Por José Rios
1. O Ponto de Paralaxe e a Desmistificação da Superestrutura EleitoralO processo eleitoral em curso em 4 de outubro de 2026, com o início da votação no exterior e a abertura das urnas em todo o território nacional, atinge o ápice de sua tensão histórica. Sob a lente do materialismo histórico-dialético, a contenda eleitoral rejeita a categorização burguesa que a reduz a um exercício técnico-institucional de alternância pacífica de poder ou a um certame de humores capturados por institutos de pesquisa. A paralaxe classista opera uma inversão metodológica fundamental: o que o consórcio monopolista e a finança internacional interpretam como normalidade representativa revela-se como o terreno de manifestação aguda da luta de classes, no qual se disputam a apropriação do fundo público, a determinação da taxa de exploração do trabalho e a subordinação geopolítica da nação.A abordagem do Planejamento Estratégico Situacional (PES) formulada por Carlos Matus e sua vertente popular, o Método Altadir de Planejamento Popular (MAPP), em convergência com o instrumental do Planejamento e Ação Integral do Desenvolvimento (PAID-MAPE), estabelece que a realidade política é essencialmente multipolar e conflitiva. Não existe diagnóstico neutro: a classe dominante utiliza a superestrutura jurídica e comunicacional para domesticar as contradições sociais, ao passo que o polo dos trabalhadores identifica no sufrágio universal um momento de acumulação de capacidades operativas. O ato de votar deixa de ser um gesto atomizado e converte-se em vetor de governabilidade material, no qual a classe trabalhadora busca quebrar o cerco montado pela burguesia compradora e reafirmar sua capacidade dirigente frente ao Estado.2. A Ofensiva Imperialista e a Reação Colonial do RentismoA encruzilhada de 2026 inscreve-se na crise estrutural do modo de produção capitalista e na tentativa de Washington de impor a restauração hegemônica no continente americano por intermédio da Doutrina Monroe reeditada. A formulação conservadora traduz-se em estratégias de desestabilização institucional, assédio comercial e apoio a setores da extrema-direita nativa. Essa oposição patronal, articulada ao capital parasitário, atua como correia de transmissão dos interesses transnacionais que cobiçam as reservas estratégicas do Pré-Sal, os minerais críticos e as terras raras da Amazônia, além de exigir a asfixia orçamentária do investimento estatal para manter o fluxo perene de pagamento de juros da dívida pública.A crise de legitimidade que atinge a oposição patronal desnudou os laços materiais entre o fundamentalismo moralista e a especulação clandestina. Escândalos financeiros envolvendo a pilhagem de fundos de previdência de regimes próprios de servidores estaduais e municipais, atrelados à evasão de capitais e à lavagem de recursos em jurisdições externas sob o pretexto de financiamento de empreendimentos cinematográficos e culturais reacionários, evidenciam a degeneração da burguesia compradora. Trata-se de uma fração de classe que expropria a mais-valia interna sob forma de crédito consignado e juros escorchantes para acumular ativos blindados no centro do sistema imperialista, demonstrando a incompatibilidade absoluta entre os seus interesses de casta e o desenvolvimento autônomo das forças produtivas nacionais.3. A Geopolítica Anti-Imperialista e a Dimensão Civilizatória da Cultura PopularA solidariedade internacional manifestada por forças democráticas e anti-imperialistas do continente latino-americano e do Sul Global reafirma o papel do Brasil como esteio indispensável da multipolaridade. A resistência que emana do campo popular articula-se à projeção soberana garantida pela consolidação dos BRICS+, pela recusa ao alinhamento servil aos ditames do Departamento de Estado norte-americano e pela defesa intransigente dos sistemas de bem-estar social, como a saúde universal e o acesso à educação pública de nível superior para os filhos das classes subalternas. O país deixa de atuar como entreposto colonial e consolida-se como polo de integração regional soberana.Essa soberania não se esgota nas variáveis macroeconômicas ou nos fluxos de comércio exterior: ela encontra sua âncora histórica na dimensão ancestral e cultural da formação social brasileira. A construção de uma bancada suprapartidária comprometida com os mestres, mestras e griots da cultura tradicional, dos povos de terreiro e dos saberes comunitários responde a uma exigência ontológica do planejamento popular. Trata-se de resgatar o compromisso intergeracional contra o processo de aculturação colonizadora e a mercantilização da fé. Defender aqueles que historicamente preservaram a memória viva do povo trabalhador é fortalecer a identidade de classe e dotar a práxis transformadora de raízes anticoloniais profundas.4. O Garrote Rentista, a Salvação Nacional e o Papel do Poder LegislativoA reflexão política e classista sistematizada pelo camarada José Reinaldo Carvalho aponta com precisão que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representa uma exigência de salvação nacional contra o fascismo e a submissão neocolonial. Contudo, essa vitória eleitoral não é o ponto de chegada, mas a precondição tática para abrir uma rota verdadeiramente emancipatória. O quarto mandato presidencial que se avizinha defrontar-se-á com o imperativo de romper corajosamente com os limites impostos pelos paradigmas da política econômica neoliberal, que busca aprisionar a produção, a valorização do salário mínimo e o orçamento público sob o garrote do rentismo parasitário.A advertência basilar da paralaxe materialista reside na superação do fetiche presidencialista. O Poder Executivo não governa no vazio das correlações de força institucionais. A história recente demonstrou que delegar a maioria do Congresso Nacional ao latifúndio primário-exportador, aos donos de conglomerados financeiros e ao clientelismo do Centrão equivale a entregar a governabilidade ao inimigo de classe. Uma bancada legislativa refém dos interesses patronais sabota reformas estruturais, mantém a tributação regressiva que onera o consumo do proletariado e ameaça com a paralisia orçamentária qualquer iniciativa que contrarie a lógica da Faria Lima. A conformação de uma robusta bancada de deputados federais e senadores progressistas e de esquerda é a condição indispensável para arrancar o Estado brasileiro da tutela oligárquica.5. A Práxis do Domingo: Mobilização Territorial e a Decisão HistóricaA dinâmica situacional compreendida entre as oito horas da manhã e as dezessete horas deste 4 de outubro expressa a transmutação da energia política acumulada nas ruas em determinação institucional soberana. As mobilizações massivas registradas nas principais capitais do país desmistificaram as amostragens voláteis e confirmaram a disposição de luta das camadas periféricas, impulsionadas pela conquista democrática do transporte público gratuito.A resolução estratégica que se impõe às massas trabalhadoras é a disciplina intransigente do voto de classe. O comparecimento maciço às seções eleitorais deve ser orientado pelo princípio do voto casado: garantir o triunfo em primeiro turno na eleição presidencial para desarmar a engrenagem das provocações golpistas e, simultaneamente, preencher as cadeiras do Parlamento com representantes organicamente vinculados ao trabalho, à cultura e à soberania pátria. É por meio dessa ação consciente e articulada que o povo brasileiro reafirma que a nação pertence aos seus produtores diretos, derrotando a servidão colonial e abrindo caminho para a edificação de um Brasil independente, socialmente justo e soberano.
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