A Batalha Decisiva

Por José Rios

A reta final da luta política no Brasil condensa as contradições fundamentais entre a reprodução material da vida da classe trabalhadora e a ofensiva ideológico-rentista encabeçada pela extrema-direita e pelo grande capital. Longe de constituir um mero ritual periódico da democracia liberal burguesa, o pleito de outubro expressa a colisão direta entre dois projetos inconciliáveis: a reconstituição da soberania nacional com esteio no mundo do trabalho ou a regressão colonial-subserviente tutelada pelo imperialismo e por oligarquias parasitárias.Sob a perspectiva da paralaxe classista, o bombardeio sistemático de levantamentos de intenção de voto e a proliferação do pânico moral operam como instrumentos de indução e coerção subjetiva. Trata-se de uma tática calculada para desmobilizar os explorados e ocultar as determinações materiais que regem a conjuntura. Enquanto as corporações de mídia e as plataformas digitais tentam reduzir a soberania popular a flutuações estatísticas manipuladas, o real se impõe onde a vida concreta acontece: na contenção da agiotagem desregulamentada das apostas digitais, na defesa do salário mínimo real, no fortalecimento do Sistema Único de Saúde e na recuperação do dinamismo produtivo regional. A consciência das massas desperta a partir da materialidade do pão, do emprego e da dignidade recuperada.A derrocada ética da reação explicita os limites históricos do projeto neofascista. A mesma fração que instrumentaliza a fé popular e propõe cruzadas teocráticas contra símbolos seculares da cultura brasileira é aquela cujos expoentes afundam em escândalos de corrupção patrimonialista, promiscuidade e predação dos recursos públicos. A hipocrisia de classe torna-se evidente para as amplas maiorias: o fundamentalismo que divide os trabalhadores na base serve unicamente para camuflar o voto parlamentar favorável à precarização, ao arrocho salarial e à entrega das riquezas estratégicas do país. O Estado laico e a convivência democrática revelam-se, portanto, como salvaguardas essenciais da própria classe operária contra a tirania confessional.Neste cenário de inflexão, a vanguarda sindical e a militância classista têm diante de si a tarefa inadiável do trabalho de base capilarizado. A disputa contra a abstenção nas periferias — barreira erguida historicamente para alijar os mais pobres das decisões soberanas — exige a ocupação física dos territórios, a garantia material do transporte e o esclarecimento combativo em cada local de trabalho e moradia. A mobilização viva, olho no olho, desarticula a mentira algorítmica e devolve à política o seu sentido de práxis transformadora.A vitória do projeto popular, contudo, não se encerra na recondução do Poder Executivo. O movimento operário deve orientar as bases para a conquista de bancadas parlamentares combativas e comprometidas com a revogação das reformas antipopulares, sob pena de ver a gestão pública refém da chantagem fisiológica do grande capital. A batalha em curso não é apenas pela contagem dos votos nas urnas, mas pela acumulação de forças materiais e de consciência de classe indispensáveis para barrar o fascismo, derrotar o parasitismo rentista e abrir caminho à emancipação dos trabalhadores.

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