A Batalha Decisiva

Por José Rios

A quatro dias do 4 de outubro de 2026, a luta de classes no Brasil atinge o seu ápice sob a forma concentrada de um processo eleitoral cuja relevância transcende as fronteiras nacionais e repercute nos equilíbrios geoestratégicos do Sul Global. Analisar este momento exige romper com a ilusão liberal-burguesa que reduz a política a uma coreografia aritmética de pesquisas de opinião, escândalos morais orquestrados ou embates publicitários de redes sociais. O materialismo histórico-dialético ensina que a superestrutura política e jurídica reflete e medeia a contradição inconciliável da infraestrutura material: a disputa encarniçada pela taxa de exploração da força de trabalho e pelo controle do fundo público.Sob o ponto de paralaxe classista, o fenômeno revela sua natureza invertida. O que os ideólogos do rentismo denominam “estabilidade fiscal” e “segurança jurídica” nada mais é do que a blindagem da pilhagem financeira e a garantia do fluxo da dívida pública, custeada pela compressão salarial e pela expropriação dos bens comuns da nação. Por sua vez, a oposição reacionária, porta-voz visceral da fração rentista associada à burguesia compradora e ao agronegócio predatório, expõe uma contradição ética insanável. Enquanto instrumentaliza a fé popular em templos e mobiliza o cinismo moralista em plataformas digitais, sua prática legislativa concreta opera sistematicamente contra o povo: vota pelo congelamento do salário mínimo, desmantela a previdência, sabota a saúde pública e viabiliza a sangria de fundos previdenciários e estatais estratégicos em conluio com banqueiros fraudadores e especuladores de Wall Street.Essa dinâmica subordina-se à lógica imperialista que historicamente busca desarticular a soberania dos países periféricos. As ondas de desestatização de 1990, o golpe institucional de 2016 e a regressão autoritária de 2018 cumpriram o papel programado de destruir as forças produtivas nacionais, fragmentar a espinha dorsal da engenharia pesada brasileira e alienar o controle sobre recursos soberanos essenciais, como a Petrobras e a Eletrobras. O imperialismo hegemonizado pelo capital financeiro do Atlântico Norte não se ocupa da gestão física da infraestrutura de base; ele opera para subordinar o Estado ao rentismo, desorganizar o planejamento autônomo e forçar a dolarização das tarifas energéticas e dos combustíveis. Com isso, os lucros escorrem para centros extraterritoriais e paraísos fiscais, alimentando uma oligarquia doméstica que aufere sua renda em moeda nacional desvalorizada pelo suor operário para convertê-la em ativos blindados no exterior.Neste quadro, o Planejamento Estratégico Situacional concebido por Carlos Matus e o Método Altadir de Planejamento Popular revelam o nó crítico fundamental que desafia a classe trabalhadora nestas eleições. Não basta triunfar no Poder Executivo. A eventual reeleição do Presidente Lula no primeiro turno, embora indispensável para frear a ofensiva neofascista e consolidar a projeção soberana do país no BRICS ampliado e no bloco anti-hegemônico internacional, converte-se em paralisia se permanecer desprovida de sustentação parlamentar e de mobilização orgânica de massas. O Congresso Nacional, tutelado pelo Centrão e sequestrado por emendas orçamentárias parasitárias, atua como o freio de mão institucional erguido pelo grande capital para chantagear governos populares e barrar as reformas de base.Para o movimento sindical classista e para a vanguarda partidária e popular, a tarefa das próximas 72 horas não reside no debate abstrato, mas na agitação pedagógica da totalidade concreta. É imperativo articular na consciência do trabalhador a conexão direta entre o custo de vida cotidiano — o preço do botijão de gás, o impacto da conta de luz encarecida pela privatização, a caristia da cesta básica e a precarização das relações laborais — e a necessidade do voto de classe alinhado. A classe operária, os assalariados urbanos, os camponeses e a massa empobrecida não podem permitir a fragmentação eleitoral que consagra o chefe de Estado, mas entrega a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e os governos estaduais aos carrascos dos direitos sociais.A resolução da crise de hegemonia brasileira passa pela vitória avassaladora no primeiro turno de outubro de 2026, indissociavelmente vinculada à eleição de uma bancada majoritária de deputados e senadores comprometidos com os interesses históricos do trabalho. Votar na chapa completa da classe trabalhadora é a única via para assegurar governabilidade transformadora, quebrar a chantagem do rentismo da Faria Lima, reverter o desmonte patrimonial do Estado e recolocar o Brasil no centro da luta global pela emancipação dos povos e pela multipolaridade soberana.

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