Por José Rios
Resumo
O presente artigo analisa a conjuntura sociopolítica e econômica dos Estados Unidos sob a lente do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista. Diante da erosão da hegemonia global unipolar e do recrudescimento da necroeconomia imperial, examinam-se os limites intrínsecos da democracia liberal-burguesa e a emergência de contradições endógenas no centro do sistema capitalista. Sustenta-se que a superação da crise orgânica e o represamento da agressividade militarista do império não dependem das alternâncias eleitorais bipartidárias, mas da consolidação de uma práxis autônoma da classe trabalhadora e da solidariedade anti-imperialista internacional.
Introdução: A Lógica da Paralaxe e a Crise Orgânica do Capital
A compreensão da formação social dos Estados Unidos contemporâneos exige desconstruir as narrativas idealistas do liberalismo, que reduzem as fraturas políticas a desvios morais ou conflitos de personalidades conjunturais. A análise em paralaxe expõe a dualidade fundamental do regime: a coexistência entre o discurso de preservação das instituições democrático-formais e a realidade material da acumulação por espoliação.
Sob a ótica do materialismo histórico-dialético, o Estado burguês ianque opera como a síntese institucional das necessidades do capital monopolista-financeiro. Quando a taxa de lucro na esfera produtiva entra em declínio estrutural, o império recorre ao complexo industrial-militar e às intervenções neocoloniais para forçar a valorização do capital. Essa dinâmica constitui o núcleo da necroeconomia, uma engrenagem cuja continuidade transcende a alternância superficial entre formações partidárias no poder.
A Falsa Alternativa Bipartidária e o Papel do Eleitoralismo
A mobilização de amplos setores da classe trabalhadora, minorias e segmentos progressistas em momentos de disputa eleitoral reflete uma revolta legítima contra o avanço do chauvinismo e da austeridade. No entanto, a estrutura bipartidária estadunidense atua como o principal filtro institucional para conter e absorver o potencial transformador das massas.
O Partido Democrata cumpre a função histórica de amortecedor social das contradições do capital. Ao traduzir as demandas populares na linguagem das reformas institucionais, a centro-esquerda liberal neutraliza a consciência de classe e reconduz a indignação para o leito da estabilidade do Estado imperial. Assim, a disputa entre a extrema-direita neofascista e a tecnocracia liberal não constitui um combate entre tirania e emancipação, mas a escolha entre duas estratégias de gestão da crise orgânica do capital.
O Surgimento da Autonomia de Classe no Centro do Império
Apesar da captura ideológica promovida pelo regime bipartidário, o agravamento das condições de reprodução da força de trabalho — evidenciado pelo encarecimento da habitação, precarização do trabalho e inflação dos itens básicos de subsistência — fomenta a proliferação de novas formas de organização.
Nas margens do aparato tradicional, emergem movimentações sindicais autônomas, comitês de base e agrupamentos socialistas e comunistas que passam a tensionar o espaço público. A gestação de uma consciência de classe no coração da potência hegemônica decorre da constatação material de que nem a conciliação liberal nem o chauvinismo conservador oferecem saídas para o estrangulamento social. Essa organização autônoma representa o germe de uma contratendência real ao domínio monopolista.
Dialética da Multipolaridade e Solidariedade Anti-Imperialista
A crise interna do império não pode ser dissociada da transformação da arquitetura geopolítica global. O fortalecimento de polos soberanos no Sul Global e a emergência da multipolaridade comprimem a capacidade do centro imperialista de transferir os custos de suas contradições para as periferias.
Essa resistência externa impõe limites objetivos à pilhagem neocolonial. Quando os povos do Sul Global afirmam sua soberania econômica e política, a burguesia ianque é desprovida dos superlucros imperiais que historicamente permitiram a cooptação da aristocracia operária metropolitana. O resultado exógeno é a reverterão da crise para o ambiente doméstico, impulsionando a polarização e desnudando a essência exploradora do regime perante seus próprios trabalhadores.
Nesse horizonte, a solidariedade internacionalista deixa de ser um imperativo ético abstrato para se converter em necessidade estratégica. A articulação entre as lutas de libertação nacional e anti-imperialistas do Sul Global e o movimento operário autônomo no centro do império constitui a aliança capaz de desarmar a necroeconomia.
Conclusão: A Encruzilhada Histórica
O império enfrenta um dilema de caráter histórico. O avanço da multipolaridade e a fratura da coesão social interna reduzem as margens de manobra da classe dominante. Sem uma rutura com a ilusão do eleitoralismo burguês, a tendência imanente do capital em declínio é a escalada da violência estatal, da repressão migratória e do militarismo no plano externo.
A verdadeira contenção do arbítrio e do autoritarismo imperial não virá da recomposição das maiorias parlamentares liberais, mas do fortalecimento das vertentes anticapitalistas no seio da classe trabalhadora estadunidense, integradas organicamente à práxis anti-imperialista global. É nessa convergência que reside a possibilidade histórica de superar a barbárie e construir uma nova ordem social fundada na emancipação humana.
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