Por José Rios
1.Introdução: A Estética do Terror e a Dialética do Riso ImperialA análise do contemporâneo exige a recusa categórica da separação metafísica entre a política institucional e a crueldade cotidiana. A partir do materialismo histórico e dialético, compreende-se que as superestruturas ideológicas — nas quais se inserem a cultura de massas, o humor digital e a espetacularização midiática — não constituem epifenômenos inofensivos, mas reproduzem e avivam as relações materiais de dominação.A visão em paralaxe revela aqui a fratura fundamental: enquanto o discurso liberal apresenta a violência do Estado burguês e o escárnio reacionário como acidentes retóricos ou excessos individuais, a realidade concreta demonstra que a pilhagem geopolítica e a zombaria fascista operam como engrenagens sistêmicas do imperialismo em crise. O riso perverso e a performance reacionária cumprem uma função estrutural: anestesiam a classe trabalhadora frente à barbárie, transformando a desumanização do outro em mercadoria cultural e coesão reacionária.2. A Geopolítica da Gargalhada: Do Massacre Imperial ao Deboche DomésticoA subsunção da política ao espetáculo necropolítico manifesta-se com nitidez translúcida nos episódios em que a soberania dos povos é violada sob os aplausos da sanha imperial e de seus lacaios locais.Quando potências hegemônicas instrumentalizam a força militar para perpetrar intervenções criminosas — a exemplo da escalada de agressões, assassinatos, o sequestro de mandatários estatais como Nicolás Maduro e Cilia Flores, e o latrocínio institucionalizado das reservas auríferas da Venezuela por administrações estadunidenses encabeçadas por Donald Trump —, o ato de força bruta não caminha isolado; ele vem acompanhado de uma linguagem de escárnio que desumaniza o povo venezuelano. A expropriação da riqueza social de uma nação soberana é naturalizada na grande mídia e nas redes digitais como um espetáculo de entretenimento punitivista.Em simbiose orgânica com essa violência macroestrutural, os setores reacionários subalternizados nas periferias do capitalismo — tipificados no Brasil pelo núcleo político-ideológico bolsonarista — ecoam e celebram essa dinâmica de terror. Manifestam-se implorando a intervenção do império do caos, exibindo artefatos bélicos e símbolos de terror como fetiches de submissão voluntária.Essa mesma estética da crueldade e do deboche institucionalizou-se no parlamento brasileiro quando figuras centrais da extrema-direita, encarnadas na figura do ex-mandatário nacional, justificaram votos de impeachment contra a primeira presidenta eleita do país, Dilma Rousseff, prestando homenagem pública a um notório torturador da ditadura militar. O escárnio, nestes casos, deixa de ser mero desvio comportamental para converter-se em pedagogia da tortura: a memória da violência de Estado é revivida e zombeteiramente requintada para intimidar a classe trabalhadora e paralisar qualquer horizonte de emancipação.3. A Paralaxe Classista e a Banalização do SofrimentoSob o prisma da paralaxe classista, o riso reacionário opera como um dispositivo de inversão ideológica. A dor das maiorias pauperizadas, das vítimas de bloqueios econômicos, das populações submetidas ao capacitismo, ao etarismo, ao racismo estrutural e à aporofobia é convertida em matéria cômica para desviar o foco das contradições fundamentais do capital.Quando a miséria gerada pela acumulação primitiva e pelo rentismo financeiro é ridicularizada nas plataformas digitais, o capital alcança sua vitória mais perversa: convence o explorado a rir do próprio carrasco e a hostilizar o seu igual. A desumanização do outro — seja o imigrante, o desempregado, a pessoa com deficiência ou o idoso abandonado à própria sorte — cumpre o papel de blindar a ordem burguesa contra a solidariedade de classe.O discurso de ódio performático e a jocosidade fascista não emergem do vácuo; expressam a decomposição de um modelo socioeconômico incapaz de oferecer perspectivas civilizatórias. A reação da burguesia decadente e de suas bases de massa fascistizadas recorre ao riso perverso porque a verdade material da exploração tornou-se insustentável sem o véu da mentira espetacularizada.4. Considerações Finais: A Urgência da Práxis CríticaA ofensiva do riso reacionário e da barbarizacão da política não se combate apenas no terreno formal do direito liberal, embora os marcos constitucionais e os pactos multilaterais dos direitos humanos ofereçam trincheiras normativas importantes de contenção. A superação dessa dinâmica requer o resgate intransigente da práxis materialista histórica e o fortalecimento da consciência de classe.Desmascarar o império do escárnio significa recusar a pecha de “falta de senso de humor” impuesta pelos agressores e reafirmar que a dignidade humana é incompatível com a estetização da crueldade. Somente através da luta organizada contra o imperialismo, contra o fascismo nativo e contra as estruturas de exploração capitalista será possível desarmar a máquina do deboche e resgatar o horizonte histórico da emancipação humana.Referências Bibliográficas * ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 2020. * BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Presidência da República, 1988. * MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018. * ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Paris, 1948. * SLOTERDIJK, Peter. Crítica da razão cínica. São Paulo: Estação Liberdade, 2012. * ZIZEK, Slavoj. Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
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