A Geopolítica da Representação Cartográfica: Luta de Classes, Descolonização Epistêmica e a Multipolaridade no Sistema Internacional

Por José Evangelista Rios da Silva

Resumo

O presente artigo analisa a dimensão geopolítica e ideológica das projeções cartográficas no sistema internacional contemporâneo à luz do materialismo histórico-dialético, da crítica anti-imperialista e do princípio da autodeterminação dos povos. Toma-se como objeto central o debate em torno da Projeção de Mercator frente às demandas históricas do Sul Global por representações equivalentes — culminando na iniciativa capitaneada pelo Grupo Africano na Assembleia Geral das Nações Unidas (“Correct the Map“). Demonstra-se como a cartografia atuou historicamente como vetor superestrutural de legitimação da expansão colonial-capitalista e de apequenamento simbólico da periferia mundial. Conclui-se que a disputa pela representação espacial insere-se no quadro de transição para uma ordem internacional multipolar, constituindo imperativo político indissociável da soberania das nações e do direito internacional consagrado na Carta da ONU.

Palavras-chave: Geopolítica Internacional; Cartografia Crítica; Imperialismo; Sul Global; Autodeterminação dos Povos; Multipolaridade.

1. Introdução

A representação do espaço geográfico nunca constituiu uma operação técnico-matemática desprovida de intencionalidade social. Longe de ser um espelho neutro do globo terrestre, o mapa é um constructo ideológico, político e estratégico forjado nas relações concretas de produção e de poder. Como observou o geógrafo francês Yves Lacoste em formulação clássica, o saber espacial serviu historicamente, antes de tudo, aos interesses dos aparelhos estatais e das classes dominantes na condução de campanhas de conquista, exploração territorial e controle de populações.

No cenário internacional do século XXI, as contradições do sistema-mundo imperialista manifestam-se de forma aguda. A emergência da multipolaridade, a consolidação de blocos soberanos no Sul Global e o esgotamento da hegemonia inconteste do eixo euro-atlântico reabriram disputas na superestrutura ideológica internacional. A recente mobilização diplomática de mais de uma centena de Estados soberanos na Assembleia Geral das Nações Unidas em torno da resolução comumente denominada “Correct the Map” — com protagonismo de delegações africanas — recoloca a cartografia no centro da alta política global.

O presente trabalho examina as bases materiais e geopolíticas desse confronto. Sob as premissas do materialismo histórico, da crítica anti-imperialista e dos marcos do direito internacional multilateral, investiga-se como a Projeção de Mercator operou como esteio da hegemonia colonial e de que maneira a reivindicação de projeções de área equivalente (como Gall-Peters e Equal Earth) integra o programa histórico de emancipação dos povos e afirmação da soberania estatal.

2. A Gênese Material de Mercator: Expansão Mercantil e Acumulação Primitiva

Para compreender a prevalência secular da projeção elaborada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, é imprescindível desvencilhar a análise dos reducionismos puramente geométricos e situá-la no desenvolvimento histórico das forças produtivas.

O século XVI demarcou o período da acumulação primitiva de capital na Europa Ocidental, impulsionada pelas Grandes Navegações, pela pilhagem colonial e pelo estabelecimento das primeiras rotas do comércio marítimo global. A solução matemática proposta por Mercator — uma projeção cilíndrica conforme — atendia com precisão cirúrgica às necessidades da burguesia mercantil nascente: ao preservar a fidelidade dos ângulos, permitia traçar rotas de rumo constante (linhas loxodrômicas) como linhas retas sobre o plano.

Todavia, essa conformidade implicou um custo proporcional: a distorção progressiva das áreas na medida em que se avança do Equador em direção aos polos. Como consequência:

  • As regiões de altas latitudes do Hemisfério Norte (Europa, América do Norte, Groenlândia) sofreram um agigantamento visual desproporcional;
  • As faixas equatoriais e tropicais do Hemisfério Sul (África, América Latina, Sul e Sudeste Asiático) foram proporcionalmente comprimidas.
Região / TerritórioÁrea Real Aproximada (km^2)Representação Visual em MercatorProporção Real
Continente Africano\approx 30.370.000Visualmente equivalente à GroenlândiaA África é cerca de 14 vezes maior
Groenlândia\approx 2.166.000Dimensão comparável à África inteiraTerritório insular periférico
Europa (sem Rússia)\approx 6.000.000Centro dominante e expandidoCerca de 1/5 da área africana
América do Sul\approx 17.840.000Menor que a América do NortePraticamente o dobro da Europa

O problema analítico fundamental reside no fato de que uma ferramenta estritamente náutica foi transposta, ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, para as instituições de ensino, atlas mundiais, sedes governamentais e, contemporaneamente, para as arquiteturas de algoritmos digitais (Web Mercator). O mapa tornou-se, assim, um fetiche: as relações sociais desiguais e a divisão internacional do trabalho que presidiram sua difusão foram naturalizadas sob a máscara da evidência científica.

3. A Dimensão Ideológica da Superestrutura: Eurocentrismo e Violência Simbólica

A persistência do mapa-múndi eurocêntrico ilustra o mecanismo de reprodução ideológica formulado pelo materialismo histórico. A superestrutura jurídica e política, bem como as formas de consciência social, operam para legitimar as relações de dominação erigidas na infraestrutura econômica.

Ao projetar visualmente uma Europa agigantada no centro superior do planeta e um continente africano apequenado no quadrante subordinado, a cartografia consolidou o que teóricos anticoloniais denominam de colonização do imaginário e epistemicídio geográfico:

  1. Introjeção Psicológica da Periferização: Como assinalou Frantz Fanon em suas obras seminais sobre a alienação colonial, a dominação imperialista opera pela introjeção de um complexo de inferioridade no colonizado. A invisibilização da real magnitude física, demográfica e territorial dos continentes espoliados atua como reforço subliminar dessa assimetria.
  2. Justificação da Partilha Colonial: A representação apequenada da África e da América Latina serviu como subsídio ideológico à Conferência de Berlim (1884-1885), apresentando os territórios colonizados como espaços reduzidos, vazios e disponíveis para a repartição imperialista entre os monopólios europeus.
  3. Reprodução na Era dos Monopólios Digitais: No capitalismo contemporâneo, a adoção da projeção Web Mercator pelas corporações hegemônicas de tecnologia sediadas no Norte Global não é mero acaso computacional. Constitui a continuidade da padronização cultural e cognitiva alinhada aos interesses do centro hegemônico.

A fratura metodológica — a paralaxe classista — evidencia-se: o que para a intelligentsia burguesa do Norte é classificado como mera “convenção técnica arbitrária”, para os povos da periferia do sistema-mundo consubstancia-se em dispositivo de subjugação cultural e desvalorização ontológica.

4. A Soberania Nacional e o Direito Internacional à Luz dos Mecanismos Multilaterais

A contestação da cartografia colonial não é um capricho estético; é uma exigência formulada a partir do Direito Internacional Público e da consolidação do sistema multilateral instaurado no pós-Segunda Guerra Mundial.

A Carta das Nações Unidas consagra expressamente a igualdade soberana de todos os seus membros (Artigo 2º, § 1º) e o fomento de relações amistosas baseadas no respeito ao princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos (Artigo 1º, § 2º). Tais preceitos foram substancialmente aprofundados pela histórica Resolução 1514 (XV) da Assembleia Geral da ONU, de 14 de dezembro de 1960 — a Declaração sobre a Outorga da Independência aos Países e Povos Coloniais —, que proclama:

“A sujeição dos povos a uma subjugação, dominação e exploração estrangeiras constitui uma negação dos direitos fundamentais do homem, é contrária à Carta das Nações Unidas e compromete a causa da paz e da cooperação mundiais.”

A autodeterminação e a soberania dos povos, conforme consagradas tanto no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos quanto no Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966 (Artigo 1º comum), pressupõem o direito de todos os povos a determinar livremente seu estatuto político e prosseguir em seu desenvolvimento econômico, social e cultural.

Nesse diapasão, a imposição sistemática de uma representação espacial que apequena, marginaliza e distorce as nações do Sul Global viola o princípio ético e diplomático da igualdade soberana entre as nações. A dignidade geopolítica de um Estado e de um continente exige a correspondência verossímil de sua existência territorial na cena internacional.

5. Multipolaridade, Sul Global e a Batalha das Ideias na Geopolítica Contemporânea

A emergência de um mundo multipolar é indissociável da resistência anti-imperialista e da busca por uma ordem internacional justa, democrática e equitativa. Conforme formulado com lucidez pelo analista e dirigente comunista José Reinaldo Carvalho em suas reflexões sobre as contradições do sistema internacional:

  • O imperialismo norte-americano e seus aliados da OTAN buscam preservar a ferro e fogo uma ordem unipolar decadente, recorrendo a guerras híbridas, sanções unilaterais, bloqueios econômicos e à imposição hegemônica de suas matrizes culturais;
  • As forças progressistas, os Estados nacionais soberanos e os movimentos de libertação nacional compõem a trincheira de resistência que pugna pela democratização das relações internacionais, pelo multilateralismo genuíno e pelo direito inalienável ao desenvolvimento.

Nesse quadro de correlação de forças, as iniciativas capitaneadas pelo Grupo Africano na ONU — apoiadas pelas nações latino-americanas, asiáticas e pelos membros do bloco ampliado do BRICS — articulam uma verdadeira batalha das ideias. A exigência de substituição paulatina de Mercator por projeções equivalentes (como a Equal Earth, desenvolvida para reconciliar a fidelidade de áreas com uma estética balanceada) insere-se na mesma linhagem histórica dos debates promovidos pela UNESCO nos anos 1970 em torno da Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC / Relatório MacBride). Trata-se de romper os monopólios emissores da cultura, da informação e da ciência eurocêntricas.

A adesão maciça de 164 Estados a resoluções que colocam sob escrutínio a cartografia tradicional expõe o isolamento diplomático das potências imperialistas, incapazes de sustentar perante a comunidade de nações os anacronismos herdados do período colonial.

6. Considerações Finais

A disputa cartográfica que ocupa os organismos multilaterais no tempo presente traduz, no plano simbólico e epistemológico, a crise de hegemonia do bloco imperialista ocidental. O mapa de Mercator foi o correlato visual da expansão do capital mercantil e da opressão colonial; sua hegemonia residual é sustentada por monopólios corporativos que buscam perpetuar a subordinação cognitiva da periferia global.

O resgate da verdadeira dimensão da África, da América Latina e do Sul Global não é um mero preciosismo acadêmico ou técnico, mas parte constitutiva da luta anti-imperialista pelo desmantelamento das estruturas de dominação colonial. A descolonização da cartografia é solidária à causa da autodeterminação dos povos e da soberania nacional, reafirmando que um novo mundo — política, econômica e geograficamente multipolar — não apenas é necessário, mas já se encontra em marcha material histórica inelutável.

Referências Bibliográficas e Documentais

  1. CARVALHO, José Reinaldo. A Geopolítica da Resistência Anti-imperialista e o Advento da Ordem Multipolar. Cadernos de Relações Internacionais, São Paulo: Cebrapaz, 2022.
  2. FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Tradução de Enid Abreu Dobránszky. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
  3. HARVEY, David. O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.
  4. LACOSTE, Yves. A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Tradução de Maria do Carmo Corrêa Galvão. 19. ed. Campinas: Papirus, 2012.
  5. MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro 1: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
  6. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas. São Francisco, 26 de junho de 1945.
  7. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Resolução 1514 (XV) da Assembleia Geral: Declaração sobre a Outorga da Independência aos Países e Povos Coloniais. Nova York, 14 de dezembro de 1960.
  8. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. Nova York: Assembleia Geral da ONU, 16 de dezembro de 1966.
  9. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Nova York: Assembleia Geral da ONU, 16 de dezembro de 1966.
  10. PETERS, Arno. Die neue Kartographie / The New Cartography. Klagenfurt: Carinthia, 1983.
  11. SANTOS, Milton. Por uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
  12. ŠAVRIČ, Bojan; PATTERSON, Tom; JENNY, Bernhard. The Equal Earth map projection. International Journal of Geographical Information Science, v. 33, n. 3, p. 454-465, 2019.
  13. UNESCO. Um Mundo e Muitas Vozes: Comunicação e Informação na Nossa Época (Relatório da Comissão Internacional de Estudo dos Problemas da Comunicação – Relatório MacBride). Rio de Janeiro: FGV, 1983.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional, com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois. Sua trajetória de mais de cinco décadas une a atuação técnica em Finanças e Investimentos, incluindo passagem pelo Conselho Fiscal da Cooperbom e como ex-conselheiro do Sesc/Senac-BA, à sua sólida vivência no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, pauta sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.

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