Geopolítica do Caos, Tutela Imperialista e a Dialética Eleitoral no Brasil

Por José Rios

A reta final do processo eleitoral brasileiro de 2026 condensa contradições que ultrapassam as fronteiras nacionais e os arranjos eleitoreiros de gabinete. O conjunto das matérias jornalísticas, dados de financiamento público, determinações judiciais do Tribunal Superior Eleitoral e manifestações de rua traz à tona o choque inconciliável entre o projeto de espoliação hegemônica imperialista — capitaneado pelo capital financeiro transnacional e pela ultradireita alinhada a Washington — e a resistência soberana dos povos da América Latina e do Caribe.Sob a perspectiva da paralaxe classista e do materialismo histórico-dialético, o que a mídia corporativa apresenta como uma “disputa polarizada entre candidatos” é, na verdade, a expressão aguda da luta de classes em escala continental: a tentativa deliberada de submeter a maior economia da América do Sul ao mesmo padrão de regressão colonial e desmonte social imposto a outras nações da região.1. A Geopolítica da Pilhagem: O “Império do Caos” e a Doutrina de Contenção RegionalO imperialismo em sua fase contemporânea atua sob a premissa de que nenhuma nação da periferia capitalista pode consolidar soberania energética, industrial ou tecnológica. O objetivo central é a apropriação direta das reservas estratégicas: petróleo, lítio, água doce, minerais raros e terras agricultáveis. * O Modelo de Subordinação na América do Sul: As experiências de choque neoliberal e alinhamento subserviente na região (como na Argentina de corte ultraliberal, as crises institucionais crônicas no Peru e a militarização tutelada em outros países vizinhos) servem de parâmetro para a estratégia do império. Trata-se de desarticular os blocos de integração regional (como a UNASUL e os BRICS) para restabelecer a tutela direta do Departamento de Estado norte-americano e do capital rentista. * A Resistência de Brasil e México: Por sua dimensão territorial, peso demográfico e capacidade produtiva, Brasil e México constituem os dois bastiões continentais que resistem à subordinação irrestrita. O fortalecimento de políticas públicas soberanas, a defesa de empresas estratégicas e a articulação diplomática multipolar colocam esses dois países na mira permanente das oligarquias hegemônicas. A ordem imposta pelas potências dominantes é vetar qualquer projeto de desenvolvimento autônomo que ameace a correlação de forças geopolítica.2. A Concentração Oligárquica do Fundo Eleitoral: A Reprodução da Ordem BurguesaO levantamento divulgado pelo Congresso em Foco expõe a contradição estrutural da democracia burguesa brasileira: 10% dos candidatos à Câmara dos Deputados concentram 57,3% de todo o dinheiro público dos fundos Eleitoral e Partidário (R$ 1,7 bilhão de R$ 2,97 bilhões). Apenas 607 campanhas (8,2% do total) controlam metade de todo o recurso. * O Filtro de Classe, Raça e Gênero: Esse topo hiperfinanciado é composto majoritariamente por deputados homens e brancos que tentam a renovação de mandato, recebendo em média R$ 2,29 milhões por campanha — doze vezes mais do que a média dos demais concorrentes (R$ 189 mil). * A Função do Parlamento no Capitalismo Dependente: Essa muralha orçamentária visa blindar o núcleo do chamado “Centrão” e das bancadas do agronegócio e da bala. A classe dominante utiliza os recursos do Estado para perpetuar seus operadores legislativos, garantindo que o próximo governo — mesmo se liderado por forças progressistas — enfrente um Congresso estruturalmente hostil à taxação de fortunas, à revogação de reformas trabalhistas e à proteção ambiental.3. O Desespero Superestrutural: Da “Guerra Santa” à Degradação MoralDiante da consolidação da base material do governo popular — ancorada no crescimento do PIB regional, na contenção do mercado predatório de apostas digitais e na ampliação de benefícios e remédios populares —, a reação apela para o pânico moral como último recurso de coesão. * A Blasfêmia da Intolerância: A escalada de agressões a símbolos religiosos populares e a devoções enraizadas, como os ataques proferidos contra Nossa Senhora por setores clericais ligados ao bolsonarismo, não decorre de mera divergência teológica. É uma tática de choque que busca romper o ecumenismo e o sincretismo da classe trabalhadora para implantar um fundamentalismo confessional e autoritário. * A Hipocrisia Ética Desmascarada: Enquanto lideranças da extrema-direita vociferam o slogan “Deus, pátria, família e liberdade”, a realidade material expõe escândalos de corrupção, redes de favorecimento com dinheiro público e promiscuidade comportamental entre seus próprios operadores. A agressividade contra artistas, ativistas e figuras históricas da cultura nacional (como os ataques relatados por Cissa Guimarães e as ameaças a Chico Buarque) reflete o ódio de classe contra qualquer um que exponha as fraturas da moralidade burguesa.4. O Campo de Batalha Material: Ruas, Transporte e o Nó da AbstençãoO cenário a cinco dias do pleito de 4 de outubro opõe a mobilização territorial das massas ao desestímulo institucional à participação popular. * O Arrastão Popular no Nordeste: As mobilizações massivas em capitais como Salvador (no circuito Barra-Ondina) e Fortaleza (na Praça da Bandeira) materializam o peso da classe trabalhadora organizada. A união das chapas progressistas nos governos estaduais e na disputa pelas vagas do Senado (com nomes como Jaques Wagner, Rui Costa e bancadas combativas) demonstra que o Nordeste atua como a retaguarda estratégica de resistência democrática e nacional. * O Transporte Coletivo como Trincheira de Classe: A decisão do TSE de cobrar os Tribunais Regionais Eleitorais quanto ao cumprimento da gratuidade do transporte coletivo urbano e intermunicipal responde a uma demanda direta da classe trabalhadora. A abstenção nas periferias não é omissão deliberada: é o resultado da segregação espacial e do custo do deslocamento imposto pelo capital. Assegurar a frota plena e a tarifa zero no domingo constitui a pré-condição material para garantir a soberania do voto. * A Queda no Eleitorado Jovem: A redução de quase 500 mil eleitores de 16 e 17 anos em comparação com 2022 sinaliza a desmobilização ideológica provocada pela precarização da juventude e pela captura algorítmica nas redes. Cabe aos movimentos sindicais e populares reconectar essa juventude trabalhadora à luta política concreta.5. Síntese e Desdobramentos EstratégicosO embate do dia 4 de outubro transcende a contagem burocrática de cédulas eletrônicas. Trata-se de desarticular o plano de restauração neocolonial orquestrado pelas potências imperialistas e seus prepostos domésticos.A vitória do projeto popular e a reeleição de Lula na Presidência constituem uma necessidade tática para a soberania regional da América Latina. Contudo, essa vitória permanece inconclusa se a classe trabalhadora não romper a barreira do hiperfinanciamento burguês para eleger bancadas parlamentares classistas e governos estaduais comprometidos com as massas. A garantia do comparecimento nas periferias, a vigilância sobre a gratuidade do transporte e o confronto desassombrado contra o moralismo hipócrita formam a linha de frente onde a história brasileira será decidida.

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