Por José Evangelista Rios da Silva
Olhar essa sequência de virada de outubro para novembro — Dia do Comerciário (30/10), Halloween (31/10), Todos os Santos (01/11) e Finados (02/11) — sob o materialismo histórico-dialético e a paralaxe classista revela que o calendário nunca é neutro: ele é um campo de disputa pelo tempo social, pela apropriação do mais-trabalho e pela administração simbólica do medo e da morte.
A noção de paralaxe (o deslocamento do objeto conforme a posição do observador) expõe a contradição estrutural entre capital e trabalho:
- Para o capital, a sucessão dessas datas oscila entre prejuízo de produtividade e oportunidade voraz de giro de mercadorias.
- Para o trabalhador, o feriado é a trégua mínima para reconstituir a força de trabalho e confrontar o próprio esgotamento.
1. 30 de Outubro: O Tempo Arrancado na Luta
O Dia do Comerciário não brotou da concessão burocrática, mas da greve e da marcha de 1932 no Catete. Dialeticamente, a lei (hoje Lei 12.790/2013) opera a captura institucional de uma revolta: o Estado fixa a data para apaziguar a tensão. Na paralaxe patronal, o feriado do comerciário é transferido, negociado em banco de horas ou esvaziado via escalas 6×1; para a classe trabalhadora, é a lembrança material de que a jornada diária de oito horas foi arrancada com os pés na rua.
2. 31 de Outubro: O Fetiche da Mercadoria e o Terror Desdentado
O Halloween, originalmente um rito ligado aos ciclos agrários de colheita e escassez (o Samhain celta), foi subsumido pelo capital industrial e imperialista. Desprovido de sua raiz de enfrentamento coletivo da fome e do inverno, virou vitrine: fantasias sintéticas, guloseimas de xarope de milho e festas corporativas. O medo, que outrora era o medo real da intempérie e do desconhecido, é comodificado. Torna-se um susto inofensivo e asséptico, enquanto o verdadeiro horror cotidiano — a precarização do trabalho e o fantasma da demissão — segue velado pela rotina fabril e dos balcões.
3. 01 de Novembro: A Canonização como Apaziguamento Ideológico
A instituição do Dia de Todos os Santos pela Igreja romana no século IX não foi apenas teologia; foi a imposição de uma superestrutura ideológica sobre festividades pagãs e comunitárias. Sob o prisma do materialismo dialético, a santidade institucionalizada projeta a justiça social para o além-mundo: suporta-se a opressão terrena na promessa da coroa celestial. A santidade canonizada historicamente glorifica a resignação da base, enquanto as elites mantêm o monopólio da terra e do poder temporal.
4. 02 de Novembro: A Morte Nua e a Desigualdade dos Túmulos
Finados põe fim à sequência com a fratura final da finitude. O discurso hegemônico costuma dizer que “a morte iguala a todos”. A paralaxe classista desmonta essa ilusão em segundos:
- Antes do túmulo: uns morrem de cansaço, negligência sanitária, violência de Estado e insalubridade; outros têm longevidade comprada nos melhores hospitais privados.
- Depois do túmulo: a segregação espacial prossegue nos cemitérios-parque arborizados com mármore polido versus valas comuns e gavetas superlotadas nas periferias.
A morte sob o capitalismo não unifica; expõe a exploração até o último suspiro. O mesmo trabalhador do comércio que vendeu flores de plástico no dia 30 e 31 gasta seus parcos trocados no dia 2 para velar quem o sistema moeu antes do tempo.
Cordel do Povo em Quatro Atos: Do Balcão à Sepultura
Peço licença ao leitor Pra versar com precisão, Dessa roda do sistema Que consome a multidão: Pega o fim de outubro a jeito, Traz descanso no papel, Mas a luta do operário Não é brinca de painel!
No dia trinta, a memória Grita viva e vigilante: Foi em mil novecentos e trinta e dois Que o comércio revoltante Marchou firme pro Catete Contra o patrão e o senhor, Pra cortar doze horas secas E estancar tanto suor.
Hoje o patrão negocia, Diz: “Eu pago hora dobrada! Troco o teu feriado santo Por uma folga parcelada!” O balconista sorri, Com o joelho estalando: “O descanso é meu direito, Não venha me enrolando!”
Passa o trinta, vem o trinta e um, Chega o tal do Halloween, Coisa importada de fora, Vem com plástico e festim. Tem fantasma de mentira, Monstro de papel crepom, Bruxa rindo na vitrine, Doces no mostruário bom.
Mas o susto de verdade Não é capa e nem vampiro: É a escala seis por um Que não deixa dar suspiro! O fantasma do boleto Assombra mais que caixão, E o patrão chupando sangue Disfarçado de patrão!
Dia primeiro desponta: Todos os Santos no altar! Diz o padre no sermão Pro fiel se conformar: “Quem sofreu na terra bruta Lá no céu vai descansar!” Mas com barriga vazia, Ninguém quer só oração: Queremos terra e fartura Nesta vida, e não em vão!
E no dia de Finados, Vem o pranto e a reflexão: Dizem que a morte nivela O operário e o barão. Ora, venha pro jazigo Ver a crua divisão! Um tem mármore de luxo Com anjinho esculpido, Outro jaz na cova rasa, Muitas vezes esquecido.
Morre cedo o explorado Pelo peso da canseira, Enquanto o dono da terra Tem velório de primeira. Mas o povo quando chora Pela ausência do parente, Guarda a dor no fundo d’alma E transforma em semente!
Que a saudade vire força, E o descanso vire lei: Nem fantasma, santo ou cova Vai calar o que passei. Comerciário na rua, Bate o pé e faz barulho, Pois quem faz a roda viva Tem coragem e tem orgulho!
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