Por José Evangelista Rios da Silva *
Resumo: O presente estudo analisa, sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético, da paralaxe classista e da metodologia do Planejamento Estratégico Situacional (PES/MAPP), o cenário geopolítico e institucional da República Bolivariana da Venezuela no início de setembro de 2026. A partir da moção de imunidade soberana interposta pela defesa de Nicolás Maduro no Tribunal do Distrito Sul de Nova York e do anúncio do acordo petrolífero de 25 anos com os Estados Unidos assinado por Delcy Rodríguez, examina-se a transição da soberania estatal para um regime de gerenciamento tutelado da renda extrativa. Avalia-se, paralelamente, a paralisia do sistema multilateral e os vetores de resistência popular perante a expansão da Doutrina Donroe.
1. O Aparelho Judiciário Transnacional e o Impasse da Imunidade Soberana
A moção apresentada pelo advogado Barry Pollack no início de setembro de 2026, solicitando o arquivamento das acusações penais contra Nicolás Maduro e Cilia Flores no Tribunal Federal de Manhattan, expõe o conflito central do Direito Internacional contemporâneo. Ao invocar a imunidade absoluta de chefe de Estado e de atos oficiais (conduct-based immunity), a defesa coloca à prova a legalidade da intervenção bélica de 3 de janeiro e a extensão da jurisdição extraterritorial dos Estados Unidos.
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│ ORDEM JURÍDICA MULTILATERAL (Carta da ONU) │
│ Imunidade de Chefe de Estado ┼ Inviolabilidade Territorial│
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▼ [Ação Cinética Unilateral / Jan 2026]
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│ SISTEMA DE EXCEÇÃO E LAWFARE EXTRATERRITORIAL │
│ Confinamento no Brooklyn ┼ Julgamento no Distrito Sul │
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│ REGIME DE TUTELA ECONÔMICA E ADMINISTRATIVA │
│ Transferência de Custódia Fiscal / Concessões de 25 Anos│
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Sob a ótica do materialismo histórico, a negação da imunidade jurisdicional funciona como a superestrutura ideológica necessária para respaldar o extermínio de garantias soberanas do Sul Global. O enquadramento penal de atos de governo sob acusações de “narcoterrorismo” serve como prólogo legislativo e judiciário para a desarticulação do comando político soberano, permitindo que a potência ocupante reconfigure o ecossistema produtivo do país sem o encargo de uma ocupação territorial direta prolongada.
2. A Economia Política do Acordo Petrolífero: Acomodação ou “Rentismo Tutelado”?
A conferência de imprensa da presidenta interina Delcy Rodríguez e o anúncio da concessão de 17 campos estratégicos de petróleo (envolvendo mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas) por um período de 25 anos marcam a formalização do novo arranjo produtivo.
A projeção estatal de uma receita de 209 bilhões de dólares (calculada sobre o valor aproximado de US$ 19 por barril retidos pelo Estado sob alíquotas de 16% de royalties e 34% de imposto sobre o lucro) é apresentada pela administração de transição como um triunfo de sobrevivência pragmática e recuperação industrial. Contudo, a análise em paralaxe revela contradições estruturais profundas:
Tabela 1: Matriz Comparativa do Modelo Extrativo e de Autonomia Estatal
| Dimensão Estratégica | Modelo do Estado Rentista Soberano | Estrutura de Custódia e Acordo Tutelado (2026) |
|---|---|---|
| Controle de Reservas | Monopólio estatal via PDVSA e parcerias majoritárias. | Concessão efetiva e controle operacional por consórcios (NABEP, Chevron, etc.). |
| Custódia das Divisas | Depósitos diretos no Banco Central e fundos soberanos. | Retenção e gestão de aportes sob supervisão do Tesouro dos EUA. |
| Retenção da Renda | Royalties elevados (30%) voltados ao gasto social. | Captura reduzida (16% de royalties) com repasse prioritário ao capital de giro. |
| Marco Legal e Duração | Lei Orgânica de Hidrocarbonetos e Constituição de 1999. | Contratos de até 25 anos (com divergências de até 100 anos em Washington). |
Conforme diagnosticado pela Teoria Marxista da Dependência (Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra), a captura da renda petrolífera por entes financeiros transnacionais constitui um mecanismo refinado de drenagem do excedente produtivo. A retórica do “aproveitamento do capital estrangeiro” mascara o fato de que a soberania econômica foi fraturada: o Estado venezuelano assume o papel de mero arrecadador e administrador de um passivo social crônico, enquanto a gestão operacional e a destinação do insumo primário atendem às necessidades de recomposição das reservas estratégicas da potência interveniente.
3. Análise Situacional (PES/MAPP) e os Limites do “Recuo Tático”
A aplicação do Planejamento Estratégico Situacional (PES), desenvolvido por Carlos Matus, exige enxergar a conduta dos atores no jogo político a partir do seu vetor de capacidades reais.
O governo interino conduzido por Delcy Rodríguez atua em um cenário de escolhas severamente restringidas pela coerção militar de 3 de janeiro e pelo isolamento financeiro. A assinatura dos acordos com os EUA e o endosso acelerado da Assembleia Nacional representam a busca por uma “estabilização mínima” que preserve a burocracia estatal e evite a destruição física completa dos aparatos governamentais.
[ VETOR DE COERÇÃO IMPERIAL ]
Agressão Cinética e Prisão da Liderança
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[ CAPITULAÇÃO ESTRUTURAL ] [ RESISTÊNCIA DE BASE ]
Acordo Petrolífero de 25 Anos / Mobilizações por Salário Justo /
Repasse Fiscal e Royalties (16%) Denúncia da Ação Unilateral no Brooklyn
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[ SITUAÇÃO COLONIAL CONCRETIZADA ]
Contudo, a dialética da história demonstra que o “recuo tático” sem retaguarda popular e sem independência produtiva converte-se em subordinação estratégica. Ao aceitar as exigências de desregulamentação e arrocho salarial impostas para a “atração de investimentos”, a cúpula governante aliena sua própria base social. Como reflexo dessa contradição, a insatisfação nas fileiras do chavismo de base e nos setores populares cresce diante do contraste entre a retórica da lealdade a Maduro e a execução de uma agenda de abertura econômica ditada por Washington.
4. O Silêncio Multilateral e o Perigoso Precedente Regional
A paralisia das instâncias multilaterais reconhecidas pela ONU e a incapacidade dos organismos de integração regional (como CELAC e UNASUL) em conter a aplicação extraterritorial do poder judiciário estadunidense evidenciam a falência do sistema de segurança coletiva.
A violação formal do Artigo 2º, Parágrafo 4º da Carta da ONU (que veda a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial dos Estados) passa a ser naturalizada como ferramenta legítima de gestão geopolítica. O precedentemente aberto em Caracas reverbera por todo o continente:
- Vulnerabilidade de Doutrinas Nacionais: Estados periféricos que não possuem capacidade de dissuasão tecnológica ou defesas territoriais integradas (inspiradas na guerra popular prolongada teorizada por Võ Nguyên Giáp e Ho Chi Minh) tornam-se reféns de incursões cirúrgicas e chantagens financeiras.
- Ajuste e Precarização: O custo social da “normalização” recai invariavelmente sobre a força de trabalho, traduzindo-se em aposentadorias aviltadas e perda de conquistas históricas da classe trabalhadora.
5. Conclusão: A Soberania como Construção de Classe
A conjuntura da República Bolivariana da Venezuela em setembro de 2026 expõe os limites intransponíveis do modelo de desenvolvimento pautado exclusivamente no rentismo extrativo sob a tutela do mercado mundial. O encarceramento de Nicolás Maduro e Cília Flores no Brooklyn e a assinatura dos acordos petrolíferos de longo prazo não representam um “ponto de virada rumo à prosperidade”, mas sim a reconfiguração da dependência neocolonial.
A reconstrução da dignidade e da soberania nacional venezuelana não virá das concessões outorgadas pelas potências ocupantes nem das acomodações burocráticas de cúpula. Conforme a matriz do materialismo dialético, a verdadeira força de libertação reside na organização autônoma da classe trabalhadora e das forças populares, que, ao recusarem a condição de colônia extrativa, resgatam o projeto histórico de independência e autodeterminação da Pátria Grande.
Referências Bibliográficas
- ASSEMBLEIA GERAL DA ONU. Resolução 1803 (XVII): Soberania Permanente sobre os Recursos Naturais. Nova York, 1962.
- BAMBIRRA, Vânia. El capitalismo dependiente latinoamericano. México: Siglo XXI, 1974.
- CORONIL, Fernando. El Estado Mágico: Naturaleza, dinero y modernidad en Venezuela. Caracas: Nueva Sociedad, 1997.
- GIÁP, Võ Nguyên. Guerra del pueblo, ejército del pueblo. La Habana: Instituto del Libro, 1968.
- MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis: Vozes, 2000.
- MATUS, Carlos. Teoria do Planejamento Estratégico Situacional (PES). Brasília: IPEA, 1993.
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Carta das Nações Unidas. Adotada em São Francisco, 1945.
- TRIBUNAL DO DISTRITO SUL DE NOVA YORK. Moção de Arquivamento por Imunidade Soberana de Chefe de Estado (Caso Nicolás Maduro e Cilia Flores). Apresentada pelo advogado Barry Pollack, setembro de 2026.
*Geógrafo, Pedagogo e Especialista em Planejamento e Economia Política. Técnico em Finanças. +50 anos de atuação sindical e no setor de supermercados. Dirigente da FEC Bahia.
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