Por José Rios (Artigo de Análise e Opinião para a coluna “De Olho no Voto” do Blog REINTEGRAR-SER)
A América Latina vive um momento de inflexão histórica no curso de seu superciclo eleitoral. Analistas internacionais e cientistas políticos burgueses, ao observarem que treze dos últimos dezesseis pleitos presidenciais na região consagraram diferentes matizes da direita e da extrema-direita, apressam-se em decretar o advento de uma suposta onda conservadora irresistível. Sob essa perspectiva superficial, a eleição geral de 2026 no Brasil é caracterizada como a mãe de todas as batalhas. E de fato o é, mas não pelas razões apresentadas pelos analistas de gabinete do grande capital.
Sob o método do materialismo histórico-dialético e a lente da paralaxe classista, o que se desenvolve no subcontinente não é uma conversão espontânea das massas ao catecismo neoliberal, mas a operação calculada do imperialismo estadunidense em declínio relativo — o autêntico “império do caos”. Incapaz de sustentar sua hegemonia global unicamente pela diplomacia tradicional diante da ascensão do Sul Global e da consolidação dos BRICS+, Washington reativa doutrinas de coerção regional para tentar enquadrar o continente. A articulação de extrema-direita sob a fórmula neocolonial subordinada à Casa Branca, tendo no governo de Javier Milei na Argentina seu preposto mais ruidoso, visa cercar e asfixiar o projeto soberano brasileiro. Para o capital transnacional, o Brasil soberano, que defende suas reservas estratégicas de petróleo e minerais e lidera a transição multipolar, é o polo fundamental a ser derrotado.
Contudo, as profecias do conservadorismo continental colidem com a realidade material da luta de classes em solo brasileiro. Enquanto os arautos do mercado tentam reduzir a eleição a um suposto voto pragmático de castigo, o bloco reacionário mergulha em uma crise moral e jurídica sem precedentes, enquanto a classe trabalhadora retoma seu protagonismo nas ruas.
A Fissura na Ordem e a Degeneração do Clã Político
A pretensa marcha triunfal da direita choca-se contra a materialidade escandalosa dos fatos apurados pela Polícia Federal e pela Justiça. O candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, foi oficialmente enquadrado no Supremo Tribunal Federal no bojo do Inquérito 5026, investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A farsa do financiamento cinematográfico privado para a obra Dark Horse ruiu por completo: os recursos solicitados e recebidos de Daniel Vorcaro, banqueiro do Banco Master envolvido em esquemas de espoliação de servidores públicos por meio de juros escorchantes no crédito consignado, expuseram o nexo financeiro entre o rentismo predatório e o aparato político da reação. Essa drenagem ganhou contornos ainda mais graves com a descoberta de que a empresa Bravo Grafeno, de propriedade do senador e promovida pelo ex-presidente, operava no mesmíssimo endereço físico em Brasília que abrigava dezesseis empresas de Antônio Carlos Camilo Antunes, o operador do desvio bilionário de dois bilhões de reais contra mais de quatro milhões de segurados da Previdência Social.
A gravidade dos fatos obrigou até mesmo o jornal O Estado de S. Paulo, porta-voz histórico do conservadorismo liberal, a estampar em editorial recente que o candidato sofreu falência ética e não reúne condições morais sequer para disputar cargos eletivos. Quando a própria imprensa tradicional paulista se vê constrangida a abandonar o herdeiro do bolsonarismo, fica evidente que o discurso de combate à corrupção da extrema-direita desmoronou diante da realidade material da pilhagem do Estado e da espoliação dos aposentados.
O Desmonte do Lawfare e a Arrancada Popular
Diante da ruína de suas narrativas eleitorais, setores reacionários tentaram recorrer ao lawfare endógeno dentro do aparelho judiciário, forçando relatórios atípicos e vazamentos seletivos para semear a desconfiança sobre o processo eleitoral. No entanto, a exigência de ministros da Suprema Corte pela abertura ampla e irrestrita de todos os autos e anexos do caso Master inverteu a correlação de forças: quem pretendia fustigar as instituições do Estado viu-se forçado a expor a blindagem indevida que protegia lideranças da direita e seus laços com a agiotagem.
Enquanto a oposição tenta se recompor do abalo, a resposta do campo popular ganhou as ruas neste domingo, dia 13 de setembro. Em Pernambuco, o bloco de militância desfilou pelas ladeiras históricas de Olinda com a senadora Teresa Leitão, reafirmando que esta é a eleição de nossas vidas. No Ceará, a Plenária dos Movimentos Sociais reuniu trabalhadores e lideranças em Fortaleza, com o governador Elmano de Freitas e quadros da Frente Brasil da Esperança. A mobilização viva das massas prova que o Nordeste e os cinturões operários do país continuam sendo a trincheira intransponível contra o fascismo.
A Trincheira “De Olho no Voto” e a Batalha do Parlamento
Com a inauguração da coluna De Olho no Voto no Blog REINTEGRAR-SER, assumimos a tarefa de elevar a análise de conjuntura a instrumento pedagógico de combate. A experiência acumulada em décadas de militância classista, nos ensina que a vitória eleitoral não se consuma na passividade dos gabinetes, mas no trabalho de base que traduz a geopolítica em pão, salário e dignidade para o trabalhador.
A disputa central não se limita ao Palácio do Planalto. A metáfora formulada com precisão pelo ministro Rui Costa sintetiza a urgência estratégica da hora: o presidente Lula é o timoneiro que guia o barco nacional em direção ao desenvolvimento e à soberania, mas o Congresso Nacional é formado pelos remadores. Votar no timoneiro e entregar as vagas de deputado e senador a partidos do Centrão e da Faria Lima é colocar sabotadores no barco, prontos para remar para trás, sabotar a valorização do salário mínimo, barrar o fim da escala 6×1 e chantagear o governo com emendas orçamentárias.
A disputa das cinquenta e quatro vagas do Senado Federal e da totalidade da Câmara dos Deputados define se o Brasil terá um governo com sustentação popular para realizar reformas estruturais ou se ficará submetido à chantagem permanente de prepostos do rentismo. Por isso, a consigna que deve ecoar em cada fábrica, feira e comunidade até 4 de outubro é o voto casado: votar no projeto de reconstrução nacional e votar maciçamente nas bancadas da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB, PV) e seus aliados programáticos.
O Brasil não capitulará ao projeto neocolonial de Washington nem ao cinismo de uma extrema-direita associada à agiotagem. Com a coluna “De Olho no Voto” atenta aos passos da luta de classes, a memória viva de nossas batalhas históricas e o povo organizado nas ruas, venceremos a mãe de todas as batalhas e consagraremos a soberania da Nação brasileira e o triunfo da classe trabalhadora!
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