Por José Rios
RESUMO
O presente artigo analisa a interface entre o colapso patrimonial do grande varejo — exemplificado pelo pedido de recuperação judicial e o fechamento em massa de lojas do Grupo Casas Bahia —, os esquemas de corrupção tributária ativa (Operação Ícaro/SEFAZ-SP) e a rede de conexões financeiras e políticas evidenciada pelo escândalo do Banco Master. Sob a metodologia do materialismo histórico-dialético e a categoria da paralaxe classista, o estudo demonstra que tais escândalos não constituem desvios éticos conjunturais, mas a expressão orgânica da fusão entre frações do capital financeiro parasitário, grandes corporações dependentes de liquidez e setores da burocracia estatal e da extrema-direita em governos subnacionais. Analisa-se como o rentismo e a drenagem de fundos públicos (créditos de ICMS e regimes próprios de previdência) operam como a contraface da superexploração do trabalho e do confisco de direitos no chão de loja.
Palavras-chave: Paralaxe Classista; Banco Master; Casas Bahia; Captura do Estado; Corrupção Sistêmica; Materialismo Histórico-Dialético.
- INTRODUÇÃO: DA FRAUDE EMPRESARIAL À REDE SISTÊMICA DE PILHAGEM
A crise das Casas Bahia, inicialmente enquadrada pela imprensa de negócios sob o véu dos eufemismos de “ajuste de mercado” ou “estrangulamento pelo custo de captação”, sofreu uma mutação qualitativa à medida que avançaram as apurações judiciais e policiais. A constatação do fechamento sumário de quase 300 filiais físicas e da tentativa de demissão de cerca de 4 mil trabalhadores não pode mais ser lida como mero reflexo de desaceleração setorial.
Ao emergirem as investigações do Ministério Público de São Paulo sobre a “Máfia do ICMS” (revelando o pagamento sistemático de propinas a auditores da Fazenda estadual para agilizar ressarcimentos fiscais), conectadas ao ecossistema de liquidez artificial, fundos de previdência e instituições financeiras de alto risco — como o caso emblemático do Banco Master —, desfaz-se a aparência de uma crise isolada do varejo. O que se descortina é a captura predatória do fundo público por frações do capital financeirizado articuladas a coalizões políticas regionais, notadamente governos estaduais alinhados ao ideário ultraliberal da extrema-direita. - A PARALAXE CLASSISTA DA CORRUPÇÃO: O DISCURSO DA ESCASSEZ VERSUS A FARRA DO RENTISMO
O conceito de paralaxe classista evidencia que o objeto “crise e corrupção” transmuta-se radicalmente conforme o ponto de observação:
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│ A PARALAXE DO CASO CASAS BAHIA / BANCO MASTER │
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│ PERSPECTIVA DO BLOCO DOMINANTE │ PERSPECTIVA DA CLASSE OPERÁRIA │
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│ • “Estado mínimo, austeridade e │ • Estado máximo para o capital: │
│ eficiência corporativa”. │ isenções, propinas e salvamento. │
│ • Demissões justificadas por “crise │ • Milhões desviados em esquemas de │
│ insuperável de caixa e crédito”. │ ICMS e aplicações previdenciárias. │
│ • Acusações de corrupção tratadas │ • Conexão orgânica entre rentismo, │
│ como ‘desvios técnicos de terceiros’│ governos de extrema-direita e B3. │
│ • Passivos jogados na Recuperação │ • Calote no FGTS, verbas rescisórias │
│ Judicial com deságios abusivos. │ e planos de saúde suspensos. │
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A paralaxe expõe a contradição central: enquanto as direções corporativas e seus defensores ideológicos afirmam que “não há alternativa” senão o corte brutal de empregos, a supressão de garantias sindicais e o confisco de bônus via manipulação de softwares (PRWEB/Looqbox), a mesma engrenagem corporativa irriga gabinetes governamentais e instituições financeiras heterodoxas com dezenas de milhões de reais em propinas e operações de arbitragem fiscal.
3. O COMPLEXO RENTISTA: BANCO MASTER, REGIMES DE PREVIDÊNCIA E A ALIANÇA POLÍTICA
O materialismo histórico-dialético exige compreender o papel do capital financeiro parasitário como elemento disciplinador da economia periférica. A trajetória do Banco Master no cenário nacional ilustra a simbiose entre operadores de alto risco e o poder político:
- A Pilhagem dos Fundos de Previdência (RPPS): As apurações que colocaram a instituição sob a mira da Polícia Federal revelam o direcionamento de recursos de regimes próprios de previdência de servidores públicos estaduais e municipais para aplicações de alto risco, assegurando taxas de retorno fictícias e drenando recursos futuros da classe trabalhadora.
- A Articulação com Governos de Extrema-Direita: A expansão de operações do banco e a intermediação de notas comerciais e liquidez para empresas em vias de recuperação judicial apoiaram-se em alianças com gestões estaduais (como em São Paulo, Rio de Janeiro e estados do Nordeste). A bandeira da “privatização” e do “gerenciamento eficiente” serviu, na prática, como anteparo ideológico para a canalização de créditos tributários, concessões e depósitos públicos em benefício de agentes financeiros vinculados a redes de apoio partidário e eleitoral.
- A Descapitalização como Método: O Grupo Casas Bahia, afundado em um patrimônio líquido negativo de mais de R$ 8 bilhões, recorreu à emissão desesperada de notas comerciais e à busca de liquidez em agentes bancários paralelos. Quando os instrumentos formais do mercado de capitais se fecham pelo esgotamento da solvência, o grande varejo recorre aos desvios da máquina fazendária e aos acordos com a finança especulativa para adiar o colapso contábil.
- DA MEDIAÇÃO NO CEJUSC/MPT AO ENFRENTAMENTO POLÍTICO-SINDICAL
Frente à gravidade das denúncias que conectam a cúpula da Secretaria da Fazenda de governos de extrema-direita, o Banco Master e o calote social das Casas Bahia, a luta sindical classista adquire contornos políticos globais:
- Desmascaramento da Falsa Crise: A ação coordenada da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) e das federações de base (como a FEC-Bahia) demonstra aos trabalhadores que o argumento da “falência inevitável” é falso. A escassez de recursos para manter os postos de trabalho e quitar os direitos rescisórios do Art. 477 da CLT foi fabricada pela sangria de capitais e pelo pagamento de propinas corporativas.
- A Pauta de 11 Pontos da CNTC: A exigência de que os créditos trabalhistas não sejam submetidos à vala comum da Recuperação Judicial e a garantia da manutenção dos planos de saúde e de indenizações adicionais ganham força jurídica incontestável quando se prova que o passivo da empresa não deriva de retração do consumo, mas de desvios ilícitos continuados.
- Mobilização contra o Aparelhamento Patronal: O Dia Nacional de Luta convocado pelo movimento sindical não se limita a reivindicar acordos indenizatórios; ele denuncia a cumplicidade de governos estaduais com a destruição do tecido produtivo em favor de oligopólios e banqueiros sob investigação federal.
- CONCLUSÃO
O entrelaçamento entre a derrocada das Casas Bahia, o esquema da Secretaria da Fazenda paulista e as investigações envolvendo o Banco Master desmonta a falácia liberal da integridade dos mercados desregulamentados. No capitalismo em sua fase senil e dependente, a busca por lucratividade extraordinária prescinde da produção e da distribuição justa de bens, operando prioritariamente pela via da fraude, da captura do Estado e da pilhagem do patrimônio coletivo.
A classe trabalhadora não pode ser compelida a pagar a conta dessa ciranda de corrupção sistêmica com o desemprego, a fome e o desamparo familiar. A resposta exige a elevação da luta classista para além do mero corporativismo: impõe-se a responsabilização solidária e o confisco patrimonial dos controladores, o banimento de operadores financeiros criminosos e o fortalecimento do sindicalismo classista como trincheira intransigente em defesa dos empregos, da verdade material e da soberania popular.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Presidência da República, 1988.
- BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943.
- CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES NO COMÉRCIO (CNTC). Pauta de Reivindicações Coletivas e Dia Nacional de Luta no Caso Casas Bahia. Brasília: CNTC, setembro de 2026.
- DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS (DIEESE). 3º Boletim Especial do Comércio: O Caso Casas Bahia e a Recuperação Judicial. São Paulo: DIEESE, agosto de 2026.
- FOLHA DE S.PAULO / UOL. Caso Master vira munição eleitoral e investigações da Polícia Federal sobre institutos de previdência. São Paulo, setembro de 2026.
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro III: O Processo Global da Produção Capitalista. São Paulo: Boitempo, 2017.
- METRÓPOLES. Máfia do ICMS: Casas Bahia pagou R$ 11,6 milhões de propina a servidores da Secretaria da Fazenda de SP. Reportagem de Ramiro Brites e Vinícius Schmidt, setembro de 2026.
- MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (MPSP). Operação Ícaro: Autos do Inquérito de Corrupção na SEFAZ-SP. São Paulo: MPSP, 2026.
- SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). Recurso Extraordinário nº 999.435/RS (Tema 638 de Repercussão Geral). Relator: Min. Marco Aurélio; Redator para acórdão: Min. Edson Fachin, julgado em 08/06/2021.
- ŽIŽEK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
Para acompanhar uma discussão aprofundada sobre as engrenagens e desdobramentos desse escândalo financeiro que mobiliza o debate nacional, veja o Podcast sobre o Caso Banco Master.
Esse registro em vídeo oferece um panorama das movimentações econômicas e institucionais que impactam diretamente o setor de serviços, a circulação de capitais e os fundos no Brasil.
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