Por José Rios
A luta de classes no Brasil ingressa em uma etapa decisiva onde a disputa pela consciência do proletariado não se restringe à arena econômica tradicional, mas atravessa a superestrutura ideológica e a subjetividade das massas. O avanço do capital financeiro parasitário, a captura das plataformas digitais pela reação e a ofensiva teocrático-neofascista impõem à militância e à formação sindical a tarefa inadiável de articular a crítica da economia política ao desmonte das ilusões místicas cultivadas pelos aparelhos de dominação da burguesia.Sob a perspectiva da paralaxe classista, o que as frações dominantes apresentam como “guerra cultural” ou “conflito moral espontâneo” revela-se, em sua raiz material, como estratégia deliberada de divisão e contenção da força de trabalho. O capital necessita estilhaçar a solidariedade de classe, convertendo a angústia da precarização e do endividamento em intolerância mútua, ressentimento e servidão voluntária. É nesse horizonte que a formação política classista deve se firmar: desmistificar a falsa polarização confessional e devolver o debate ao terreno das determinações materiais da vida cotidiana.A Captura Teocrática e o Seqüestro da Religiosidade PopularA ofensiva reacionária contemporânea recorre sistematicamente à manipulação das crenças religiosas para mascarar a agenda implacável de arrocho salarial, expropriação de direitos e desmonte dos serviços públicos. O discurso que busca “destronar” devoções seculares da cultura popular ou impor uma teologia do domínio não visa à salvação das almas, mas à subordinação dos trabalhadores a um projeto de poder autoritário e excludente.Historicamente, a religiosidade no seio das camadas populares brasileiras operou em muitas conjunturas como refúgio de dignidade, amparo comunitário e resistência moral frente à crueldade da exploração. Quando o fundamentalismo ataca manifestações de fé consolidadas e criminaliza a laicidade do Estado, o objetivo precípuo é forjar um sujeito dócil, incapaz de perceber que a mesma liderança que vocifera contra a diversidade espiritual nas redes defende no Parlamento o corte de verbas para a saúde, a desregulamentação do trabalho e a privatização das riquezas nacionais.A formação classista, longe de adotar um anticlericalismo abstrato ou descolado da sensibilidade popular, deve resgatar o sentido concreto do Estado laico. Para o trabalhador, a laicidade republicana não é negação da fé, mas a garantia jurídica irrevogável de que nenhuma oligarquia ou seita autoritária usurpará a máquina pública para perseguir crenças, fechar templos ou tutelar a consciência individual.A Determinação Econômica e a Ofensiva AntirrentistaAs movimentações políticas de massas não derivam do nada ideológico, mas de alterações nas condições objetivas de existência. Quando o dinamismo produtivo regional ressurge, quando há expansão da renda básica e quando o Estado atua para conter mecanismos extorsivos — a exemplo do circuito desregulamentado de apostas digitais que drena os recursos da subsistência familiar —, a base social reage favoravelmente.A economia política ensina que a burguesia rentista extrai mais-valia não apenas no chão de fábrica, mas por meio do endividamento generalizado e da agiotagem financeira institucionalizada. A luta sindical, portanto, não pode se limitar às campanhas salariais corporativas; ela precisa incorporar a defesa do salário indireto: o transporte acessível, a saúde universal provida pelo Sistema Único de Saúde, o controle dos preços dos alimentos e a erradicação do jogo especulativo predatório que corrói os lares operários.O êxito das frentes populares reside na capacidade de demonstrar que a melhora nas condições de reprodução material não é dádiva governamental passageira, mas fruto direto da correlação de forças e da mobilização social organizada.O Papel do Movimento Sindical na Reta Final e no Pós-EleitoralO trabalho de base nas portas de fábrica, nas garagens de transporte, nos canteiros de obras e nos bairros populares constitui o antídoto irrevogável contra a manipulação cibernética e a tirania dos institutos de pesquisa a serviço do mercado. O engajamento militante de “pé no barro” restitui a política à sua condição de práxis viva, contrapondo o diálogo olho no olho à desinformação algorítmica disseminada pela extrema-direita.No entanto, o horizonte classista exige vigilância estratégica: a vitória no plano do Poder Executivo, embora necessária para deter a barbárie neofascista, é insuficiente se desacompanhada da alteração profunda na composição do Parlamento. A formação de quadros deve martelar a indispensabilidade do voto consciente nas bancadas progressistas e classistas, evitando que governos de base popular fiquem reféns do fisiologismo e da chantagem orçamentária dos setores mais retrógrados da sociedade.A tarefa histórica que se coloca para o formador e para a militância classista transcende a conjuntura imediata das urnas. Trata-se de forjar, no calor da disputa, uma vanguarda operária lúcida, capaz de combater a alienação em todas as suas formas — seja ela estatística, religiosa ou econômica — e de erguer, na unidade entre fé vivida e consciência de classe assumida, a força motriz necessária para a soberania nacional e a emancipação plena dos trabalhadores.
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