Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa a dialética entre a indústria cultural de massa e a ideologia do individualismo sob a lente do materialismo histórico-dialético e do conceito de paralaxe. Utilizando como ponto de partida a desconstrução cômica do mito da “corrida dos espermatozoides” presente no humor contemporâneo, o trabalho investiga como premissas pseudo-biológicas sustentam o fetiche da meritocracia no capitalismo tardio. Discutem-se a captura da subjetividade trabalhadora pela gramática neoliberal do empreendedorismo de si, a função ideológica do discurso da “zona de conforto” e os desafios impostos ao movimento sindical diante do isolamento da classe trabalhadora sob o regime de acumulação flexível.
Palavras-chave: Materialismo Histórico-Dialético. Paralaxe Classista. Indústria Cultural. Meritocracia. Sindicalismo.
1. Introdução: A Paralaxe Classista e a Ilusão do Sujeito Autossuficiente
O conceito de paralaxe — a aparente alteração de um objeto quando observado a partir de duas posições distintas — revela que as contradições da sociedade capitalista não dependem apenas da percepção do leitor, mas estão inscritas na própria estrutura do objeto. No campo da sociologia da cultura e da economia política, a paralaxe classista permite enxergar a produção ideológica em sua dupla dimensão: por um lado, como mercadoria integrada aos circuitos globais de valorização do capital; por outro, como terreno de reprodução ou fissura do consenso hegemônico.
A sociedade sociometetizada pelo capital neoliberal fomenta uma ontologia do “sujeito vencedor”. A narrativa do esforço individual, sintetizada no mito do self-made man, encontra sustentação em metáforas populares que projetam a concorrência mercantil para o campo da própria biologia. O indivíduo é induzido a conceber sua própria existência como o primeiro de uma série de triunfos competitivos, naturalizando a lógica de mercado antes mesmo do nascimento.
2. A Desmistificação da Corrida Biológica e o Mito Meritocrático
A metáfora do espermatozoide “mais rápido e mais forte” que vence uma maratona cega contra centenas de milhões reproduz a ideologia do darwinismo social. Nessa perspectiva, o indivíduo “mereceu” nascer por força e esforço próprios. No entanto, a biologia reprodutiva moderna desfaz esse determinismo: a fertilização é um processo de atração química e seleção mediada pelo trato reprodutivo e pela membrana do óvulo (quimiotaxia e compatibilidade genética).
[ NARRATIVA LIBERAL ] [ REALIDADE DIALÉTICA ]
Competição desenfreada Seleção e mediação do meio
(Força Bruta) (Compatibilidade/Estrutura)
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Ideologia do "Self-Made Man" Ação condicionada pela estrutura
Essa desconstrução expõe a fragilidade da premissa liberal. Ao desvelar que o resultado não decorre da competição individual, mas do condicionamento do meio e da receptividade da estrutura, abre-se uma brecha crítica: o sucesso ou o fracasso do indivíduo no modo de produção capitalista não reflete qualidades morais inatas, mas a posição ocupada na estrutura de classes e o acesso aos meios de produção.
3. A Indústria Cultural e a Captura da “Zona de Conforto”
A indústria cultural (Adorno & Horkheimer, 1985) reconfigura as angústias do proletariado em mercadorias consumíveis. O imperativo contemporâneo de “sair da zona de conforto” atua como dispositivo ideológico de subjetivação do trabalhador, exigindo-lhe disponibilidade incondicional, flexibilidade e autoexploração.
| Dimensão | Discurso Neoliberal / Hegemônico | Análise do Materialismo Histórico |
|---|---|---|
| Zona de Conforto | Estado de estagnação moral e preguiça individual. | Conquista histórica de direitos, descanso e limites à jornada. |
| Superação | Dever individual de automanagement e resiliência. | Transferência dos custos da crise econômica para o trabalhador. |
| Humor de Massa | Mero entretenimento despolitizado e evasão. | Campo de disputas simbólicas e reprodução de ideologias. |
A cobrança constante por alta performance busca desmantelar a busca por estabilidade e proteção social, apresentando a precarização do trabalho como “desafio” e a perda de direitos como “autonomia”.
4. Impactos Político-Econômicos e o Desafio Sindical
Para a economia política do trabalho e a práxis sindical, o avanço da ideologia meritocrática coloca graves obstáculos organizacionais. A fragmentação do proletariado sob o regime da uberização e da gestão por metas individualizadas fragiliza a solidariedade de classe.
- Fragmentação da Consciência de Classe: Quando o trabalhador se percebe como uma “empresa de si mesmo”, a exploração patronal é mascarada como incompetência individual, minando a organização coletiva.
- Desmobilização da Categoria: A retórica contra a “zona de conforto” ataca diretamente as conquistas históricas da classe trabalhadora — como carteira assinada, férias remuneradas e jornada regulada —, carimbando instâncias de proteção social como “comodismo”.
- Reestruturação da Ação Sindical: O sindicalismo classista enfrenta o desafio de combater a atomização dos trabalhadores, articulando a luta por condições materiais de vida à batalha das ideias contra o senso comum neoliberal.
5. Considerações Finais
A análise em paralaxe da produção cultural e de seus discursos subjacentes demonstra que o capitalismo tardio necessita naturalizar a competição em todos os níveis da vida humana para se sustentar. A crítica ao mito do indivíduo autossuficiente — seja na reinterpretação dos processos biológicos, seja na denúncia do fetiche do empreendedorismo — é tarefa central para o resgate da consciência de classe. Cabe ao movimento sindical e às forças progressistas desmascarar a ideologia da “zona de conforto”, reconectando a busca por bem-estar individual à luta coletiva pela transformação das relações sociais de produção.
Referências Bibliográficas
- ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
- ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era da digitalização. São Paulo: Boitempo, 2018.
- DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
- HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992.
- LUKÁCS, György. História e Consciência de Classe: estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
- ŽIŽEK, Slavoj. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional, com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois. Sua trajetória de mais de cinco décadas une a atuação técnica em Finanças e Investimentos, incluindo passagem pelo Conselho Fiscal da Cooperbom e como ex-conselheiro do Sesc/Senac-BA, à sua sólida vivência no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, pauta sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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