O Cerco Colonial e a Ofensiva Popular: Paralaxe de Classe, Guerra Híbrida e Soberania Nacional

Por José Rios

  1. A Inflexão Geopolítica e a Natureza de Classe da Ofensiva ReacionáriaA encruzilhada histórica enfrentada pela sociedade brasileira no processo eleitoral de outubro de 2026 inscreve-se na crise estrutural do sistema imperialista mundial e na reorganização das forças que disputam a hegemonia global. Sob o rigor metodológico do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista, desmistifica-se a tese liberal que reduz o embate entre dois projetos de poder a um mero torneio de marketing político institucionalizado. O confronto expressa o antagonismo irreconciliável entre a afirmação da soberania do Sul Global — alicerçada na multipolaridade e na integração estratégica dos BRICS+ — e a violenta tentativa de recolonização do território sul-americano pilotada pelo consórcio hegemônico euro-atlântico.Enfrentando perdas de posições hegemônicas no leste da Eurásia e no Oeste Asiático, os centros do capital financeiro internacional voltam seus olhos para a América Latina como reserva de valor indispensável à sustentação de sua acumulação parasitária. A correia de transmissão interna desse cerco geopolítico consolida-se na aliança orgânica entre a burguesia compradora, o latifúndio agroexportador predatório e as bancadas da extrema-direita parlamentar. Essa fração oligárquica atua como agente direta de desmonte do Estado nacional, visando a apropriação predatória do excedente gerado pelo trabalho e a entrega subordinada de bens energéticos, minerais críticos e do Pré-Sal aos conglomerados monopolistas transnacionais.2. A Guerra Cognitiva, a Sabotagem Institucional e a Memória Histórica de 1964A tática de dominação orquestrada pelas forças da reação patronal combina métodos avançados de guerra híbrida com a reedição dos arroubos autoritários que assolaram o país durante o ciclo da ditadura militar de 1964 a 1985. Naquele momento histórico, a ruptura constitucional patrocinada pela tutela externa impôs o terrorismo de Estado, a tortura de opositores, o aniquilamento das organizações populares e o estrangulamento da soberania industrial para adequar o Brasil à dependência colonial.No cenário contemporâneo, a operação golpista atualiza suas ferramentas por meio da desestabilização psicológica e da sabotagem deliberada do processo democrático:A produção intencional de caos e fadiga logística no primeiro turno, materializada em atrasos nas seções, transferências desordenadas de zonas eleitorais e filas quilométricas, operou como instrumento de desestímulo físico voltado a induzir a abstenção nas periferias e nos bolsões onde o voto popular é hegemônico.A infiltração sistemática de redes financeiras clandestinas no tecido comunitário e familiar busca semear a desconfiança, o desalento e o constrangimento moral sobre os trabalhadores, promovendo o ressentimento para minar a adesão consciente ao projeto democrático.O uso sistemático de falsificações conspiratórias acerca da integridade do sistema eleitoral cumpre o propósito de justificar previamente a desobediência civil da burguesia e pavimentar o caminho para a contestação antidemocrática das urnas.3. A Anatomia do Pacote Legislativo de Terra ArrasadaEnquanto os aparatos de propaganda fascista mobilizam histerias morais e preconceitos identitários como cortina de fumaça, o bloco parlamentar da reação avança nos bastidores institucionais com uma agenda legislativa desenhada para aniquilar as bases de sustentação do Estado social:A extinção simultânea de instituições fundamentais de soberania alimentar e saúde coletiva — como a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) e a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) — destrói os estoques reguladores de grãos e a proteção sanitária de pequenas comunidades, entregando o preço dos alimentos à especulação predatória do agronegócio e privatizando serviços essenciais de saneamento básico.A aniquilação dos pilares de memória e comunicação pública soberana, através da investida contra a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Agência Nacional do Cinema (ANCINE), opera o apagamento cultural da nação, garantindo o monopólio irrestrito dos algoritmos e do império midiático estrangeiro sobre a subjetividade das massas.O desmantelamento das garantias elementares da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a asfixia das aposentadorias públicas, por meio da desvinculação em relação ao salário mínimo, promovem o empobrecimento planejado da velhice e a precarização absoluta da força de trabalho jovem em favor da liquidez bancária. Esse arrocho sobre a maioria trabalhadora contrasta frontalmente com a proposta de isenção de tributos sobre a cúpula do estamento militar, expondo a compra de lealdade armada para reprimir a insatisfação social.4. O Despertar da Práxis Popular: Vetores de Capacidade e Virada HistóricaA leitura situacional do confronto dialético demonstra que o apetite voraz das forças reacionárias expõe suas maiores debilidades de classe. O suicídio eleitoral induzido — no qual o trabalhador espoliado é levado pelo ressentimento a votar no próprio carrasco — desmorona no instante em que a verdade material das propostas patronais é despida de sua camuflagem moralista.O protagonismo da juventude trabalhadora e estudantil, que ocupou ininterruptamente as avenidas dos principais centros urbanos do país em repúdio à anistia golpista e em defesa da educação pública, marca a ruptura do conformismo e atua como detonador da energia revolucionária das massas. Essa mobilização de rua, articulada ao bastião inexpugnável de resistência classista do Nordeste e da Bahia, estabelece o terreno para a contraofensiva geral.A tarefa imediata e indeclinável de todas as forças democráticas, sindicais e populares nestas duas semanas reside em desatar os nós críticos da abstenção: * Organizar brigadas populares de esclarecimento nas periferias urbanas para resgatar os votos dos setores silenciados e das pessoas idosas. * Assegurar a fiscalização vigilante e militante sobre a gratuidade irrestrita do transporte público no dia 25 de outubro. * Desmascarar o projeto rentista evidenciando que quem vota contra a previdência, a CLT e a soberania alimentar vota pela destruição da própria família.A história da emancipação humana não se escreve pela resignação diante do arbítrio, mas pela têmpera da luta de classes. Ao empunhar com rigor e firmeza o programa da soberania nacional, da autodeterminação dos povos e da dignidade material de quem trabalha, a classe trabalhadora brasileira transformará a resistência em vitória inapelável, sepultando nas urnas o neofascismo e resgatando o destino altivo e soberano da pátria.

Deixe um comentário