Por José Rios
Resumo
Este artigo investiga a instrumentalização política de textos bíblicos arcaicos na manutenção da hegemonia ideológica anticomunista, sob a perspectiva combinada do materialismo histórico-dialético, da noção de paralaxe (Žižek) e da economia libidinal de Wilhelm Reich. Examina-se como a obscuridade sintática e semântica do português bíblico tradicional é mobilizada como barreira hermenêutica que desvia a classe trabalhadora da análise de suas condições materiais concretas. Por meio da indução de pânico moral, culpa e paralisia crítica, o discurso autoritário canaliza angústias psicossociais para a defesa do próprio sistema de exploração, ressignificando textos de denúncia social em esteios da ordem dominante.
Palavras-chave: Ideologia; Teologia Política; Wilhelm Reich; Paralaxe; Materialismo Histórico.
Introdução
O fenômeno da adesão das classes subalternas a projetos políticos que aprofundam sua precarização material constitui um dos problemas centrais do pensamento social crítico. Se a ortodoxia mecanicista supunha uma correspondência direta e automática entre miséria econômica e eclosão da consciência de classe, a história política contemporânea demonstra a persistente capacidade das elites dirigentes em produzir submissão ativa e consentimento no seio do próprio proletariado.
Para apreender as engrenagens dessa contradição sem recair no moralismo, faz-se necessário articular o materialismo histórico com a crítica da ideologia formulada por Wilhelm Reich em Psicologia de Massas do Fascismo, suplementada pela operação da paralaxe teórica. A captura subjetiva opera com particular eficácia quando intermediada por aparatos religiosos tradicionais. Neles, o uso de terminologias do português arcaico e de construções sintáticas herméticas atua não apenas como ornamento estilístico, mas como um dispositivo epistemológico deliberado de desorientação cognitiva, projetado para converter angústias materiais em pânico escatológico e submissão à autoridade temporal.
A Fratura de Paralaxe e a Inversão Ideológica
A noção de paralaxe, no campo da dialética materialista contemporânea, descreve o deslocamento irredutível na perspectiva que evidencia uma fratura constitutiva no próprio objeto observado. No contexto da mediação estatal e das disputas institucionais, observa-se uma disparidade estrutural: enquanto a prática política dos governos social-democratas ou reformistas operou historicamente dentro da estrita administração dos interesses do grande capital — preservando a propriedade privada, o superávit fiscal e a taxa de lucro da burguesia financeira e do agronegócio —, a percepção subjetiva mobilizada pelo reacionarismo a converte em ameaça comunista totalitária iminente.
Essa fratura é explicada pela teoria da ideologia de Karl Marx e Friedrich Engels: a ideologia atua como uma câmara escura que inverte as relações materiais reais. A classe dominante, controlando os meios de produção material e espiritual, impõe suas ideias como universais. O termo “comunismo”, esvaziado de seu conteúdo objetivo de transformação do modo de produção e superação do trabalho assalariado, passa a funcionar como significante vazio que abriga todos os receios difusos de ruptura identitária e dissolução moral, blindando o sistema capitalista contra qualquer questionamento sobre a apropriação da mais-valia.
A Couraça Caracteriológica e a Economia Libidinal do Autoritarismo
A reprodução contínua da dominação exige um terreno psicológico previamente adubado para a subordinação. Wilhelm Reich demonstrou que a estrutura de classes se ancora na estrutura psíquica dos indivíduos por meio da repressão sexual e moral inculcada primordialmente no seio da família patriarcal autoritária.
A inibição precoce da curiosidade vital, da sexualidade e da autonomia funcional gera uma personalidade caracterizada pela rigidez e pela ansiedade crônica diante da desordem. Esse sujeito couraçado busca, na vida adulta, o amparo compensatório em estruturas hierárquicas rígidas e líderes punitivos que reproduzam a autoridade paterna. Sob essa dinâmica, a liberdade substantiva e a emancipação social não são experienciadas como horizontes desejáveis, mas como fontes de terror e anomia.
A exaltação da agressividade estatal, da militarização e do individualismo predatório é absorvida não a despeito de sua violência, mas precisamente por ela: a rigidez do poder soberano tranquiliza o indivíduo infantilizado, enquanto o discurso emancipador e pluralista é identificado inconscientemente com a desintegração moral e o caos pulsional.
O Hermetismo Arcaico como Dispositivo de Dominação Teológica
A mediação teológico-política do anticomunismo apoia-se decisivamente na barreira da linguagem. A manutenção de traduções bíblicas calcadas em formas pronominais e sintáticas arcaicas — marcadas pelo hiperbato, verbos transitivos desusados e vocabulário alheio ao português contemporâneo — cumpre três funções ideológicas interligadas:
- A sacralização da obscuridade: O rebuscamento formal constrói uma aura de mistério inescrutável. Ao não compreender os encadeamentos gramaticais, o leitor proletário é forçado a abdicar do juízo analítico imediato, delegando a decodificação do texto ao líder eclesiástico, que se assenta na posição de intérprete mediador absoluto.
- A inflação da culpa e do risco: Termos como “iniquidade”, “abominação” ou “perdição”, retirados de seu contexto histórico veterotestamentário ou do Oriente Próximo antigo, são rearticulados semântica e arbitrariamente contra qualquer proposta de transformação social. O crente é colocado em estado perpétuo de vigilância culposa, onde discordar das hierarquias políticas da comunidade equivale a atrair castigos transcendentais.
- A captura e inversão de textos emancipatórios: O caso mais flagrante desse mecanismo é a apropriação de passagens bíblicas de corte frontalmente anti-hegemônico. Um exemplo paradigmático reside na tradição profética e apostólica (como em Tiago 5:4, que denuncia o clamor do salário retido fraudulentamente pelos ceifadores de terras). No discurso hegemônico conservador, a semântica arcaica permite que essas interpelações materiais contra a acumulação de terras e a exploração do trabalho sejam transmutadas em abstratas batalhas espirituais de lealdade e temor reverente, blindando o latifúndio moderno e o capital financeiro contra a crítica imanente.
A abstração transcendental opera, assim, o esvaziamento do conflito de classes. A contradição antagônica entre capital e trabalho é convertida na dicotomia metafísica entre os justos e os ímpios, o sagrado e o profano, a ordem e o caos.
A Dialética da Alienação e a Recusa da Autonomia
Ao desarticular as conexões materiais que explicam a miséria, o desemprego e a degradação sanitária e ambiental, o dispositivo retórico-religioso atua como mecanismo de compensação narcísica. O sujeito espoliado e sem controle sobre sua existência cotidiana encontra, na condição de membro de um exército metafísico de “eleitos”, uma reintegração simbólica contra as humilhações da sociedade capitalista.
A defesa de regimes de exceção e governos que atacam a legislação trabalhista e o bem-estar social decorre da necessidade de estancar a angústia da responsabilidade histórica. Ao projetar sua redenção na obediência a preceitos transcendentais mediados pela liderança autoritária, o trabalhador alienado consagra sua própria impotência. O medo proclamado do comunismo manifesta-se, em última instância, como o medo visceral da autodeterminação política e da superação da ordem tutelar.
Conclusão
A adesão de estratos oprimidos ao autoritarismo anticomunista não resulta de mera ingenuidade cognitiva, mas da confluência funcional entre a reprodução das relações de produção capitalistas, a couraça psíquica forjada na repressão sistemática e uma hermenêutica clerical paralisante. A instrumentalização de textos sagrados envoltos em linguagem arcaica atua como freio inibitório da razão materialista, transmutando a opressão concreta em dever espiritual. A superação desse ciclo de submissão voluntária exige uma práxis política que articule a transformação das bases econômicas da sociedade à desmistificação cultural e à desestruturação dos aparatos psicológicos e discursivos que tornam a servidão desejada e tolerável.
Referências
- ENGELS, Friedrich. A dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
- REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
- ŽIŽEK, Slavoj. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
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