Por José Rios
Resumo
Este artigo analisa a transição do sistema internacional sob a perspectiva da luta anti-imperialista, da soberania nacional e do internacionalismo proletário. Argumenta-se que a crise da hegemonia unipolar estadunidense e do multilateralismo tutelado abriu espaço para o fortalecimento do Sul Global através de novos mecanismos de cooperação multilateral e financeira. Sob a lente do materialismo histórico-dialético, da paralaxe classista e do Planejamento Estratégico Situacional (PESC-MAPP), o trabalho examina como a autonomia de financiamento de infraestrutura real e a superação do bloqueio monetário e bélico do imperialismo constituem a precondição incontornável para a paz, a autodeterminação dos povos e a emancipação das nações periféricas e semiperiféricas.
Palavras-chave: Luta Anti-Imperialista; Soberania Nacional; Multipolaridade; Sul Global; Internacionalismo; Emancipação Econômica.
1. A Crise do Unilateralismo Imperialista e a Centralidade da Luta Geopolítica
A conjuntura internacional contemporânea é definida pelo choque frontal entre a ofensiva agressiva do imperialismo — liderada pelos Estados Unidos e a OTAN — e a resistência soberana dos povos do Sul Global. O colapso gradual da ordem unipolar do pós-Guerra Fria não ocorre de forma pacífica: expressa-se no acirramento de intervenções corporativas, sanções unilaterais, bloqueios econômicos criminosos e guerras de agressão direcionadas contra nações que recusam a tutela de Washington.
A análise rigorosa desse processo exige superar a ilusão liberal de uma “governança global neutra”. A ordem internacional assentada no privilégio do dólar e na infraestrutura financeira do ocidente operou, historicamente, como uma correia de transmissão do capital monopolista e das potências centrais para submeter a periferia ao saque de seus recursos, à austeridade fiscal e à pilhagem de sua soberania.
2. A Paralaxe Classista e a Correlação de Forças no PESC-MAPP
Sob a perspectiva da paralaxe classista, o fenômeno da emergência de novas redes multilaterais e da ampliação de blocos emergentes assume sentidos diametralmente opostos a depender da posição de classe do observador:
- Para a Oligarquia Financeira e o Complexo Industrial-Militar Ocidental: A busca por soberania nacional e autonomia financeira pelos povos periféricos é enquadrada como uma “ameaça revisionista” à estabilidade e às regras monopolísticas do mercado global.
- Para as Classes Trabalhadoras e os Povos Oprimidos do Sul Global: Representa a conquista de espaço tático e estratégico para romper o garrote do subdesenvolvimento, libertando-se da agiotagem do FMI e do Banco Mundial e garantindo direitos sociais, industrialização e soberania.
Na cartografia das forças em conflito, sob a lente do PESC-MAPP, evidencia-se uma disputa entre dois vetores antagônicos:
VETOR IMPERIALISTA / UNIPOLAR:
┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ • Complexo Industrial-Militar (OTAN / Bases Internacionais) │
│ • Coerção Monetária (Dólar como arma / Bloqueios no SWIFT) │
│ • Monopólio Informativo (Big Techs / Censura de Mídia Independente) │
└────────────────────────────────────┬────────────────────────────────────┘
│ (Contradição Dialética Principal)
▼
VETOR ANTI-IMPERIALISTA E MULTIPOLAR:
┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ • Mecanismos Financeiros Autônomos (Crédito do NBD / Moedas Locais) │
│ • Cooperação Sul-Sul sem Condicionalidades de Austeridade Neoliberal │
│ • Soberania Tecnológica, Energética e Solidariedade entre os Povos │
└─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┘
3. A Autonomia de Financiamento e a Ruptura com o Estrangulamento Neoliberal
A verdadeira emancipação nacional exige bases materiais concretas. A atuação de instituições alternativas de financiamento do desenvolvimento — com destaque para o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), sob a gestão de Dilma Rousseff — representa uma alteração qualitativa na correlação de forças global:
- Adesão de Economias Submetidas ao Cerco: A aceitação de nações que enfrentam o isolamento e as sanções imperialistas (como o Zimbábue) e a solidariedade estratégica com economias sob bloqueio criminoso (como Cuba) comprovam que a nova arquitetura de crédito funciona como um escudo antisanções.
- Financiamento da Economia Real: Em contraste com a receita do FMI, que exige arrocho salarial, privatizações e destruição de direitos trabalhistas, o novo crédito multilateral destina-se ao desenvolvimento produtivo, infraestrutura pesada, transição energética e soberania tecnológica.
- Desdolarização e Liquidação em Moedas Nacionais: A ampliação das trocas diretas em moedas locais e o desenvolvimento de plataformas digitais e tokenizadas descentralizadas cortam o fluxo de mais-valia extraído pela intermediação do dólar e imobilizam a capacidade de sanções extraterritoriais do imperialismo.
4. Multipolaridade como Caminho para a Paz e a Autodeterminação
A luta por um mundo multipolar não se confunde com um mero arranjo diplomático burocrático. Na concepção marxista-leninista e nacional-libertadora, a multipolaridade é o terreno tático sobre o qual os povos das nações oprimidas reconquistam sua capacidade de autodeterminação, planejamento soberano e desenvolvimento de suas forças produtivas.
A articulação de organismos multilaterais soberanos (como o BRICS+, a CELAC e fóruns de cooperação com a China) fortalece o pilar do internacionalismo e da solidariedade antirracista e anti-imperialista. A conquista de soberania em inteligência artificial, computação de alto desempenho e C&T impede que as nações emergentes continuem prisioneiras do cibercolonialismo e do controle informativo promovido pelas plataformas monopolistas da centralidade imperial.
5. Considerações Finais
O redesenho da economia política e da geopolítica mundial não é um fenômeno automático das leis de mercado, mas o fruto da resistência ativa dos povos e das nações contra o domínio imperialista.
A construção de infraestruturas financeiras soberanas, o fortalecimento das rotas de liquidação direta, o acesso ao crédito para o desenvolvimento sem amarras neoliberais e a defesa firme da paz multilateral representam o caminho concreto para derrotar a estratégia de espoliação do imperialismo. Ao unir a defesa intransigente da soberania nacional com o internacionalismo solidário, o Sul Global avança decisivamente na edificação de uma nova ordem internacional mais justa, equitativa e humana.
Referências Bibliográficas
- AMARAL, Marisa Silva. A Dialética do Desenvolvimento Periférico e a Economia Política Internacional. São Paulo: Expressão Popular, 2021.
- CARVALHO, José Reinaldo. O redesenho da correlação global de forças na luta anti-imperialista. Portal PCdoB / Revista Resistência, 2025.
- CARVALHO, José Reinaldo. A centralidade da luta anti-imperialista no cenário global. Cebrapaz, 2026.
- CHESNAIS, François. A Finança Mundializada: Origens, Mecanismos e Consequências. São Paulo: Boitempo, 2005.
- EICHENGREEN, Barry. Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System. Oxford: Oxford University Press, 2011.
- LOSURDO, Domenico. História Crítica do Liberalismo. Rio de Janeiro: Revan, 2006.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. 3. ed. Brasília: Editora IPEA, 1997.
- NOVO BANCO DE DESENVOLVIMENTO (NBD). General Strategy 2022–2026: Scaling Up Development Finance for a Sustainable Future. Xangai: NDB, 2022.
- STUENKEL, Oliver. Post-Western World: How Emerging Powers Are Remaking Global Order. Cambridge: Polity Press, 2016.
Para acompanhar aprofundadamente como o bloco dos emergentes tem enfrentado a hegemonia ocidental e impulsionado o desenvolvimento do Sul Global, assista ao vídeo BRICS é maior que o G7 – A economia global virou, que explica em detalhes como esse contraponto econômico e institucional se consolidou na prática.
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