Por José Rios
Resumo
O presente ensaio analisa, sob as categorias do Materialismo Histórico-Dialético e da Paralaxe Classista, o fenômeno do reconhecimento afetivo e político direcionado a Luiz Inácio Lula da Silva por setores populares internacionais — em particular o registro da homenagem prestada por uma garotinha em Moçambique. Examina-se o contraste irreconciliável entre as condecorações burocráticas do protocolo burguês e a legitimidade orgânica forjada na cooperação Sul-Sul, evidenciando como a pedagogia da solidariedade internacionalista rompe as barreiras coloniais e projeta uma subjetividade contra-hegemônica fundada na dignidade dos povos explorados.
Palavras-chave: Paralaxe Classista; Solidariedade Internacionalista; Cooperação Sul-Sul; Subjetividade Popular; Moçambique.
1. A Fenda da Paralaxe: Protocolo Palaciano versus Afeto da Classe
Na superestrutura das relações diplomáticas burguesas, o reconhecimento político é rigorosamente codificado: banquetes de Estado, medalhas nobiliárquicas, colares do mérito diplomático e cumprimentos rígidos entre chefes de Estado. Trata-se do universo da representação formal, onde a frieza das convenções visa encobrir os acordos de dominação, a espoliação neocolonial e a subordinação geopolítica.
A paralaxe materialista manifesta-se quando o observador desloca seu prisma do salão dourado para o chão concreto dos povos:
┌────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐ │ A PARALAXE DO RECONHECIMENTO POLÍTICO │ ├───────────────────────────────────┬────────────────────────────────────┤ │ O PROTOCOLO BURGUÊS / FORMAL │ A LEGITIMIDADE DE CLASSE │ ├───────────────────────────────────┼────────────────────────────────────┤ │ • Condecorações honoríficas de │ • Reconhecimento espontâneo das │ │ Estado e títulos cerimoniais │ maiorias marginalizadas │ │ • Relações exteriores baseadas na │ • Cooperação estruturante, técnica │ │ assimetria credor-devedor │ e transferência de saberes │ │ • Liturgia de isolamento perante │ • Quebra do distanciamento através │ │ as massas populares │ do afeto, da fala e da escuta │ └───────────────────────────────────┴────────────────────────────────────┘
A homenagem prestada por uma criança em Moçambique desautoriza a frieza protocolar. Ela não expressa a vassalagem imposta pelo colonialismo, mas a comunhão de destino entre os condenados da terra.
Lula personifica uma singularidade rara na diplomacia global: domina o rito de Estado com a altivez de um estadista do Sul Global, mas quebra o protocolo no instante em que o corpo a corpo exige o toque, o abraço e a lágrima. Para a diplomacia aristocrática, isso seria visto como “inconveniência”; para o materialismo dialético, é a afirmação viva de que a soberania nasce das massas trabalhadoras, e não da liturgia dos palácios.
2. A Materialidade Histórica: A Pegada Brasileira em Moçambique e em África
A gratidão e o entusiasmo manifestados pela infância africana não caem do céu nem são frutos de propaganda publicitária abstrata. Sob o materialismo histórico, o afeto coletivo tem base material concreta.
Durante os governos do Partido dos Trabalhadores, as relações entre o Brasil e o continente africano abandonaram a retórica eurocêntrica da tutela caritativa para se assentarem na cooperação estruturante:
- Educação e Formação Soberana: A criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), a concessão de bolsas de intercâmbio técnico e universitário e a capacitação agronômica via Embrapa África criaram laços humanos diretos entre as juventudes de Moçambique, Angola e Guiné-Bissau e o Brasil.
- Saúde Pública e Soberania Farmacêutica: O apoio pioneiro do Brasil à implantação da fábrica de medicamentos antirretrovirais e genéricos em Matola, Moçambique — permitindo ao país fabricar remédios para combater o HIV/AIDS sem ficar refém das patentes escorchantes da indústria farmacêutica transnacional —, salvou vidas de centenas de milhares de mães, pais e crianças.
- Resgate da Dívida Histórica: A política externa altiva e ativa rompeu o isolamento imposto pelas metrópoles ocidentais e reconheceu a dívida ancestral civilizatória que o Brasil possui com o continente africano, construindo um horizonte compartilhado de desenvolvimento fora da órbita do FMI e do Banco Mundial.
Quando uma criança moçambicana recita um poema, segura uma carta ou derrama lágrimas ao homenagear Lula, ela não celebra um monarca distante; ela reverencia a possibilidade de um mundo onde o Sul não precisa pedir licença para existir, comer, estudar e se curar.
3. O Resgate das “Cartas do Cárcere”: A Criança como Sujeito Político
O episódio moçambicano dialoga dialeticamente com os 580 dias de encarceramento político em Curitiba (2018–2019). Durante o ápice do lawfare lavajatista, enquanto o monopólio da grande mídia operava a desumanização sistemática do líder popular, foram as cartas manuscritas — redigidas por crianças do semiárido nordestino, por estudantes de escolas públicas, por camponeses e por trabalhadores precarizados — que sustentaram o elo histórico entre o dirigente e o seu povo.
A criança, longe de ser um ser ingênuo e despolitizado, apreende com extrema acuidade o sentido material da justiça:
- Ela percebe quando o pai e a mãe voltam para casa com a cesta cheia;
- Ela reconhece a escola que se abre, a luz elétrica que chega à aldeia ou a vacina que afasta a moléstia;
- Ela identifica o líder que tem a cor de sua gente e as marcas do trabalho, em oposição aos tecnocratas que governam para as planilhas do rentismo financeiro.
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│ O CIRCUITO DA SOLIDARIEDADE DE CLASSE │
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│ A Experiência Vivida │ │ A Memória Coletiva │
│ Fome superada, livros │ │ Solidariedade contra │
│ na escola, remédio na │ │ o apartheid e a │
│ mesa da família │ │ pilhagem colonial │
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│ A Expressão Estética e Afetiva da Emancipação │
│ (A carta, o poema infantil e a lágrima que liberta) │
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A homenagem da menina moçambicana conecta-se a essa mesma linhagem de memória operária e comunitária. Ela simboliza a superação do trauma colonial: um povo africano que olha nos olhos de uma nação sul-americana e enxerga um irmão de trincheira, não um colonizador.
4. Estar do Lado Certo da História: O Antagonismo Ético
A comoção despertada por essa manifestação revela o abismo ético que separa os dois projetos em disputa no tabuleiro contemporâneo:
- De um lado, os Agentes do Caos e do Ódio: A extrema-direita e as oligarquias dependentes que oferecem o desprezo à África, o racismo estrutural descarado, o armamentismo nas favelas, a submissão humilhante a Washington e a indiferença perante a dor dos vulneráveis. Para esses setores, o afeto popular é visto com desdém ou falsificado por fazendas mecânicas de manipulação algorítmica.
- De outro, a Linhagem Histórica da Emancipação: A convicção de que governar é, em última instância, colocar o pobre no orçamento e no centro do respeito público. O cumprimento do protocolo diplomático torna-se apenas a casca formal; o núcleo substancial é a quebra do distanciamento para erguer nos braços os esquecidos da terra.
5. Considerações Finais: O Afeto Popular como Trincheira Inexpugnável
As tentativas desesperadas de desestabilização institucional, os vazamentos seletivos do consórcio golpista e o terrorismo dos mercados financeiros esbarram em uma barreira que a teoria liberal jamais conseguirá calcular: a densidade moral do vínculo de classe.
Títulos honoríficos e diplomas de cortes burguesas podem ser cassados, comprados ou esquecidos com as mudanças de regime. O afeto gravado no coração de uma criança em Moçambique, ecoando as preces e as lutas do povo humilde do Brasil, é indestrutível. Ele expressa o juízo soberano da História — aquele tribunal onde os traidores da pátria e os capatazes do império desvanecem no opróbrio, enquanto os construtores da solidariedade entre os povos permanecem vivos, de pé e invencíveis.
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