A BAHIA NA ENCRUZILHADA DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL:

Por José Rios

Infraestrutura, Reindustrialização e Soberania sob a Lente da Paralaxe Classista

1. Introdução: O Novo Eixo Logístico e a Superação do Subdesenvolvimento Planejado

A análise da Bahia contemporânea exige afastar as leituras superficiais que reduzem o estado a uma dicotomia estática entre a riqueza cultural e a pobreza estrutural. Sob o rigor metodológico do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista, articulados às ferramentas de planejamento do PESC-MAPP (Planejamento Estratégico Situacional) e da práxis político-pedagógica PAID-MAPE, o território baiano revela-se como o pivô logístico, energético e industrial indispensável para a retomada do projeto de soberania nacional a partir de 2023.

Historicamente, o subdesenvolvimento baiano não foi um acidente geográfico, mas o resultado de um arranjo colonial e oligárquico — corroborado pelo redesenho regional imposto pelo IBGE em 1970 ao inserir o estado na Região Nordeste para fins de planejamento econômico — que confinou a Bahia ao papel de exportadora de commodities primárias e mercado consumidor subordinado ao eixo centro-sul. No entanto, a convergência entre a retomada do planejamento estatal federal (PAC), a injeção maciça de investimentos públicos e privados e a consolidação de infraestruturas estratégicas coloca a Bahia na linha de frente de uma nova rota de reindustrialização soberana.

2. A Materialidade do Espaço: FIOL, Portos e a Reconfiguração dos Fluxos de Classe

A Ferrovia Oeste-Este (FIOL), associada ao Porto Sul em Ilhéus e à integração com a malha portuária de Salvador e Aratu, constitui a espinha dorsal de uma revolução na circulação de capital e mercadorias que altera profundamente a geopolítica do interior baiano.

  • O Escoamento e a Contradição das Commodities: A FIOL conecta os ricos vales agrícolas do Oeste baiano (como Barreiras e Formosa do Rio Preto) e as jazidas minerais do centro-state direto ao Oceano Atlântico. Sob a lente crítica, a extração de minério de ferro e a produção em larga escala de grãos (soja e algodão) — bem como o escoamento de pedras ornamentais extraídas no território baiano, cuja comercialização fiscal e tributária frequentemente evade para outros estados da Federação — evidenciam a voracidade do capital exportador.
  • A Infraestrutura como Instrumento de Soberania: Dialeticamente, se a burguesia agrária e o capital transnacional tentam utilizar esses modais para a reprodução do capital parasitário, a soberania popular exige que o Estado recupere o controle estratégico dessas vias. A conclusão da FIOL e a modernização portuária reduzem drasticamente o custo logístico, viabilizam a circulação da produção regional e criam as condições materiais para a agregação de valor industrial em território baiano, rompendo com a lógica primário-exportadora de “terra de passagem”.

3. Transição Energética e Reindustrialização: O Complexo Eólico, Solar e Automotivo

A Bahia consolidou-se como potência hegemônica na transição energética nacional, liderando a geração de energia eólica e solar na América Latina, além de despontar na vanguarda da mobilidade elétrica com a instalação do polo industrial da BYD em Camaçari.

  • A Geopolítica da Energia Verde: A profusão de parques eólicos e solares no semiárido baiano e nos Territórios de Identidade não pode ser analisada apenas pelo viés técnico da sustentabilidade. Sob a paralaxe classista, questiona-se: a quem serve essa energia? A conversão da imensa capacidade de geração energética limpa em insumo estratégico para a reindustrialização do estado — fornecendo eletricidade barata e segura para o refino, para a indústria metalmecânica e para os complexos químicos — é o que diferencia a soberania produtiva da simples subserviência a fundos de investimentos globais de energia verde.
  • O Polo Automotivo de Camaçari e a Indústria de Base: A ocupação das antigas instalações fabris por montadoras de veículos elétricos (BYD) e a cadeia de suprimentos correlata reanimam o parque industrial baiano. Para que esse surto industrial não se reduzca a uma “ilha de modernidade” cercada de precarização laboral, a práxis político-pedagógica (PAID-MAPE) exige a organização sindical classista e a exigência de contrapartidas em transferência tecnológica, geração de empregos formais de alta qualificação e valorização salarial.

4. O PAC e a Integração Metropolitana: Mobilidade e Direito à Cidade

O retorno dos investimentos federais via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), aliado ao esforço fiscal e administrativo do governo estadual, destrava obras estruturantes de mobilidade e integração urbana que incidem diretamente sobre a vida da classe trabalhadora soteropolitana e metropolitana:

  • A Ponte Salvador-Itaparica e a Expansão Vetorial: Mais do que uma obra de engenharia monumental, a ponte religa Salvador ao Recôncavo e ao Sul do estado, reconfigurando os fluxos demográficos e econômicos, exigindo rigoroso planejamento territorial para evitar a especulação imobiliária predatória e a expulsão das comunidades tradicionais.
  • A Integração dos Modais (Metrô e VLT): A expansão do sistema metroviário e a implantação do novo VLT do Subúrbio representam a retomada do transporte público como direito social e valor de uso, combatendo a segregação espacial imposta historicamente pelo capital imobiliário e pelas empresas de ônibus tradicionais.

5. Conclusão: Está a Bahia na Linha de Frente do Desenvolvimento Nacional?

Aplicando o modelo de diagnóstico situacional (PESC-MAPP), a resposta é afirmativa nas potencialidades materiais, mas condicionada na práxis política: Sim, a Bahia possui todas as condições objetivas — a maior costa litorânea, fronteiras estratégicas com nove estados, abundância energética, malha ferroviária e portuária em expansão, e um PIB superior a R$ 400 bilhões — para liderar a vanguarda do novo ciclo de desenvolvimento nacional.

Contudo, o salto qualitativo de “estado rico com povo empobrecido” para uma sociedade soberana e socialmente justa exige a superação dos bolsões de pobreza e extrema pobreza (que ainda atingem parcelas significativas da população) e o combate firme à concentração de renda histórica. A Bahia cumpre seu destino histórico de farol da nação não apenas por sua herança cultural insubstituível, mas ao provar que a infraestrutura, a reindustrialização e a energia limpa, quando guiadas pela soberania popular e pela justiça de classe, transformam a resistência em vitória inapelável.

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