O FETICHE DO RAIO E O SILÊNCIO DA TERRA: PARALAXE CLASSISTA, ILUSIONISMO BÉLICO E A CAPITULAÇÃO IDEOLÓGICA DA CLASSE TRABALHADORA

Por José Evangelista Rios da Silva

Introdução e Localização Teórico-Metodológica

O debate público contemporâneo em torno de projetos científicos estatais com origens militares — notadamente o High-frequency Active Auroral Research Program (HAARP) — encontra-se polarizado entre duas formulações epistemologicamente deficientes. De um lado, situa-se o positivismo institucionalista liberal, que apreende a produção científica como um esforço abstrato, asséptico e desconectado dos imperativos de expansão e defesa do capital monopolista. Do outro, prolifera a narrativa conspiracionista vulgar, que projeta sobre a infraestrutura técnico-científica um poder demiúrgico quase místico, capaz de mobilizar terremotos, controlar regimes pluviais e manipular a atmosfera a partir do simples acionamento de interruptores remotos.

Sob a ótica do materialismo histórico-dialético, da dialética da natureza e do conceito de paralaxe (Zizek, 2006) — entendido como o deslocamento de perspectiva ontológica que revela que o objeto observado e o sujeito observador estão mediatizados pelo mesmo nó antagônico —, o fenômeno das teorias conspiratórias em torno do HAARP não constitui mero déficit informacional. Ele cumpre uma função ideológica precisa no capitalismo tardio: o fetichismo da técnica como mecanismo de alienação, provocador de pânico social difuso e promotor do acovardamento de massas diante das determinações concretas da barbárie ecológica e da exploração do trabalho.

A Dialética da Natureza versus o Animismo da Técnica

Para desmantelar o mito da “arma geofísica de terremotos”, a crítica deve partir da materialidade dos processos físicos e geológicos do planeta Terra. Na obra seminal Dialética da Natureza, Friedrich Engels (1883) postulou que a matéria em movimento obedece a formas qualitativamente distintas e hierarquizadas de interação, onde cada domínio preserva leis específicas de escala, conservação e transformação de energia.

  1. A Descontinuidade Material das Esferas Terrestres: O HAARP é um aquecedor de alta frequência projetado para incidir sobre a ionosfera (plasma rarefeito e ionizado situado entre 70 e 500 km de altitude). A geração de terremotos, por sua vez, é um processo restrito à litosfera (a crosta rochosa e a porção superior do manto). Não existe acoplamento eletromecânico conhecido pela geofísica capaz de converter ondas eletromagnéticas da faixa de alta frequência (HF: 2,7 a 10 MHz) em esforço de cisalhamento ou deformação elástica sobre falhas tectônicas situadas a dezenas de quilômetros de profundidade.
  2. Ordens de Magnitude Energética: O transmissor do HAARP emite uma potência máxima irradiada da ordem de 3,6 megawatts (3,6 \times 10^6\text{ W}). Por contraste, um abalo sísmico de magnitude intermediária a alta (como os que afetam o arco de subducção da América do Sul) dissipa instantaneamente ordens de 10^{14} a 10^{16}\text{ Joules}. A atribuição de causalidade sísmica ao HAARP viola as leis fundamentais da termodinâmica e da conservação de energia.

A transformação de um transmissor de rádio em um causador de terremotos é, ontologicamente, uma recaída no pensamento mágico: personifica-se a tecnologia imperialista com atributos onipotentes outrora conferidos às divindades dos trovões, esvaziando a dinâmica endógena e natural da Terra de sua materialidade concreta.

A Determinação Real do Complexo Militar-Industrial: O Domínio do Espectro

A rejeição da fantasia conspiratória não autoriza a adesão à inocência liberal. O materialismo histórico exige que se investigue a quem serve a destinação de verbas estatais. O financiamento original do HAARP pela Força Aérea dos EUA (USAF), pela Marinha (US Navy) e pela DARPA jamais visou salvar a humanidade de catástrofes, mas sim consolidar a “Full-Spectrum Dominance” (Domínio de Espectro Total) do imperialismo estadunidense.

O objetivo real e documentado do projeto residia em:

  • Guerra de Comunicações Submarinas e Subterrâneas: Modular correntes naturais da ionosfera (eletrojatos aurorais) para gerar ondas de frequência extremamente baixa (ELF/VLF), capazes de penetrar grandes massas de água e solo, viabilizando a comunicação com submarinos nucleares portadores de mísseis balísticos intercontinentais (SLBMs).
  • Radares Além-do-Horizonte (Over-The-Horizon) e Guerra Eletrônica: Estudar as perturbações ionosféricas que poderiam comprometer sistemas de orientação de mísseis, sinais de geolocalização por satélite (GPS) e sistemas de comando e controle em um eventual cenário de guerra nuclear com pulsos eletromagnéticos (EMP).

A transferência das instalações do HAARP para a Universidade do Alasca Fairbanks em 2014-2015 exemplifica a transição de custos operacionais do aparelho repressivo direto para a esfera civil-universitária, após os imperativos operacionais terem migrado para plataformas orbitais e sistemas digitais mais refinados. Trata-se da lógica clássica da pesquisa subsidiada pelo fundo público em proveito do complexo industrial-militar.

A Paralisia Ideológica: Pânico, Acovardamento e Mascaramento da Destruição Real

A verdadeira perversão da paranoia em torno de “superarmas climáticas” reside no seu impacto psicológico e político sobre o proletariado e as comunidades submetidas ao colonialismo tardio.

                  [ CONTRADIÇÃO HISTÓRICA DO CAPITALISMO TARDIO ]
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     [ REALIDADE MATERIAL OCULTADA ]                 [ FETICHE IDEOLÓGICO DISSEMINADO ]
  • Acumulação predatória do capital               • Narrativa do HAARP como "Arma Tectônica"
  • Agronegócio devastador e mineração             • Teoria da manipulação climática onipotente
  • Precarização das defesas públicas              • Ilusionismo conspiratório nas redes digitais
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  [ Catástrofe Socioambiental Concreta ]           [ Pânico Social, Alienação e Acovardamento ]
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                     [ PARALISIA DA LUTA DE CLASSES ]
          (A capitulação proletária diante de um poder mítico invencível)

O conspiracionismo opera como um dispositivo de despolitização:

  1. Substituição da Causalidade Material por Teologia Política: Ao atribuir inundações, secas severas e desmoronamentos a uma antena remota no Alasca, exonera-se de imediato a cadeia de valor predatória do grande capital: o desmatamento promovido pelo agronegócio exportador, a superexploração da força de trabalho nas obras precárias de contenção, a mineração predatória de encostas e a destruição da legislação ambiental pelos Estados burgueses.
  2. Indução ao Fatalismo e Acovardamento: Se o adversário imperialista é retratado como possuidor de uma tecnologia capaz de mover o chão sob os pés do trabalhador e comandar os céus ao sabor de um botão, a consequência imediata sobre a consciência da classe trabalhadora é o acovardamento existencial. Extingue-se a perspectiva da ação revolucionária coletiva: contra um demiurgo que move continentes, qualquer sindicato, partido classista ou movimento de base parece inútil.
  3. Desvio dos Instrumentos Jurídicos Reais de Resistência: Enquanto as massas são engajadas em disputas delirantes nas redes corporativas, esvazia-se a denúncia concreta das infrações ao direito socioambiental, consolidando a impunidade das corporações multinacionais e do capital extrativo predatório.

Considerações Finais: O Papel da Educação Geográfica e Classista

Cabe aos educadores, geógrafos e formadores classistas aplicar a navalha epistemológica do materialismo histórico às salas de aula e aos espaços de luta popular. Não se trata de defender a pureza do Estado imperialista, mas de desnudar a verdade por meio da paralaxe:

A força mais destrutiva em operação contra a classe trabalhadora e o meio ambiente não é o aquecedor ionosférico do Alasca, mas o modo de produção capitalista em sua fase de senilidade predatória.

Desarmar a conspiração é restituir à classe trabalhadora a materialidade da terra, a gravidade dos desastres climáticos causados pela queima desenfreada de combustíveis fósseis e acumulação do capital, e a certeza de que a dominação de classe é uma construção histórica operada por relações humanas concretas — e que, precisamente por ser histórica e material, pode ser enfrentada, desmantelada e superada pela práxis revolucionária.

Referências Normativas, Institucionais e Bibliográficas

  • ENGELS, Friedrich. Dialética da Natureza. São Paulo: Boitempo, 2014 [1883].
  • HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
  • LENIN, Vladimir I. O Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2007 [1917].
  • MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital: Rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo, 2002.
  • ZIZEK, Slavoj. The Parallax View. Cambridge: MIT Press, 2006.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Convenção sobre a Proibição do Uso Militar ou Qualquer Outro Uso Hostil de Técnicas de Modificação Ambiental (Convenção ENMOD). Resolução 31/72 da Assembleia Geral da ONU, 10 de dezembro de 1976 (Entrada em vigor em 5 de outubro de 1978).
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), 1992.
  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 225 (Do Meio Ambiente) e Art. 1º, incisos II, III e IV (Cidadania, Dignidade da Pessoa Humana e Valores Sociais do Trabalho). Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
  • US AIR FORCE / US NAVY / DARPA. High-frequency Active Auroral Research Program: Environmental Impact Statement. Gakona: Department of Defense, 1993.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista pelo CES-Nacional e pela Fundação Maurício Grabois. Técnico em Finanças e Investimentos com experiência em conselhos fiscais (Cooperbom) e consultivos (ex-conselheiro Sesc/Senac-BA), dedica-se há mais de 50 anos ao setor de supermercados e ao sindicalismo. Atualmente dirigente da FEC Bahia, define seu trabalho como uma “práxis militante” voltada à construção de soluções e pontes para a classe trabalhadora.

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