Por José Rios –Análise Estratégica e Teórico-Metodológica
A soberania nacional deixou de ser uma questão puramente militar ou territorial. O conceito clássico, herdado da paz de Vestfália, que limitava a defesa de um país ao monopólio da força armada e à guarda de suas fronteiras, já não dá conta dos desafios do século XXI. No cenário contemporâneo, dominado pela financeirização global, por cadeias de valor altamente assimétricas e por guerras de nova geração — que combinam cerco econômico, cooptação judicial (lawfare) e desestabilização cognitiva nas redes —, a soberania só pode existir se for multidimensional.
Para um país do Sul Global com as dimensões e contradições do Brasil, defender o Estado exige articular diferentes frentes de resistência e autonomia. A soberania hoje se desdobra na capacidade de proteger a Amazônia Azul e o espaço aéreo, mas também de assegurar a independência na produção de alimentos e fertilizantes (o chamado NPK), garantindo a segurança reprodutiva da população sem submissão ao oligopólio biotecnológico externo. Desdobra-se no controle firme sobre as reservas do Pré-Sal e da Margem Equatorial, no refino nacional de combustíveis e no domínio industrial dos minerais críticos do futuro, como terras raras e lítio, impedindo que o país seja reduzido a mero fornecedor de matéria-prima bruta. Exige, por fim, o domínio sobre a infraestrutura digital, o processamento de dados e a inteligência artificial, sob pena de nos tornarmos colônias digitais das grandes corporações do Norte Global.
Essa totalidade não surge do funcionamento espontâneo dos mercados, tampouco de conciliações pragmáticas de curto prazo. Exige um Projeto Nacional de Desenvolvimento de longo prazo, de caráter vinculante e amparado no planejamento estratégico situacional. É preciso mapear os “nós críticos” da dependência periférica e superá-los mediante a ação articulada entre defesa, indústria, ciência e organização popular.
Os Nós Críticos da Dependência e a Guerra Híbrida
A aplicação de uma leitura em paralaxe sobre a formação social brasileira revela uma contradição gritante: o país ostenta ativos estratégicos invejáveis, mas continua amarrado por gargalos estruturais graves.
Por um lado, o Brasil dispõe de uma Base Industrial de Defesa com capacidades globais — a exemplo dos projetos aeronáuticos da Embraer, da fabricação de submarinos pelo PROSUB e dos sistemas de mísseis —, além de uma matriz elétrica descarbonizada que confere enorme vantagem geoeconômica e de reservas massivas de biodiversidade, água doce e minerais estratégicos.
Por outro lado, o Estado brasileiro opera sob constante ameaça de paralisia. Prevalecem a dependência de componentes eletrônicos e microchips importados para sistemas de defesa avançados, a asfixia orçamentária que consome os recursos das Forças Armadas com custeio e previdência em detrimento da pesquisa e inovação, e o risco permanente de desmonte ou entrega do patrimônio tecnológico nacional à iniciativa privada estrangeira. Soma-se a isso a transferência massiva de dados do povo brasileiro para servidores sob jurisdição de potências centrais.
Essas vulnerabilidades são exploradas em um cenário global marcado pelo declínio relativo da hegemonia ocidental e pela emergência da multipolaridade, impulsionada pelos BRICS. À medida que o assédio sobre as riquezas do Sul Global se intensifica, o imperialismo diversifica suas formas de atuação. A guerra não se dá apenas no campo de batalha; ela se manifesta na guerra híbrida, que busca fragmentar o tecido social e corroer a confiança pública nas instituições soberanas, e na ação da burguesia compradora interna. Frações das elites financeiras e do agronegócio primário atuam frequentemente como uma verdadeira “quinta coluna”, subordinando os interesses nacionais à remessa imediata de dividendos ao exterior e ao desmonte das salvaguardas públicas.
O Mandato Constitucional e as Diretrizes de Emancipação
A construção de um Projeto Nacional de Desenvolvimento não é mero capricho ideológico nem escolha facultativa de governos de ocasião. Trata-se de um imperativo categoricamente determinado pela Constituição Federal de 1988.
A Carta Magna erige a soberania e a independência nacional como alicerces da República e determina a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, voltada para a garantia do desenvolvimento e para a erradicação da pobreza. Mais do que isso, em seu artigo 219, a Constituição afirma categoricamente que “o mercado interno integra o patrimônio nacional” e deve ser incentivado para viabilizar a autonomia tecnológica do país. A infraestrutura, os recursos do subsolo e a capacidade computacional não são mercadorias ordinárias: são patrimônio coletivo da sociedade brasileira.
Do mesmo modo, a legislação brasileira recente sobre a defesa do Estado Democrático de Direito tipifica como crime contra a pátria qualquer tentativa de submeter o território ou as instituições nacionais ao domínio estrangeiro ou de desestabilizar a ordem constitucional.
Para efetivar essa proteção normativa e garantir a transição da dependência para a soberania plena, o Estado brasileiro precisa assumir diretrizes claras e inegociáveis:
- Soberania Tecnológica e Mineração de Valor Agregado: Interromper imediatamente a exportação in natura de terras raras e minerais críticos, condicionando a exploração ao processamento químico e à fabricação de ligas e superímãs em solo nacional.
- Dissuasão e Capacidade Operacional: Reorientar os investimentos de defesa para garantir o poder de negação de área, priorizando tecnologias autônomas, defesa cibernética e mísseis de cruzeiro, blindando a Amazônia e a Margem Equatorial.
- Controle Estatal sobre Empresas Estratégicas: Exercer o poder de governança e criar mecanismos de salvaguarda pública (golden shares) sobre empresas estratégicas da base industrial de defesa e de telecomunicações, impedindo a desnacionalização de tecnologia sensível.
- Soberania Computacional: Migrar a infraestrutura de dados do Estado para uma nuvem pública soberana e investir massivamente na expansão da capacidade computacional nacional dedicada à inteligência artificial.
- Organização e Mobilização Popular: Conceber a participação dos trabalhadores, dos sindicatos e das universidades não como figurantes, mas como o verdadeiro motor e a sustentação política necessária para blindar o projeto soberano contra as pressões do capital financeiro internacional.
A soberania, longe de ser uma abstração teórica, é o pressuposto material indispensável para que o povo brasileiro viva com dignidade, trabalho e autonomia. Sem indústria de ponta, sem ciência protegida, sem forças de defesa preparadas e sem controle sobre nossas riquezas materiais e digitais, a democracia corre o risco de virar um formalismo estéril. Somente a combinação entre planejamento estratégico autônomo, firmeza constitucional e empoderamento da classe trabalhadora garantirá ao Brasil o direito inalienável de decidir seu próprio destino.
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