A Dialética do Chão e o Canto do Sujeito Coletivo

Peço vênia à matéria em movimento, Ao suor que alimenta a pulsação, Pra cantar a verdade deste chão Sem vaidade ou vazio monumento. Pois o ser não é fruto do momento, Nem nasceu para a jaula do egoísmo; Quem caminha nas teias do cinismo Há de ver que ninguém é bom sozinho, Nem no erro constrói o seu caminho, Nem na dor sobrevive ao abismo.

O burguês quer pregar o isolamento, O indivíduo atomizado na cidade, Vendendo a ilusão da liberdade Como se alma vivesse contra o vento. Mas o fato real, sem fingimento, É que o homem se faz em comunhão: O sujeito só brota na ação, No contato direto com o irmão, Transformando a semente da razão No mais puro pulsar da multidão.

Menino que aos catorze já labuta, Vendo a vida no balcão do armazém, Aprendeu que o valor que o mundo tem Vem do braço que verga e não recua. A vitrine reluz pela avenida, Mas esconde o trabalho e a opressão; É no caixa, na carga, no galpão, Que se forja a matéria da labuta, Onde a fome se choca com a disputa Pelo pão que alimenta a produção.

O espaço urbano tem sua fratura, O mapa não é plano no papel: A Cidade Alta espelha o coronel, Na Baixa o povo sua na amargura. O comércio, o porto e a lonjura Revelam o traçado da opressão; Mas o chão onde pisa a servidão Também gesta a revolta e a consciência, Transformando a fadiga em resistência, Na geografia viva do sertão e da nação.

A pedagogia que liberta a mente Não descende de cátedra isolada; Ela nasce na sola da calçada, Onde a fala do povo se faz semente. Quem ensina e aprende no batente Sabe bem que a lição é partilhada: Paulo Freire mostrou na caminhada Que ninguém educa outro sem olhar; É no mundo real, ao labutar, Que a matéria da vida é decifrada.

Nos Aparelhos do Estado a voz ecoa, Seja na escola, no bairro ou no comitê; O sujeito só cresce quando crê Que a presença jamais se faz à toa. Na associação onde a massa povoa, No partido que ergue a vanguarda, No sindicato em que a vida resguarda A trincheira de classe e a bandeira, O trabalhador vence a fronteira Da palavra que cala e se acovarda.

Nas redes e nas praças do presente, Onde a luta também se desenrola, O operário não baixa a sua gola Nem entrega a razão ao concorrente. Ouvir, falar, atuar firmemente Em cada fórum, conselho e decisão; Fazer valer a justa reivindicação Do consumo, da lida e do direito, Pois o ser só atinge o seu preito Quando rompe o cabresto da ilusão.

Essa história não traz um dono só, Não tem nome gravado em pedestal; É a saga do corpo operário e social Que desfaz a amarra nó por nó. Do tecido que ergue o grande nó Da vitória que o povo há de colher, Nenhum homem é livre sem pertencer À ciranda da luta e da memória: Quem se junta com a classe faz a história, Quem constrói o coletivo há de vencer!

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