Por José Rios
Resumo Analítico: O presente ensaio examina a contradição estrutural entre o fetiche jurídico-político da democracia liberal — sintetizado em rituais midiáticos de celebração do voto — e a realidade concreta da luta de classes no Brasil, acentuada pelos resultados das eleições para a 58ª Legislatura do Congresso Nacional. Sob a ótica do materialismo histórico e dialético e da paralaxe classista, evidencia-se que a expansão de forças conservadoras e liberais nas instâncias legislativas consolida a sub-representação histórica das classes subalternas, operando sob tutelas geopolíticas e marcos institucionais que blindam o Estado capitalista dependente.1. Introdução: O Fetiche do Voto e a Ilusão da Igualdade FormalA manifestação pública da jornalista Sandra Annenberg por ocasião do primeiro turno das eleições de 2026, repercutindo amplamente nas plataformas digitais, encapsula a narrativa hegemônica da democracia burguesa: o sufrágio universal erigido à condição de rito máximo de comunhão cívica, o “dia em que todos nós somos iguais” e no qual o voto individual possui o mesmo peso abstrato. Esta formulação, embora ressoe com a emoção legítima de quem vivenciou a superação formal do regime ditatorial em 1989, incorre no equívoco metodológico de isolar o momento da votação de suas determinações materiais.Sob a perspectiva da paralaxe classista, o que para a burguesia e sua intelligentsia se afigura como a “festa da democracia” revela-se, para a classe trabalhadora, um mecanismo esporádico de legitimação de um sistema de dominação de classe. A igualdade na cabine de votação é puramente formal e jurídica; ela dissolve-se imediatamente diante das abissais desigualdades materiais que antecedem e sucedem o pleito. O poder econômico concentrado, o financiamento privado e oligopolizado de campanhas, o controle dos grandes conglomerados midiáticos e a arquitetura digital de desinformação asseguram que a correlação de forças na sociedade civil determine antecipadamente os limites da representação política institucional.2. A Configuração da 58ª Legislatura: A Hegemonia do Centrão e o Aprofundamento da Sub-representaçãoOs dados consolidados para a composição da 58ª Legislatura do Congresso Nacional confirmam a consolidação de um parlamento estruturalmente refratário aos interesses das massas trabalhadoras. O avanço expressivo de legendas de matiz conservadora e liberal — com destaque para a expansão numérica do Partido Liberal (PL) em ambas as Casas e a manutenção do chamado “Centrão” como eixo gravitacional de poder — evidencia a falência crônica da democracia representativa burguesa em refletir a pluralidade social do país.Neste cenário, a sub-representação não constitui um desvio conjuntural ou um erro técnico passível de correção por reformas administrativas, mas a expressão lógica do Estado capitalista periférico. O Congresso Nacional permanece atrelado aos interesses do capital financeiro, do agronegócio exportador e das frações burguesas rentistas. As classes subalternas — majoritariamente precarizadas, negras, periféricas e femininas — seguem esvaziadas de representação autêntica, tendo suas demandas reduzidas a migalhas barganhadas no balômetro das emendas orçamentárias e do clientelismo modernizado.3. A Geopolítica da Dependência e a Doutrina Monroe no Século XXIA análise do processo político brasileiro não se esgota nas fronteiras nacionais; ela exige apreender o Estado dependente inserido na divisão internacional do trabalho e sob a incidência direta do imperialismo. A tutela geopolítica exercida pelos Estados Unidos sobre a América do Sul — herança persistente e adaptada da Doutrina Monroe e de suas novas roupagens estratégico-militares para o subcontinente, traduzidas na sanha de transformar a região em um “escudo” ou quintal estratégico frente às disputas interimperialistas globais — intervém de maneira multifacetada na superestrutura nacional.O “juiz” e os operadores institucionais que coordenam os marcos regulatórios, judiciais e midiáticos do processo político interno operam, conscientemente ou não, sob a égide dessa correlação de forças internacional. A instabilidade sistêmica, a fragilização soberana e a contenção de qualquer perspectiva de soberania popular autêntica na América Latina servem ao propósito imperial de garantir a subserviência econômica e política dos Estados periféricos. A desestabilização contínua e a tutela sobre os marcos institucionais brasileiros impedem que o pacto democrático ultrapasse os limites tolerados pelos centros hegemônicos do capital global.4. Considerações Finais: Superar a Ilusão InstitucionalA articulação dialética entre o discurso idealizado da cidadania eleitoral, a crueza da nova correlação de forças no Congresso Nacional e a subordinação geopolítica externa demonstra que a democracia liberal no Brasil cumpre a função de estabilizar a dominação de classe sob um verniz de legitimidade popular.Conforme apontam as matrizes do pensamento crítico anticapitalista, a emancipação social não brotará do aperfeiçoamento das urnas burguesas nem da ilusão de que a igualdade formal na cabine de votação seja capaz de subverter a desigualdade material reinante na sociedade. A superação da sub-representação estrutural exige a construção de formas autônomas de poder popular, capazes de romper com os grilhões do Estado burguês e com a subordinação imperialista que corrói a soberania nacional.
Para aprofundarmos esta análise dialética, qual dimensão da tutela imperialista sobre os marcos institucionais sul-americanos você avalia como a mais determinante no atual ciclo político?
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