Por José Rios
Muitos analistas apressados diagnosticam o cenário atual como uma vitória definitiva da futilidade, afirmando que a sociedade moderna passou a cultuar a idiotia. Ao olhar o debate público dominado pelo sensacionalismo das redes sociais, a tentação imediata de certa elite intelectual é balançar a cabeça com desdém e lamentar a “mediocridade das massas”.
No entanto, quando olhamos esse fenômeno sob a lente do materialismo histórico e da paralaxe classista, percebemos que esse diagnóstico moralista esconde o essencial. A superficialidade generalizada não é um defeito de caráter individual nem uma escolha pessoal; é um mecanismo estrutural engendrado pelo capital. O sistema necessita da desinformação, da dispersão e do isolamento para enfraquecer o pensamento crítico e inviabilizar a organização coletiva.
O Risco da “Jaula de Cristal”
Frente a esse embrutecimento fabricado, surge um perigo real no campo progressista: o enclausuramento na chamada “jaula de cristal”. Trata-se da atitude de quadros, formadores e intelectuais que, chocados com a vulgaridade do debate, recolhem-se a um isolamento elitista, limitando-se a criticar o povo ou a polir teorias refinadas que não conversam com a realidade da rua.
Bertolt Brecht já alertava que o pior analfabeto é o político — aquele que não vê que o custo da vida, o preço do feijão e a falta de direitos dependem das decisões políticas. Mas Brecht não constatava isso para tripudiar sobre o trabalhador alienado, e sim para convocá-lo à luta. Classificar a classe trabalhadora como irremediavelmente fútil é dar de ombros para a principal tarefa dos militantes de base: elevar a consciência política através da convivência e do trabalho comunitário.
Seguir o caminho do isolamento é aceitar a derrota. Reformar a jaula de cristal com citações difíceis não altera a vida de quem acorda às cinco da manhã para pegar um ônibus lotado.
A Mobilização Nacional como Caminho Concreto
Para reverter esse quadro no curto prazo, não precisamos de soluções individuais de “elevação espiritual” ou estoicismo de gabinete. A resposta precisa ser política, simples e coletiva.
O momento exige aproveitar o período de mobilização nacional para transformar o diagnóstico em ação direta nas bases populares, nos sindicatos e nas associações de bairro:
- Traduzir a complexidade sem perder a profundidade: Fazer a disputa ideológica utilizando uma linguagem direta, fluida e acessível, conectada com as dores reais do povo.
- Superar o moralismo pela práxis: Substituir a crítica estéril ao “consumidor de notícias falsas” pelo acolhimento e pela explicação paciente sobre quem realmente lucra com a exploração do trabalho.
- Ocupar os espaços de debate: Disputar as redes sociais e as ruas com a mesma intensidade, sem medo do embate de ideias, construindo ferramentas de comunicação popular que rompam a bolha algorítmica.
Nenhum sistema de dominação é invencível quando a classe trabalhadora descobre a sua própria força. O antídoto contra o culto à superficialidade não é a arrogância do saber isolado, mas sim a calorosa reconstrução do trabalho de base e a organização da luta coletiva.
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