos de autodefesa para conter a radicalização das massas. A tentativa de Santiago Peña de converter o desgaste político em renúncia com vistas a assegurar a condição de senador vitalício e a decorrente imunidade penal foi frustrada pela magnitude da mobilização de rua, culminando na cassação expressa de seu mandato por unanimidade parlamentar e em sua subsequente prisão preventiva.
Entretanto, uma leitura dialética do processo impede confundir a queda punitiva do indivíduo governante com a ruptura das estruturas de dominação. O rito de impeachment e o encarceramento de Peña funcionaram como clássica manobra de transformismo e autolimpeza interna do Partido Colorado, hegemônico há décadas na formação social paraguaia. Sob a liderança das frações agrárias e comerciais tradicionais articuladas em torno de figuras como o ex-presidente Horacio Cartes, o bloco conservador descartou a figura de proa desgastada para preservar o regime e blindar o vice-presidente Pedro Alliana, mantendo a integridade da máquina partidária e evitando a convocação de eleições antecipadas.
A justiça burguesa mobilizou-se velozmente para individualizar a culpa penal em ex-dirigentes e no mandatário destituído, com o objetivo precípuo de pacificar a revolta social sem tocar na estrutura distributiva nem nos privilégios do agronegócio exportador e das finanças desreguladas. As perdas materiais acumuladas pela maioria expropriada continuam submetidas aos prazos e às limitações do fundo de garantia estatal, incapaz de recompor prontamente a integralidade dos recursos drenados da previdência e dos pequenos depósitos.
Considerações Finais
O desmoronamento político e financeiro no Paraguai em 2026 expõe a indigência teórica da mística ultraliberal quando confrontada com a realidade das formações sociais latino-americanas dependentes. O modelo promovido internacionalmente como arquétipo de eficiência regulatória encerrou-se em paralisia econômica, espoliação massiva de fundos previdenciários e encarceramento do seu principal executor institucional.
A paralaxe classista demonstra que o custo substantivo dessa crise recaiu, com peso desproporcional e devastador, sobre os ombros da classe trabalhadora, dos aposentados e do campesinato paraguaio, privados temporariamente até mesmo do acesso a alimentos básicos pela paralisia dos meios de troca. A destruição das ilusões do livre mercado absoluto revela, em última instância, que na periferia capitalista a ausência de amarras públicas e sociais não expressa progresso ou emancipação, mas tão somente a intensificação brutal da exploração do trabalho e a subordinação violenta do Estado aos interesses das elites financeiras dominantes.
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