Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O artigo analisa o processo de produção do espaço urbano em Salvador sob a lente da parallaxe classista, articulando o instrumental do Planejamento Estratégico Situacional Classista (PESC-MAPP) e do Planejamento de Ação Integrada de Desenvolvimento (PAID-MAPE). Investigam-se as conexões entre a gestão privatista do solo — iniciada na intervenção carlista da ditadura militar (1967–1970) e perpetuada pela “Turma das Ilhas Suarez” — e a recente proliferação de escândalos financeiros e imobiliários, tais como os desvios de verbas públicas, a privatização e alienação de terrenos públicos e a intrincada rede de interesses exposta nos desdobramentos do escândalo do Banco Master. Confrontam-se esses mecanismos de espoliação com as conquistas e desafios da infraestrutura pública estadual no Subúrbio Ferroviário (a avanço do Veículo Leve sobre Trilhos – VLT) e formula-se o enquadramento político-econômico orientado às proposições da reflexão anticolonial e socialista.
1. Introdução: A Parallaxe Classista e o Bloco Hegemônico Soteropolitano
A compreensão do espaço urbano soteropolitano exige superar as narrativas estetizantes do city marketing e apreender a cidade como o resultado concreto da acumulação capitalista e do conflito de classes. A parallaxe classista revela duas realidades inconciliáveis que coexistem no mesmo território:
- A “Cidade-grife” do Bloco Hegemônico: Desenhada pelas frações rentistas e pelo empresariamento urbano que domina a máquina municipal. Trata-se de uma cidade voltada à financeirização da terra, à verticalização de luxo na Orla Atlântica e à conversão do patrimônio ambiental e histórico em ativos negociáveis.
- A “Cidade do Trabalho” Expropriada: Vivenciada pela classe trabalhadora periférica, exposta à segregação espacial, a índices alarmantes de insegurança, ao desemprego pré-estrutural e à carência de infraestrutura básica no Miolo Urbano e no Subúrbio Ferroviário.
A atual fase de crise político-econômica em Salvador aprofunda essa clivagem. Durante o período eleitoral, a exposição de operações financeiras nebulosas — como os desdobramentos de negócios ligados ao Banco Master, as privatizações de encostas e a dilapidação de bens públicos (desde terrenos verdes até sucateamento de infraestruturas históricas) — expõe o software de governança da oligarquia soteropolitana.
2. A Trajetória de Apoderamento do Solo: Do Carlismo às “Ilhas Suarez”
A gênese desse modelo de governança remonta ao ano de 1967, quando Antônio Carlos Magalhães (ACM, o avô) assumiu como prefeito nomeado pela ditadura militar. Naquele período, consolidou-se o modelo de “gestão de balcão”, subordinando o planejamento público aos interesses privados do capital imobiliário e financeiro.
[ DITADURA MILITAR / INTERVENÇÃO (1967–1970) ]
Instituição do Modelo de Gestão de Balcão e Coronelismo
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[ CONTINUIDADE OLIGÁRQUICA E RENTISTA (1970–2026) ]
Fatiação do Solo Público e Captura das Concessões Municipais
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[ A "TURMA DAS ILHAS SUAREZ" E A CRIME-FINANCEIRIZAÇÃO ]
Alienação de Áreas Verdes | Escândalo Banco Master | Sucateamento e Especulação
Ao longo de quase seis décadas, essa estrutura de poder — mantida por herdeiros políticos e a cúpula empresarial autodenominada “Turma das Ilhas Suarez” — transformou a máquina administrativa do município em uma imobiliária de luxo:
- A Alienação de Terrenos Públicos (Desafetações): A aprovação sistemática de leis municipais que retiram a proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs), encostas e praças públicas no Corredor da Vitória, Morro do Ipiranga, Itaigara e Patamares para leilão privado, alimentando fundos de investimento especulativos.
- A Captura Financeira e o Escândalo Banco Master: O envolvimento de agentes da gestão e do mercado local com operações atípicas e engenharias financeiras (expostas na imprensa e em investigações do setor bancário) reflete como a especulação imobiliária em Salvador se amarra às teias do capital financeiro parasitário.
- A Degradação do Eito Central (Da Graça à Ribeira): O abandono consciente dos bairros tradicionais (Centro Histórico, Comércio, Calçada e Ribeira) atua para baratear o valor venal dos imóveis históricos, preparando o terreno para futura gentrificação e apropriação por grandes grupos.
3. A Sabotagem à Mobilidade Popular e a Contradição do VLT
Enquanto a gestão municipal atua na defesa dos interesses rentistas, as infraestruturas de integração de grande escala têm dependido do investimento público das esferas estadual e federal. O caso do Subúrbio Ferroviário sintetiza o embate classista pela mobilidade.
Após a desativação do antigo Trem do Subúrbio, a população periférica viveu anos de grave isolamento. Contudo, a retomada e o avanço do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) — que alcançou marcos decisivos com viagens-teste no trecho entre a Parada Marisqueiras, Plataforma e Itacaranha, somando 73% de conclusão do Trecho 1 (Calçada – Ilha de São João) — revelam a viabilidade do transporte público massivo e de alta tecnologia.
[ BLOCO OLIGÁRQUICO / PIG ] [ CLASSE TRABALHADORA / VLT ] ────────────────────────────── ─────────────────────────────── - Transporte rodoviário predatório - Trilhos elétricos públicos e integrados - Boicote e cerco midiático - Acessibilidade para marisqueiros/pescadores - Manutenção das Ilhas de Calor - Urbanização e contenção de maré no Subúrbio
A atuação da “Turma das Ilhas Suarez” e do oligopólio de imprensa a ela alinhado (o Partido da Imprensa Golpista – PIG) opera sob o dogma de inviabilizar as conquistas públicas populares. O objetivo de blindar o monopólio das empresas de ônibus privadas resulta na tentativa de invisibilizar as obras do VLT — que além dos trilhos trazem intervenções urbanas de contenção de maré, áreas de lazer e transporte adaptado para pescadores e marisqueiras em Itacaranha.
4. Matriz Operacional e Diagnóstico Situacional (PESC-MAPP / PAID-MAPE)
Sob a ótica do Planejamento Estratégico Situacional Classista (PESC-MAPP) e do Planejamento de Ação Integrada de Desenvolvimento (PAID-MAPE), articulam-se os Nós Críticos (NC) e as operações de reversão do modelo predatório:
| Nó Crítico (NC) | Diagnóstico Situacional | Operação Concreta de Classe (PESC-MAPP) | Parâmetro Jurídico-Institucional |
|---|---|---|---|
| NC-1: Captura Financeira e Corrupção | Envolvimento do capital público e solo urbano em esquemas bancários (Banco Master) e leilões de terras. | Auditoria pública das desafetações; instauração de CPI do Solo Urbano e do Patrimônio Público. | Art. 37, caput da CF/88 (Moralidade e Impessoalidade); Lei de Improbidade. |
| NC-2: Trava de Mobilidade Suburbana | Concorrência predatória de linhas de ônibus contra o sistema trilhado. | Aceleração e garantia de Integração Tarifária Zero entre VLT, Metrô e ônibus. | Art. 2º, I da Lei nº 10.257/2001 (Estatuto da Cidade). |
| NC-3: Ociosidade no Centro Original | Abandono do patrimônio no eito Graça-Comércio-Ribeira para fins especulativos. | Aplicação imediata do PEUC, IPTU Progressivo e desapropriação para Habitação de Interesse Social (HIS). | Arts. 5º a 8º do Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001). |
5. Enquadramento Político e Diretrizes de Orientação Classista
Atendendo ao direcionamento analítico pautado pelo debate socialista e anticolonial, a resposta ao avanço das oligarquias em Salvador exige a consolidação de uma Frente Única do Povo Trabalhador:
- Investigação e Moratória dos Ativos Financeiro-Imobiliários: Exigir o bloqueio de todas as alienações de áreas públicas municipais em andamento e a apuração profunda das conexões entre cartéis imobiliários locais e instituições bancárias sob investigação de fraudes.
- Defesa e Expansão do VLT do Subúrbio como Modal Público: Garantir que o VLT não seja privatizado e cumpra sua função social integradora, ligando o Subúrbio ao Centro (Calçada/Comércio) e às linhas do Metrô sem encarecimento da tarifa para a classe trabalhadora.
- Aprovação do PEUC e Reabitação do Centro Histórico: Converter o estoque de imóveis ociosos abandonados pelo capital especulativo em conjuntos habitacionais populares, garantindo moradia digna para quem edifica e trabalha na cidade.
- Enfrentamento ao Monopólio Midiático: Construir redes autônomas de comunicação popular e sindical capazes de desarmar a propaganda oligárquica, expondo a realidade da violência, do desemprego e do desmonte ambiental provocado pela gestão das elites soteropolitanas.
6. Conclusão
A reconstituição histórica e a análise de conjuntura de Salvador comprovam que as mazelas urbanas e a violência endêmica não resultam de imperfeições técnicas, mas da eficácia continuada do projeto de dominação e pilhagem conduzido pela oligarquia local e o capital financeiro.
A superação desse quadro exige a imposição organizada da vontade da classe trabalhadora. Desmontando a rede de interesses exposta nos escândalos financeiros e imobiliários e garantindo a retomada do solo urbano pelo seu valor de uso, Salvador deixará de ser o feudo privado da “Turma das Ilhas Suarez” para se afirmar como a cidade soberana do povo que a constrói.
Referências Bibliográficas
- BAHIA ECONÔMICA. VLT de Salvador avança com início da viagem teste da Parada Marisqueiras até Itacaranha. Salvador, 10 de setembro de 2026.
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
- BRASIL. Lei Federal nº 10.257, de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade). Brasília, DF: Presidência da República, 2001.
- CARVALHO, José Reinaldo. Análises de Conjuntura Política e Internacional. Cadernos de Debate Socialista, 2024-2026.
- HARVEY, David. A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
- OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES (Núcleo Salvador / UFBA). Como Anda Salvador. Organização de Inaiá Maria Moreira de Carvalho e Gilberto Corso Pereira. Salvador: EDUFBA, 2006.
- RIOS DA SILVA, José Evangelista. Dossiê Geourbano e Análise Dialética de Salvador: A Captura do Solo Urbano pelo Carlismo e pela “Turma das Ilhas Suarez”. Documento Técnico-Político, 2026.
- SANTOS, Milton. O Centro da Cidade do Salvador: Estudo de Geografia Urbana. São Paulo: EDUSP, 2008.
José Evangelista Rios da Silva | Dirigente da FEC BahiaGeógrafo (UCSal), Pedagogo (UNEB) e Especialista em Planejamento Estratégico (CES) e Economia Política (FMG). Técnico em Finanças. Com mais de 50 anos de atuação sindical e no setor varejista, acumula passagens pelos conselhos do Sesc/Senac-BA, Cooperbom e Conselhos Municipais de Salvador (Defesa do Consumidor e Revitalização Urbana). Pauta sua práxis na construção de pontes e soluções para os trabalhadores.
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