O Desfecho da Paralaxe: Luta de Classes, Fundo Público e a Encruzilhada Soberana de 2026.

Por José Rios

A Ontologia Materialista da Reta Final: Para Além do Fetiche EleitoralA escassas horas da abertura das urnas em 4 de outubro de 2026, a formação socioeconômica brasileira atinge o ápice de sua contradição histórica contemporânea. O espetáculo burguês, operado pelo consórcio entre os monopólios de comunicação e a Faria Lima, esforça-se por enquadrar o sufrágio como uma disputa estritamente comportamental, moralista ou decidida por algoritmos de redes digitais e debates de estúdio. Contudo, a apreensão da realidade concreta sob o método materialista histórico-dialético e a lente da paralaxe classista revela o reverso da cena: a eleição é a condensação da luta pela apropriação do fundo público, pela determinação da taxa de mais-valia e pelo comando soberano do Estado frente às pressões do capital monopolista transnacional.Como ensina a tradição do Planejamento Estratégico Situacional concebida por Carlos Matus e desdobrada no Método Altadir de Planejamento Popular (MAPP), a política institucional não comporta diagnósticos universais ou neutros. Cada classe social explica a crise a partir de sua inserção objetiva na produção da vida material. O que a burguesia compradora e rentista denomina “estabilidade fiscal” é a asfixia programada da reprodução do proletariado; o que o consórcio hegemônico chama de “risco institucional” é o pavor de ver os recursos nacionais blindados contra a sangria do endividamento público e revertidos em valorização do salário mínimo, investimento produtivo e fortalecimento dos serviços sociais.2. A Anatomia do Crime de Classe: A Fraude Rentista e o Colapso Moral da ReaçãoOs desdobramentos críticos das últimas horas, com a revelação detalhada das entranhas do escândalo em torno do Banco Master, de Daniel Vorcaro e de suas pontes orgânicas com o clã Bolsonaro e setores neopentecostais mercantilizados, oferecem a demonstração cabal do caráter parasitário da oposição patronal. Não se trata de desvio moral isolado, mas do modo de acumulação característico da lúmpen-burguesia subordinada ao império: sugar as reservas do Estado e os rendimentos do trabalho para dolarizar o patrimônio e colocá-lo sob a custódia de fundos especulativos sediados nos Estados Unidos.A engenharia financeira desbaratada expõe uma violência de classe concreta. De um lado, a pilhagem de cerca de R$ 1,8 bilhão pertencentes aos fundos de previdência de servidores públicos estaduais e municipais, aliada à expropriação via crédito consignado precarizante; de outro, a triangulação desses mesmos recursos para estruturas offshore como o fundo Ravengate, no Texas, voltadas a lavar dinheiro e bancar a hagiografia cinematográfica da extrema-direita. Enquanto a família trabalhadora luta contra o preço dos alimentos e os custos básicos da subsistência, os arautos da “moralidade tradicional” usufruíam de blindagens judiciais, voos privados e repasses milionários que transitavam pelas mesmas tubulações clandestinas ligadas ao crime organizado e à sonegação de combustíveis.A aparente condescendência do aparelho midiático comercial — que agora tenta erguer muros de contenção contra a desidratação eleitoral de Flávio Bolsonaro — decorre da mesma raiz de classe: a circulação desse capital podre irriga os contratos publicitários dos oligopólios de radiodifusão e de seus apresentadores corporativos. A decisão soberana do presidente Lula de não se submeter à emboscada do debate da TV Globo em 1º de outubro insere-se com precisão na acumulação de forças: tratava-se de um teatro montado com regras artificialmente desenhadas para permitir que candidaturas auxiliares de direita servissem de escudo ao candidato do rentismo, produzindo ruído cognitivo descolado da vida concreta das massas.3. A Geopolítica Anti-Imperialista e a Conexão com o Sul GlobalA encruzilhada brasileira deste domingo reverbera diretamente na geopolítica mundial. O alinhamento subserviente defendido pela oposição bolsonarista e liberal representa a subordinação irrestrita à estratégia de contenção do imperialismo norte-americano, relegando o Brasil ao papel de mero entreposto agrário e mineral esvaziado de densidade fabril e autonomia científica.Por outro lado, a recondução de Lula e a consolidação de um projeto nacional-popular significam o aprofundamento da transição rumo à multipolaridade. Trata-se da sustentação de uma política externa altiva que fortalece o bloco dos BRICS+, fomenta a liquidação comercial em moedas alternativas à hegemonia do dólar, projeta a defesa dos bens comuns na América do Sul e consolida a soberania sobre o Pré-Sal e a transição energética contra a voracidade colonialista.4. Perspectivas, Tendências e a Evolução dos Cenários até o Desfecho das UrnasA dinâmica situacional das horas finais desenha tendências e bifurcações bem delineadas:O cenário mais provável e de tendência ascendente aponta para a consolidação da vitória popular no primeiro turno, puxada pela cristalização do voto de classe nas periferias, pelo esgotamento da extrema-direita sob o peso de seus crimes financeiros e pela recusa da classe trabalhadora em retornar ao abismo do arrocho e da precarização. Nesse cenário, o esvaziamento das terceiras vias transfere o contingente volátil para o polo da estabilidade e do avanço material, derrotando o bolsonarismo de imediato e desarmando as movimentações golpistas que se alimentariam de um intervalo de segundo turno.O cenário alternativo, de tendência intermediária, reside no forçamento de um segundo turno defensivo por desidratação milimétrica, fruto exclusivo da sobrecarga de manipulação algorítmica e de pânicos morais introduzidos nas últimas horas pelas redes ligadas ao capital ilícito. Nessa hipótese, a vitória popular segue preservada na dianteira, mas transfere a decisão para um ciclo adicional de combate direto contra o terrorismo econômico, no qual a exigência de governabilidade cobrará das massas uma vigilância ainda mais aguda contra as chantagens do mercado financeiro.O cenário residual, de contestação e tumulto institucional insuflado por setores alinhados aos núcleos reacionários sediados no exterior, tende a esbarrar na desarticulação política da própria cúpula bolsonarista, cuja base parlamentar e regional já se fragmenta diante da iminência de responsabilização penal e isolamento perante as cortes superiores e a soberania popular.5. As Diretivas de Práxis: A Centralidade do Voto Casado e a Batalha das Horas FinaisA advertência metodológica mais contundente que o PES-MAPP e o marxismo revolucionário colocam à disposição do movimento operário e popular neste momento é a de que o Executivo não governa no vazio institucional. Eleger o presidente sem arrancar das oligarquias a maioria no Congresso Nacional equivale a entregar a condução da economia aos mesmos operadores que sequestraram as emendas orçamentárias e aprovaram a venda a preço vil do patrimônio estratégico, da Eletrobras às refinarias nacionais.Nas horas que restam até o encerramento da votação em 4 de outubro, a tarefa militante da vanguarda sindical, comunitária e partidária é exclusivamente pedagógica e mobilizadora:Primeiro, deve-se agir com determinação territorial para garantir o comparecimento massivo dos trabalhadores às seções eleitorais, combatendo a abstenção nas vilas, conjuntos habitacionais e periferias metropolitanas. A vitória no primeiro turno não depende dos humores da classe média alta, mas do deslocamento físico e consciente do povo trabalhador às urnas.Segundo, é imperativo martelar a tese da chapa completa de classe. O eleitor popular não pode cindir seu voto: ao digitar o número de Lula, deve impreterivelmente carregar a colinha com os números de deputados federais, deputados estaduais e senadores dos partidos de esquerda e do campo democrático-popular. É essa bancada que sustentará a revogação dos retrocessos trabalhistas, impedirá a entrega do solo pátrio e viabilizará a reforma tributária progressiva sobre o grande capital.Por fim, cumpre neutralizar a cortina de fumaça moralista com a verdade dos fatos materiais: contra o moralismo hipócrita de púlpito e jatinho, cabe escancarar o saque às aposentadorias operado pelos comparsas do Banco Master e de Flávio Bolsonaro. No domingo, o voto da classe trabalhadora deve ser o instrumento histórico não apenas de celebração eleitoral, mas de desforra política e de afirmação intransigente da soberania popular do Brasil.

Deixe um comentário