Carta Aberta a Zélia Duncan: Da Dor Material à Esperança Necessária

De: Um trabalhador do comércio de alimentos, pai e militante das causas humanas Para: Zélia Duncan, artista e cidadã Assunto: A dimensão sensível e concreta da resistência histórica no Brasil

Prezada Zélia,

Escrevo-lhe no encadeamento de um tempo em que o corpo e a consciência são submetidos a provações diárias. Sou um homem que construiu a vida na lida diária da classe trabalhadora — na rotina dura e complexa das grandes redes de supermercados —, pai de família, e alguém que conheceu de perto as marcas do tempo e as limitações impostas pela saúde através de sucessivas cirurgias. Contudo, ao escutar suas palavras e observar sua postura destemida diante do nosso país, constato que a dor mais profunda que carrego no peito não deriva da fragilidade do meu corpo físico, mas da ferida aberta na alma da nossa sociedade.

Suas reflexões e sua voz não repercutem em mim apenas como expressão artística de grande relevância nacional, mas como um eco exato da indignação que pulsa no meu cotidiano. Vivemos um dilema trágico e contemporâneo: a tensão constante entre a fé inabalável num Brasil emancipado para todos e todas e o abismo de ver a barbárie instalada no cotidiano de tantas famílias brasileiras.

A “praga” a que nos referimos não é um vírus biológico, mas a peste ideológica do ressentimento, do racismo, da negação da ciência, da crueldade social e da necropolítica. É a política que escolhe quem deve viver e quem deve ser deixado à própria sorte; uma lógica que transforma o preconceito em narrativa política e a mentira em instrumento de poder. Como homem que dedicou a vida à defesa dos direitos fundamentais dos trabalhadores no campo e na cidade, causa-me profundo espanto ver como essa praga se infiltrou nos lares, fraturando afetos e levando entes queridos a naturalizarem a violência e a desumanidade sem qualquer laivo de autocrítica.

No entanto, sua coragem de usar a arte como trincheira lembra-nos de uma lição fundamental do materialismo histórico: a barbárie não é um destino inevitável, mas um fenômeno construído e que pode — e deve — ser superado pela práxis e pela consciência coletiva.

A história humana é rigorosa em demonstrar que os ciclos de obscurantismo e tirania encontram o seu limite no esgotamento de suas próprias contradições e na força ininterrupta da resistência popular.

  • O Nazifascismo: A derrota de Adolf Hitler desmascarou a falácia da supremacia e da barbárie institucionalizada no século XX;
  • O Reacionarismo Global: A derrocada e o isolamento político de figuras como Donald Trump escancaram o limite do populismo de extrema-direita no cenário internacional;
  • O Bolsonarismo e a Necropolítica: A rejeição nas urnas e o julgamento histórico da liderança de Jair Bolsonaro demonstram que o projeto de destruição do Estado de Direito e de espoliação dos direitos humanos não se sustenta perpetuamente diante da realidade concreta da vida dos trabalhadores.

Superar o bolsonarismo e a sua engenharia de morte não é tarefa de um único dia, nem de uma única eleição, mas um compromisso ético e histórico com as gerações futuras. Não deixaremos que a cegueira ideológica estrague a possibilidade do amanhã.

Obrigado, Zélia, por manter sua voz afinada com os anseios de justiça e dignidade do povo brasileiro. Suas palavras me tocam fundo porque reafirmam que não estou só nessa travessia. Vale a pena continuar lutando. Seguiremos de pé — no chão da fábrica, nas prateleiras dos mercados, nos palcos, nas ruas e na batalha das ideias —, defendendo a democracia, o amor, a verdade e a soberania popular.

Com respeito e solidariedade de quem compartilha a mesma esperança,

Um trabalhador e militante da vida.

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