A ILUSÃO DAAUTONOMIA E A DIALÉTICA DO RISO NA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO

Por José Evangelista Rios da Silva

A ideologia neoliberal do “empreendedorismo de si” reconfigura a subjetividade da classe trabalhadora ao converter a perda de direitos e a precarização em narrativas de superação e autonomia individual. Sob a aparência de liberdade, o discurso meritocrático mascara a transferência direta dos custos e riscos da reprodução social do Capital para o próprio trabalhador, esvaziando a dimensão coletiva e conflitiva das relações de trabalho.

1. A Ideologia do “Empreendedor de Si” e a Teoria da Reprodução Social

O apelo para que o indivíduo “saia da zona de conforto” e “trabalhe enquanto os outros dormem” constitui o núcleo ideológico da fase flexível do capitalismo. Como demonstram as teóricas da Teoria da Reprodução Social (TRS), a acumulação capitalista exige que a reprodução da força de trabalho ocorra ao menor custo possível para o capitalista.

Ao transformar direitos conquistados — como descanso semanal remunerado, jornada delimitada e seguridade social — em sinônimos de “estagnação” ou “comodismo”, o capital promove um duplo movimento:

  • Invisibilização do Trabalho de Cuidado e Reprodução: Transfere-se para a esfera privada, sem qualquer subsídio ou garantia estatal, o encargo de recompor a força de trabalho desgastada.
  • Captura da Subjetividade: O indivíduo passa a enxergar a própria superexploração não como imposição da estrutura de classe, mas como escolha pessoal e mérito individual.

A conversão do trabalhador em “empresa de um homem só” anula a distinção entre tempo de trabalho e tempo de vida, transformando todo o tempo existencial em tempo potencial de valorização do capital.

2. A Lente da Paralaxe Classista e a Crítica Patriarcal

A paralaxe classista exige enxergar o mesmo fenômeno a partir de duas posições inconciliáveis: a perspectiva do capital e a perspectiva do trabalho.

A naturalização do machismo e do patriarcado no cotidiano operaria como engrenagem dessa mesma estrutura. O discurso patriarcal tradicional — frequente em representações culturais e cômicas da vida doméstica e conjugal — atribui à mulher a responsabilidade primária pelo trabalho reprodutivo não pago, enquanto exige do homem a postura de provedor individual resiliente. Quando o humor popular encena e ridiculariza essas assimetrias, ele expõe a fricção entre as expectativas morais do patriarcado e a impossibilidade material de sua realização sob a precarização neoliberal.

       [Estrutura Capitalista de Acumulação]
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[Dimensão Econômica]                 [Dimensão Ideológico-Cultural]
• Precarização e informalidade       • Meritocracia e "empreendedorismo"
• Desmonte da seguridade social      • Moralismo patriarcal e ridicularização
• Transferência do risco ao trabalhador  da solidariedade de classe

3. A Onde Reside o Humor Central? A Dialética do Riso e o Mecanismo de Defesa

O humor central presente na sátira aos costumes e às ilusões da ideologia do “trabalhador autônomo” não decorre de mera covardia individual, mas de uma profunda contradição dialética entre a consciência e a realidade material. O riso emerge no hiato entre a promessa ideológica e a vivência concreta:

  • A Ilusão do Lucro Fictício: O trabalhador flexibilizado frequentemente adota o discurso individualista porque acredita estar levando vantagem ou “lucrando” com a ausência de subordinação direta a um chefe imediato. A comédia ganha força justamente ao desmascarar que essa “autonomia” resulta em jornadas mais longas, menores salários reais e ausência total de proteção contra acidentes ou enfermidades.
  • O Mecanismo de Defesa Subjetivo: O apego às saídas individuais e à negação da condição de explorado atua como um mecanismo de defesa psicológico. Reconhecer a própria vulnerabilidade em um mercado desregulamentado gera angústia; por isso, a adesão à retórica da superação pessoal serve como blindagem afetiva contra a percepção da própria impotência isolada.
  • A Desnaturalização pela Ironia: O humor ganha eficácia crítica ao expor que nada no capitalismo é imutável. Ao ridicularizar a submissão voluntária ao esgotamento físico, a comédia desnaturaliza o dogma do “trabalhe enquanto eles dormem”, revelando que a dita “zona de conforto” nada mais é do que a fronteira mínima de dignidade e sobrevivência física conquistada historicamente pela classe trabalhadora.

A negação da via coletiva não é simplesmente “covardia”, mas o resultado de um processo sistemático de desorganização política e estigmatização da ação sindical promovido pelas instâncias ideológicas do capital.

4. A Reorganização Sindical e a Práxis Coletiva

Frente ao isolamento atomizado imposto pelo neoliberalismo, a reconstrução da consciência de classe exige recalibrar a atuação sindical. O sindicato deixa de ser apenas uma entidade de negociação corporativa para se tornar o polo de aglutinação de uma classe trabalhadora fragmentada.

A superação da armadilha do “cada um por si” depende de demonstrar, na prática, que a verdadeira autonomia não nasce da solidão mercantil, mas da organização coletiva capaz de impor limites à exploração do capital e reconfigurar a totalidade social.

Referências Bibliográficas

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  • ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019.
  • FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação originária. São Paulo: Elefante, 2017.
  • HARVEY, David. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola, 1992.
  • LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • PLEKHANOV, Georgy. O papel do indivíduo na história. São Paulo: Expressão Popular, 2000.
  • VOGEL, Lise. Marxism and the Oppression of Women: Toward a Unitary Theory. Haymarket Books, 2013.

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