Anatomia do Gozo Autoritário

Por José Rios

Resumo

O presente artigo examina o fenômeno da adesão social e eleitoral ao bolsonarismo a partir da denúncia pública articulada por Eliane Brum sobre a ausência de constrangimento ético no voto reacionário. Mobilizando a paralaxe classista do materialismo histórico-dialético em interface com a psicanálise crítica, a sociopatologia e a filosofia política contemporânea, investiga-se como o consentimento ativo com discursos de extermínio ultrapassa a dimensão da racionalidade instrumental de classe. O trabalho demonstra que a permissividade diante da barbárie opera na intersecção entre a acumulação primitiva colonial permanente e uma estrutura pulsional sádica — aqui conceituada como neurosociopatia política coletiva. Por fim, confronta-se essa desregulamentação civilizatória com os marcos internacionais de direitos humanos tutelados pelo sistema multilateral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Palavras-chave: Bolsonarismo; Paralaxe Classista; Materialismo Histórico; Neurosociopatia Política; Direitos Humanos.

Introdução

A formulação de Eliane Brum — ao constatar que o trauma central da sociedade brasileira contemporânea reside na descoberta de que parcelas expressivas da população consideram legítimo endossar projetos fundamentados na exaltação da ignorância, do extermínio do dissidente e da truculência sem experimentar drama de consciência — coloca um desafio de envergadura às ciências sociais. Se a crítica liberal costumeiramente reduz a ascensão da extrema-direita à desinformação ou a déficits educacionais, e se a leitura economicista vulgar tende a circunscrevê-la unicamente a oscilações de renda e poder de compra, tais abordagens revelam-se insuficientes diante do fenômeno da cumplicidade afetiva e desinibida com o horror.

A superação desse impasse interpretativo exige o emprego do materialismo histórico-dialético sob a operação da paralaxe classista, articulado à análise das patologias psíquicas de massa. A postura do eleitorado que “aprecia os arrotos de poder” não decorre de simples alienação passiva, mas da mobilização ativa de pulsões destrutivas canalizadas para a manutenção da hierarquia social. Trata-se de apreender como a infraestrutura de um capitalismo periférico de herança escravocrata produz, na superestrutura ideológica e na economia libidinal, formações subjetivas com traços sociopáticos funcionalmente integrados à reprodução da ordem hegemônica.

A Paralaxe Classista e a Historicidade da Brutalidade

Na tradição marxiana e nos desenvolvimentos da crítica ontológica contemporânea, a paralaxe designa o hiato constitutivo entre diferentes pontos de observação da mesma totalidade social. Sob a lente da paralaxe classista, o voto de adesão ao líder autoritário desdobra-se em dois registros irreconciliáveis:

  1. A perspectiva da preservação da hierarquia: Para a classe dominante e estratos médios ressentidos, o discurso da truculência é percebido como restauração da “ordem”, da autoridade patriarcal e do disciplinamento do trabalho. A hostilidade dirigida aos avanços periféricos — sintetizada no pavor da democratização do consumo e dos espaços públicos — demanda um poder soberano explicitamente violento que reafirme as fronteiras da subordinação.
  2. A perspectiva da reprodução colonial: Para as populações historicamente subalternizadas (indígenas, negros, trabalhadores precarizados), a retórica do extermínio não constitui uma novidade retórica, mas a explicitação sem mediações do pacto colonial da “Casa-Grande”. A violência que outrora operava de modo informal e velado pela ideologia da “cordialidade” é alçada a projeto programático estatal.

A dialética dessa relação evidencia que o projeto autoritário não rompe com a formação social brasileira; ele apenas desfaz as concessões cosméticas pactuadas na Nova República. A classe burguesa e seus satélites sociais dispensam os mediadores civilizatórios tradicionais sempre que as taxas de lucro ou a disciplina social exigem uma gestão necropolítica da força de trabalho excedentária.

A Neurosociopatia Política: O Gozo Além da Luta de Classes

Embora a determinação econômica constitua a base material do processo, a ausência de constrangimento moral identificada por Brum aponta para um fenômeno que extrapola o cálculo de utilidade de classe imediato: a emergência de uma neurosociopatia estruturalmente induzida.

Diferente da sociopatia estritamente clínica — categorizada como disfunção individual de base biológica no processamento empático e moral —, a sociopatologia política resulta da desinstitucionalização das barreiras normativas que contêm a agressividade destrutiva. Como já apontavam Theodor Adorno e Max Horkheimer ao investigarem os elementos do antissemitismo, e Wilhelm Reich ao examinar a psicologia das massas reacionárias, regimes totalitários e populismos autoritários ativam um dispositivo sádico: a liberação socialmente autorizada da crueldade sem culpa.

O eleitor que celebra a morte, a tortura de opositores ou a devastação de ecossistemas obtém dessa celebração um rendimento psíquico substitutivo. Diante do desamparo existencial imposto pela precarização neoliberal, a identificação mimética com o líder brutal oferece uma prótese de onipotência. A incapacidade de sentir compaixão pelo vulnerável — diagnosticada sociologicamente como senilidade afetiva coletiva — indica a atrofia funcional dos circuitos empáticos, substituídos por um filtro de hostilidade persecutória. O sofrimento alheio deixa de suscitar interdito moral e passa a atuar como espetáculo catártico, operando uma regressão na capacidade de abstração e juízo ético.

A Erosão Humanista perante a Arquitetura Multilateral

A normalização da barbárie corrói a matriz axiológica do humanismo universalista, erigido no pós-Segunda Guerra Mundial precisamente como resposta aos colapsos civilizatórios causados pelo nazi-fascismo. A recusa em reconhecer a alteridade como sujeito pleno de direitos coloca a prática política autoritária em rota de colisão direta com os mecanismos multilaterais de proteção humana estabelecidos no âmbito da ONU.

O endosso eleitoral a práticas de violação sistemática afronta os princípios basilares da Declaração Universal dos Direitos Humanos, particularmente no que concerne à dignidade intrínseca de todos os membros da família humana e à interdição da discriminação e de tratamentos desumanos ou degradantes. No mesmo sentido, a exaltação da força contra etnias vulnerabilizadas e dissidentes transgride compromissos vinculantes expressos no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e nas convenções para a prevenção do genocídio e de todas as formas de discriminação racial.

Quando o tecido social naturaliza o discurso de eliminação, ocorre uma quebra unilateral do contrato fundante da civilidade contemporânea. A falência da empatia individual articula-se, assim, ao desmonte programático das garantias fundamentais coletivas, expondo a fragilidade de ordenamentos constitucionais e tratados internacionais quando estes se deparam com massas cuja economia pulsional foi cooptada pelo niilismo destrutivo.

Conclusão

A constatação de que a sociedade tolera e aplaude a pulsão da violência revela que a crise brasileira não é redutível a um mandato eleitoral transitório, mas expressa uma fratura ontológica na convivência coletiva. Sob a determinação materialista da história, o bolsonarismo representou a coalescência entre os imperativos materiais de espoliação de um capitalismo dependente e os impulsos sádicos de uma subjetividade neurosociopata fabricada na longa duração do racismo e do autoritarismo patriarcal.

A recuperação do terreno humanista perdido exigirá mais do que alternâncias formais de governo ou medidas paliativas de conformação institucional. Impõe-se o enfrentamento simultâneo das bases econômicas que sustentam a descartabilidade da vida humana e a reconstrução dos laços éticos de sociabilidade, desmantelando os dispositivos culturais, religiosos e digitais que converteram a covardia moral e a indiferença diante da morte em virtudes políticas.

Referências

  • ADORNO, Theodor W. et al. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Row, 1950.
  • BRUM, Eliane. Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2019.
  • HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Resolução 217 A (III) da Assembleia Geral. Paris: ONU, 1948.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. Resolução 2200A (XXI) da Assembleia Geral. Nova York: ONU, 1966.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. Resolução 260 A (III) da Assembleia Geral. Paris: ONU, 1948.
  • REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • ŽIŽEK, Slavoj. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.

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