Por José Rios
A Dialética Espacial e a Desmistificação da Geografia Política
A leitura materialista e dialética dos resultados eleitorais de outubro de 2026 impõe superar a ilusão liberal que concebe o voto como uma distribuição abstrata de preferências individuais. Sob o método do Planejamento Estratégico Situacional articulado ao Planejamento e Ação Integral do Desenvolvimento (PES-MAPP / PAID-MAPE), o espaço geográfico configura a materialização histórica das relações sociais de produção e dos conflitos de classe. A disparidade regional que se manifesta entre o Nordeste e os cinturões agroindustriais do Centro-Sul não constitui um dado fortuito da conjuntura, mas expressa a sobrevivência e a refuncionalização de projetos civilizatórios antagônicos no interior da formação socioespacial brasileira.A paralaxe classista elucida como frações da burguesia compradora e do latifúndio primário-exportador operam a ocupação do território para garantir a inserção subordinada do país na divisão internacional do trabalho. Enquanto os redutos ultraconservadores no Sul e no Sudeste sedimentaram historicamente valores ancorados na supremacia proprietária, no anticomunismo visceral e na aversão aos direitos coletivos — herança preservada tanto pela recepção de contingentes escravistas derrotados na Guerra de Secessão norte-americana quanto por fluxos migratórios associados a regimes autoritários europeus e colaboracionistas do pós-guerra —, o Nordeste consolidou-se como polo de resistência popular e anticolonial. Esse movimento expressa a recusa estrutural da classe trabalhadora periférica em submeter sua reprodução material às exigências da finança transnacional e do rentismo espoliador.O Bastião Nordestino: Superação do Tacão Autoritário e Consolidação da Soberania na BahiaA afirmação eleitoral da soberania popular na Bahia, traduzida na consagração do Poder Executivo estadual e na hegemonia da representação senatorial e parlamentar progressista, assume significado tático primordial para o equilíbrio das forças nacionais. O território baiano, que por décadas experimentou o jugo do autoritarismo nos períodos de exceção e a tutela de oligarquias patrimonialistas articuladas ao empresariamento predatório da gestão pública, desarticulou nas urnas a tentativa de restauração conservadora. A paralaxe revela que a derrocada dos herdeiros desse modelo decorre da superação material das ilusões da dita “gestão técnica”, que sempre atuou como anteparo para a exclusão social e a privatização do fundo público.O enraizamento das forças populares nas prefeituras, nas entidades sindicais, nos movimentos de mulheres negras e na luta antirracista estabeleceu um contraponto material insuperável contra o cerco da extrema-direita. A votação expressiva do campo democrático na Bahia — tanto na eleição presidencial quanto na ampliação de bancadas combativas e de vanguarda no Parlamento — demonstra que o Semiárido, o interior profundo e as periferias urbanas operam como trincheiras de defesa da nação. Esse contingente trabalhador rejeita ativamente o pensamento patrimonialista, racista e preconceituoso que vigora com intensidade em parcelas expressivas do Centro-Sul, reafirmando que a riqueza social deve servir ao desenvolvimento regional e à emancipação humana, e não à drenagem de excedente para oligarquias metropolitanas.A Dimensão Macroeconômica: Fundo Público, Rentismo e a Fraqueza da Burguesia CompradoraA luta de classes expressa na clivagem territorial articula-se organicamente à disputa pela destinação do fundo público. De um lado, a oposição patronal e suas bases territoriais ultraconservadoras exigem o estrangulamento da capacidade de investimento do Estado, a manutenção de taxas extorsivas de juros e a continuidade da precarização laboral para subsidiar o capital parasitário. O desmoronamento moral dessa fração burguesa desnudou sua cumplicidade material com fraudes em fundos de previdência de servidores públicos, desvios cambiais clandestinos e redes financeiras obscuras voltadas à acumulação patrimonial em paraísos fiscais e jurisdições imperialistas.Em oposição a esse projeto de pilhagem, ergue-se a exigência histórica da classe trabalhadora por soberania econômica, recuperação do salário real, garantia da saúde e educação públicas universais e controle estatal sobre ativos energéticos estratégicos, como o Pré-Sal e a matriz mineral. A tentativa da extrema-direita de alienar essas riquezas responde diretamente à Doutrina de Washington e ao apetite do grande capital estrangeiro, que enxerga o território brasileiro como entreposto colonial compensatório frente às derrotas geopolíticas sofridas no eixo euro-asiático. A preservação da autonomia nacional exige o rompimento definitivo com os dogmas macroeconômicos neoliberais que transferem a renda do trabalho para os cofres do rentismo transnacional.A Tarefa Histórica: Unificação Territorial e Mobilização de ClasseA etapa decisiva que se desenha no cenário eleitoral e político nacional não comporta acomodações institucionais nem contemporizações ideológicas. A fratura geográfica exposta pelas urnas revela que o avanço do fascismo nas regiões dominadas pelo agronegócio e pelo rentismo financeiro precisa ser combatido por meio de uma ofensiva classista nos locais de moradia, nos sindicatos, nas fábricas e nas salas de aula de todo o país. O enfrentamento impõe disputar a consciência do proletariado precarizado do Sudeste e das grandes cidades, demonstrando pedagogicamente que a alta do custo de vida, o endividamento e a instabilidade material derivam da dominação imposta pelos setores reacionários.O Nordeste e a Bahia, ao sepultarem o mando coronelista e afirmarem a centralidade dos direitos sociais e do trabalho, apontam o caminho de resistência para o conjunto da classe trabalhadora brasileira. A vitória duradoura das forças populares depende da transformação da energia política das ruas em poder legislativo estruturante e mobilização permanente. Somente a articulação indissociável entre a recondução da liderança popular no Executivo nacional e o fortalecimento de bancadas parlamentares com raízes de classe permitirá quebrar o garrote oligárquico, derrotar a herança colonial e patrimonialista e consolidar um Brasil verdadeiramente soberano, democrático e sob a direção histórica daqueles que constroem a riqueza social.
Deixe um comentário