Por José Rios
A Crise Hegemônica Global e a Inflexão Material da Correlação de Forças
O encerramento do processo eleitoral de 2026 consolida o desfecho da contradição fundamental entre a afirmação da soberania popular emancipatória e a investida recolonizadora gerada pela crise estrutural de acumulação do capital internacional. Sob as leis do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista, a contenda pela direção do Estado desvencilha-se das narrativas formalistas da democracia representativa burguesa para revelar o confronto antagônico entre dois modos ontologicamente inconciliáveis de inserção da formação socioespacial brasileira na divisão internacional do trabalho. De um lado, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva assegura a preservação e o desenvolvimento autônomo das forças produtivas nacionais, alicerçados no controle público sobre riquezas estratégicas como a matriz energética e as reservas minerais críticas de terras raras, fortalecendo a transição multipolar articulada no interior do Sul Global e dos BRICS+. De outro vértice, a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro expressa o colapso conjuntural da fração rentista compradora que operava como correia de transmissão interna do imperialismo euro-atlântico sob o influxo direto do extremismo trumpista.
O resultado material das urnas, ao conferir 64.249.053 votos ao projeto popular contra 59.822.251 sufrágios à reação, sacramentou uma vantagem de 4.426.802 votos construída no próprio chão da reprodução social. Conforme os postulados clássicos da arte militar e estratégica da guerra popular de resistência elaborados por Vo Nguyen Giap e Sun Tzu, a campanha operou a passagem dialética da defensiva estratégica do primeiro turno para a contraofensiva geral das massas no segundo turno. A retórica reacionária de contestação das urnas e a declaração de impossibilidade de reconhecimento da derrota revelam a fragilidade típica da burguesia compradora, que, desprovida de lastro de massas e antevendo a perda do mandato executivo como instrumento de imunidade contra a responsabilização judicial, busca recorrer ao tumulto institucional para encobrir seu isolamento político.
A Geografia Material da Luta de Classes e a Fratura Espacial do Capitalismo Brasileiro
A análise espacial dos votos sob a ótica da paralaxe de classe desfaz as abstrações da geografia eleitoral burguesa e desnuda as bases materiais de reprodução da sociedade. A conformação do saldo nacional vitorioso decorreu da muralha operária e camponesa do Nordeste brasileiro, onde a memória viva das conquistas materiais imediatas funcionou como dique de contenção contra a barbárie neofascista. As maiorias proletárias da Bahia — que asseguraram uma dianteira superior a 3,87 milhões de votos —, de Pernambuco, do Ceará e do Maranhão votaram movidas pela necessidade objetiva de reprodução da vida: a defesa dos pisos constitucionais de saúde e educação, a manutenção do poder aquisitivo do salário mínimo e a garantia de que as transferências de renda e as políticas de segurança alimentar não seriam liquidadas pela especulação financeira.
Essa determinação popular encontrou ponto de convergência no papel histórico do proletariado de Minas Gerais, onde a reversão da vantagem consolidou um saldo favorável ao polo progressista. Em sentido antagônico, a concentração eleitoral obtida pelo bloco conservador nos estados do Centro-Sul e do Centro-Oeste — notadamente em São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul — expressa a hegemonia ideológica e a coerção econômica exercidas pelo complexo do agronegócio predatório e pelas redes do capital financeiro parasitário sediado na Faria Lima. Contudo, a paralaxe classista evidencia que, mesmo no epicentro financeiro paulista, os mais de doze milhões de votos obtidos por Lula emanaram das fábricas, das periferias e dos bolsões proletários metropolitanos, expondo a divisão inconciliável entre o mundo do trabalho e os bairros da aristocracia financeira rentista.
A Desmistificação do “Tesouraço” Fiscal e a Vanguarda Popular
No plano da economia política sindical, o fator decisivo para a inflexão da disputa residiu na demolição das ilusões em torno da disciplina orçamentária burguesa. A demonstração técnica e científica formulada pelo DIEESE e pelas centrais operárias sobre a natureza do ajuste fiscal pretendido pela extrema-direita — o chamado corte orçamentário de R$ 200 bilhões — transformou o debate eleitoral ao provar que a austeridade rentista custaria a destruição de 2,2 milhões de postos formais de trabalho e o confisco de R$ 68,7 bilhões da massa salarial com o objetivo exclusivo de irrigar a dívida pública. A dita responsabilidade fiscal burguesa desnudou-se como expropriação violenta voltada a asfixiar a seguridade social para remunerar o capital especulativo improdutivo.
A resposta da classe trabalhadora superou a chantagem econômica através da mobilização direta do bloco histórico subalterno. A vanguarda operária, os sindicatos combativos, o levante estudantil no asfalto, os cientistas, pesquisadores e artistas populares desmontaram a guerra psicológica corporativa e o cerco algorítmico das grandes plataformas de tecnologia. A apropriação coletiva de redes comunicacionais descentralizadas, o canal militante que mobilizou dez milhões de voluntários e a vitória civilizatória conquistada na luta contra a jornada extenuante da escala de trabalho 6×1 consolidaram o sentimento de classe. No dia da votação, a tentativa de coerção logística e sabotagem do transporte público executada em pontos periféricos estratégicos foi neutralizada pela prontidão sindical e pela solidariedade de base, garantindo que o proletariado chegasse massivamente às urnas.
As Tarefas Históricas da Vanguarda e o Horizontes do Quarto Mandato
A proclamação dos resultados finais e a consagração do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva encerram um momento tático primordial, mas inauguram de imediato uma etapa superior e mais complexa da luta de classes. A derrota nas urnas não dissolve organicamente a base social reacionária de quase sessenta milhões de votos, forjada em décadas de desmonte industrial, captura fundamentalista e ideologia do empreendedorismo subordinado. Para a militância classista forjada na tradição marxista, o horizonte exige a recusa ao otimismo passivo e o fortalecimento permanente do trabalho de formação política e organização nos locais de produção e moradia.
A sustentação material do novo ciclo depende da aplicação intransigente do planejamento estratégico orientado aos interesses soberanos da classe operária. O aparelho de Estado deve ser resgatado das amarras do rentismo parasitário para direcionar o fundo público à reindustrialização pesada, à consolidação dos investimentos produtivos do Novo PAC, à desoneração tributária permanente da produção popular e à defesa incondicional dos bens minerais e energéticos nacionais contra a rapina transnacional. A vitória de 2026 afirma a dignidade do trabalho sobre o parasitismo imperialista, demarcando perante a história que o destino soberano da República pertence irrevogavelmente àqueles que constroem a riqueza nacional com o suor de suas próprias mãos.
Deixe um comentário