Peço licença ao leitor, Ao povo trabalhador, Pra contar uma peleja De suor, garra e valor, Onde a rima vira arma Contra o jugo do opressor.
Não canto herói solitário, Nem príncipe coroado; Canto a saga coletiva Do corpo que é explorado, Que aos quatorze anos de idade Pelo balcão foi tragado.
Entrou menino na lida, No comércio de atacado, Vendo a mais-valia viva No lucro acumulado: O patrão guardando o ouro, O peão desenganado.
Mas a matéria da vida Não para na opressão; Na fenda da paralaxe, Muda o ângulo da visão: Quem repõe a mercadoria Pode fazer revolução!
Desde oitenta e um gravado Na foice e no martelo, Fez da foice o corte vivo, Do martelo o forge belo, Militando noite e dia Sem temer nenhum castelo.
Viu a cidade partida, São Salvador ancestral: A Cidade Alta mandando, A Baixa em jugo venal, O Comércio alimentando A gula do capital.
Fez-se mestre e geógrafo Pra ler o chão da cidade, Estudou a pedagogia Para semear verdade, Mostrando que o território Grita por liberdade.
Pois o mapa do burguês Quer limpar, gentrificar, Mas a marcha do operário Não se deixa expulsar: O centro que é revitalizado É pro povo festejar!
Foi conselheiro do povo, Do consumo e do lazer, Para que a classe operária Não nasça só pra sofrer, Mas tenha direito à mesa, Ao descanso e ao saber.
No sindicato ergueu voz, Na federação lutou, No grande supermercado O abuso denunciou: Onde o caixa era moído, A consciência brotou.
O cordel não é enfeite, Nem mentira de ilusão; É o registro dialético Da nossa contradição: A tese que gera a força, A luta na antítese posta, E na síntese a redenção.
Essa história não tem dono, Tem raízes no sertão, Nas esquinas de Salvador, Na esteira do galpão: É a vida de quem não verga, Pois traz o punho erguido E a poesia na mão!
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