Por José Rios
A Totalidade Histórica e o Momento Dialético da Luta de Classes Global
A conjuntura internacional no encerramento do último trimestre de 2026 expressa o agravamento das contradições estruturais do modo de produção capitalista em sua fase imperialista e rentista. Sob o método do materialismo histórico-dialético e a lente da paralaxe classista, o entrelaçamento dos processos políticos no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa ocidental desvela uma fratura sistêmica: a colisão aberta entre as exigências de valorização do capital financeiro subordinado ao complexo industrial-militar e a reprodução material da vida da classe trabalhadora. A consagração de um quarto mandato presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva com 64,2 milhões de votos populares no Brasil funcionou como um ponto de inflexão na periferia do sistema, repercutindo na crise de legitimidade do polo hegemônico euro-atlântico.
A aparente vitalidade dos movimentos neofascistas internacionais oculta a sua vulnerabilidade material e orgânica. O episódio da deserção e fuga clandestina de lideranças compradoras periféricas para o centro imperial norte-americano desfez a ficção da estabilidade hegemônica e explicitou a condição do extremismo como o que Mao Zedong e Vo Nguyen Giap qualificaram como tigre de papel: agressivo no plano retórico e na opressão corporativa, mas frágil e covarde quando confrontado pela mobilização de massas e pela perda do aparato estatal. A análise científica impõe superar tanto o triunfalismo voluntarista — que supõe o desaparecimento mecânico e espontâneo da reação — quanto o fatalismo defensivo, desdobrando as determinações da conjuntura em suas dimensões negativas, positivas e em seus elementos de imprevisibilidade situacional.
O Cenário Negativo: A Inércia da Espoliação e a Beligerância da Reação Agonizante
A dimensão negativa do quadro geopolítico atual assenta-se na capacidade de reprodução e adaptação das estruturas de dominação burguesas, mesmo quando formalmente derrotadas nas urnas. No plano internacional, a permanência da OTAN e a lógica da economia de guerra operam como dreno do fundo público nos países centrais, canalizando trilhões de dólares para o fomento de conflitos coloniais e genocídios, enquanto impõem planos severos de austeridade e desmonte sobre a previdência, a saúde e a educação das massas proletárias. A institucionalidade burguesa na Europa Ocidental, sob o comando de coalizões neoliberais e conservadoras, intensifica a criminalização do protesto operário e juvenil, buscando salvaguardar os lucros dos monopólios armamentistas e de energia.
No cenário doméstico brasileiro, a derrota eleitoral da extrema-direita não extingue sua base material parlamentar e corporativa. O parlamento eleito em 2026 mantém um peso expressivo de frações do rentismo, do agronegócio predatório e da lumpen-burguesia patrimonialista que recorreram ao mandato legislativo como escudo corporativo de salvo-conduto penal. A contraofensiva desses setores opera pela via da chantagem orçamentária, pela pressão do mercado financeiro e pela permanente ativação da guerra híbrida e do terrorismo psicológico nas redes sociotécnicas desreguladas. Caso a vanguarda classista capitule perante a ilusão da pacificação institucional e negocie concessões lesivas aos direitos trabalhistas, o projeto popular correrá o risco de asfixia política, alimentando a revitalização de forças autocráticas que apenas aguardam a desmobilização das ruas para restabelecer a tutela senhorial.
O Cenário Positivo: O Ascenso da Linha de Massas e a Ruptura dos Monopólios Ideológicos
Em contraposição direta, a dimensão positiva da conjuntura firma-se na emergência de novas formas de luta e na retomada da iniciativa estratégica pelo mundo do trabalho. No cenário mundial, a insubordinação logística nos portos europeus — onde a classe operária organizada paralisou o embarque de armamentos em solidariedade anti-imperialista à Palestina — associada à greve geral da juventude contra a austeridade materializa a recomposição do internacionalismo proletário. Essas manifestações rompem as barreiras do corporativismo econômico estrito, demonstrando que a classe trabalhadora detém a capacidade objetiva de travar o metabolismo da máquina bélica colonial. Paralelamente, a consolidação de governos soberanos no Sul Global e o fortalecimento do bloco dos BRICS+ avançam na desdolarização do comércio internacional e na estruturação de uma ordem multipolar liberta do arbítrio de sanções unilaterais.
No Brasil, o cenário positivo consubstancia-se na capacidade demonstrada pelas massas trabalhadoras de romper o monopólio algorítmico da extrema-direita e reverter o resultado eleitoral por meio da mobilização direta nas ruas e comunidades. A vitória incontestável contra o arrocho fiscal e a afirmação de conquistas como a extinção da escala de trabalho 6×1 e a desoneração do custo de vida popular fornecem lastro concreto para a sustentação do novo governo. A aplicação rigorosa da legalidade republicana pelo Supremo Tribunal Federal contra tentativas de evasão e conspiração internacional abre espaço para o desmantelamento das redes clandestinas de financiamento ilícito, de agiotagem eletrônica e de fraudes orçamentárias. A mobilização de ferramentas científicas de intervenção popular permite à vanguarda converter a energia das urnas em organização permanente nos locais de produção, moradia e estudo, transformando o entusiasmo eleitoral em poder social concreto.
O Cenário de Surpresa: Rupturas Inesperadas, Fadiga do Império e Viradas Geopolíticas
O momento histórico contemporâneo é caracterizado pela bifurcação e pela não linearidade, comportando variáveis disruptivas que fogem aos cálculos deterministas da ciência política tradicional. A principal variável de surpresa no curto prazo reside na instabilidade aguda no próprio coração do império norte-americano, decorrente do esgotamento institucional, do endividamento desmedido e da contestação social aberta contra o autoritarismo de suas elites governantes. A desarticulação repentina das bases de apoio do trumpismo pode acelerar de maneira imprevista o colapso dos enclaves neofascistas latino-americanos, transformando lacaios e agentes foragidos em passivos políticos de pronta deportação e abandono absoluto.
Outro fator de surpresa situa-se na possibilidade de convulsões sociais nos países vizinhos subordinados ao choque ultraliberal rentista, como na Argentina, onde a destruição acelerada das forças produtivas e a miséria generalizada podem precipitar uma insurreição popular e uma greve geral política antes dos ciclos eleitorais previstos, forçando a recomposição antecipada da unidade progressista sul-americana. No plano da comunicação social e da técnica, a velocidade de apropriação popular das linguagens digitais e a criação de redes autônomas de contrapropaganda podem neutralizar os algoritmos das grandes corporações transnacionais com rapidez muito superior à capacidade de reação da censura privada dos monopólios midiáticos. A emergência de greves políticas inesperadas em setores nevrálgicos da circulação de energia e do transporte de dados pode subverter equilíbrios de poder considerados até então consolidados.
Tendências Conjunturais e a Práxis da Vanguarda Classista
A síntese dialética dos cenários aponta para a tendência irreversível de agudização das disputas pelo fundo público e pelo controle dos recursos materiais estratégicos nos próximos anos. A ilusão liberal de uma acomodação harmônica entre as classes sociais esfacela-se perante a crise orgânica do capital. A tendência prevalecente não indica o apaziguamento, mas a intensificação do confronto de classes em múltiplas dimensões: institucional, jurídica, territorial e cultural.
Para a vanguarda revolucionária e o movimento comunista, a tarefa histórica indelegável consiste em operacionalizar a crítica materialista como guia para a ação. O Planejamento Estratégico Situacional Popular e a Análise Integrada de Dados não podem figurar como adornos acadêmicos, mas como instrumentos precisos de intervenção para calcular a resposta dos adversários de classe, mapear os nós críticos da espoliação do solo e da renda e conduzir as massas na defesa e ampliação das conquistas populares. Ao superar a passividade burocrática, defender intransigentemente a soberania da pátria e sustentar a mobilização ininterrupta do povo trabalhador, o campo popular brasileiro consolida a sua blindagem histórica, isola o neofascismo em agonia e avança de forma decisiva na construção de uma nova hegemonia emancipatória e socialista.
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