O Crepúsculo do Monopólio: Paralaxe, Fundo Público e Poder de Classe

Por José Rios

A Desmistificação da Superestrutura e o Colapso da Mediação LiberalA poucas horas do pleito de outubro de 2026, a formação socioeconômica brasileira expõe com nitidez singular o esgotamento dos mecanismos tradicionais de dominação ideológica da classe dominante. O materialismo histórico-dialético ensina que os aparelhos privados de hegemonia — entre os quais o oligopólio de radiodifusão corporativa ocupa posição histórica central — não atuam como mediadores neutros do debate público, mas como destacamentos orgânicos do capital monopolista voltados à tutela do Estado e à garantia da reprodução da mais-valia. A paralaxe classista inverte a leitura burguesa: o que a crônica hegemônica classifica como colapso de regras institucionais e insegurança jurídica revela-se, em essência, como a perda objetiva da capacidade de a burguesia intermediar e disciplinar a luta política por cima.Desde a redemocratização tutelada e o marco paradigmático da manipulação editorial do debate eleitoral de 1989, o consórcio midiático funcionou como tribunal prévio das disputas de poder, chancelando a agenda macroeconômica rentista, o desmonte de direitos laborais e a submissão aos ditames da finança internacional. No entanto, a conjuntura recente demonstrou a falência desse arranjo. A tentativa frustrada de realizar um tribunal de exceção televisivo — calcado na assimetria de forças, na exclusão de dissidências internas da própria direita e na tentativa de explorar a cenografia punitiva do púlpito vazio — desmoronou no exato momento em que as contradições intraburguesas e as determinações materiais das massas escaparam ao controle da emissora.A Dimensão Econômica: O Rentismo Parasitário e a Pilhagem da Renda do TrabalhoA crise política que se manifesta na superestrutura institucional é inseparável das determinações da base econômica. A disputa central no Brasil contemporâneo reside na apropriação do fundo público. De um lado, articula-se o modelo rentista-exportador, que exige a asfixia das capacidades estatais, o teto de investimentos primários e a perpetuação de taxas reais de juros extorsivas para sustentar a acumulação patrimonial de frações especulativas aliadas aos centros de poder imperialistas. Do outro, impõe-se a necessidade imperativa da classe trabalhadora de converter o orçamento social em valorização do salário mínimo, fortalecimento do sistema público de saúde e previdência, ampliação das compras estatais e recuperação da soberania sobre cadeias produtivas essenciais.As conexões orgânicas reveladas entre operadores da finança clandestina, instituições como o Banco Master e lideranças da oposição patronal desnudam a face mais deletéria da burguesia compradora. A expropriação opera pela via direta da pilhagem de fundos de previdência de regimes próprios de estados e municípios e pelo endividamento compulsório via crédito consignado precarizante. Esses capitais fictícios, longe de fertilizarem a base industrial brasileira, foram triangulados para estruturas financeiras no exterior sob a salvaguarda de jurisdições imperialistas, confirmando a tese leninista do caráter parasitário da finança transnacional na periferia do sistema capitalista. O silêncio ou a brandura da imprensa de mercado frente a essas operações deriva de sua própria inserção material nesse fluxo de circulação, que irriga polpudas receitas publicitárias corporativas.A Deslocação dos Vetores de Comunicação e a Autonomia de MassasA quebra da mediação tradicional consolidou-se quando o polo popular recusou a armadilha do palco montado pela corporação televisiva e canalizou a atenção das massas para a interlocução direta por meio das novas plataformas digitais, pulverizando recordes de audiência. Essa inflexão possui profundas implicações para a teoria política e a prática sindical. A dependência que o campo dos trabalhadores historicamente manteve em relação aos canais de concessão pública para acessar amplas camadas da sociedade foi suplantada pela agilidade e capilaridade da comunicação digital popular.O recuo do candidato da extrema-direita patronal, acossado pela possibilidade de ter que confrontar as denúncias de promiscuidade financeira sem a blindagem editorial de costume, escancarou a fraqueza orgânica de seu projeto. O eleitorado das periferias urbanas e dos rincões operários não fundamenta suas decisões nas encenações de debates estéreis de estúdio. A classe trabalhadora apreende a política por meio do custo concreto da sua reprodução: o preço dos alimentos básicos, o valor da tarifa de energia, as condições da jornada laboral e a estabilidade de sua renda mensal.A Geopolítica, o Sul Global e as Tarefas do Movimento SindicalNo plano internacional, o embate eleitoral sintetiza a disputa entre duas inserções geopolíticas incompatíveis. A vitória do campo popular e democrático projeta a continuidade de uma diplomacia altiva e multipolar, esteada no fortalecimento dos BRICS+, na busca de liquidações comerciais fora da órbita exclusiva do dólar e na proteção dos recursos estratégicos contra a pilhagem colonial. A restauração ultraliberal, ao contrário, representaria a recolocação submissa do Estado brasileiro na divisão internacional do trabalho como mero fornecedor de matérias-primas e pagador subalterno de dividendos ao sistema financeiro de Wall Street.Nesse cenário, cabe ao movimento sindical e classista assumir um papel de vanguarda que vá além das reivindicações puramente econômicas de categoria. A práxis orientada pelo Planejamento Estratégico Situacional exige entender que a eleição do Poder Executivo é insuficiente se não vier acompanhada da alteração profunda na correlação de forças do Congresso Nacional. O parlamento dominado por representantes do latifúndio, do rentismo e das máfias econômicas converte qualquer governo progressista em refém permanente da chantagem orçamentária e das emendas impositivas.A diretiva central para as horas derradeiras é a consolidação da disciplina de classe no voto: a mobilização consciente das bases operárias para o comparecimento em massa às urnas e a exigência do voto casado nos candidatos das legendas de esquerda e progressistas para a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Somente a constituição de uma bancada legislativa classista e popular conferirá a sustentação indispensável para revogar as medidas anti-trabalhador, recuperar o controle público sobre os ativos energéticos estratégicos e assegurar a soberania nacional sob a direção histórica daqueles que verdadeiramente produzem a riqueza da nação.

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