A PEDAGOGIA DO SILENCIAMENTO E A PARALAXE DA ESCUTA

Por José Evangelista Rios da Silva

RESUMO

O presente artigo analisa, sob o método do materialismo histórico-dialético e a heurística da visão em paralaxe, a proposição de Rubem Alves acerca da superação dos “cursos de oratória” pelos “cursos de escutatória”, contextualizada em sua interlocução com Antônio Abujamra no programa Provocações (2011). Investiga-se como a tradição hegemônica de formação política e sindical — frequentemente capturada por desvios vanguardistas e burocráticos — reproduz a divisão social e técnica do trabalho ao privilegiar o monopólio da palavra em detrimento da investigação militante das dores materiais da classe trabalhadora. Mediante as categorias de espaço concebido e espaço vivido (Lefebvre), intelectual orgânico (Gramsci) e invasão cultural versus diálogo libertador (Freire), o artigo sustenta que a “escutatória” não constitui mero apelo afetivo-liberal à empatia, mas uma ferramenta epistemológica, geográfica e classista urgente para a reestruturação da práxis dos movimentos sociais contemporâneos.

Palavras-chave: Escutatória; Materialismo Histórico; Formação Política; Paralaxe Classista; Geografia Crítica; Teoria dos Movimentos Sociais.

1. INTRODUÇÃO: A FRATURA ENTRE A PALAVRA E O CHÃO HISTÓRICO

Na célebre reflexão formulada pelo educador e teólogo Rubem Alves — resgatada em sua entrevista ao programa Provocações em 2011 —, reside uma das provocações pedagógicas mais incisivas e contemporâneas: a denúncia da compulsão pela retórica (oratória) e a consequente negligência da capacidade de acolhimento do real (escutatória). Se, no plano do senso comum pedagógico e do humanismo burguês, tal exortação é amiúde reduzida a um apelo ético, psicológico ou sentimental de conciliação interpessoal, sob o prisma do materialismo histórico-dialético e da análise em paralaxe ela desvela um antagonismo irreconciliável de classe.

A visão em paralaxe — conceituada filosoficamente por Slavoj Žižek a partir de Kojin Karatani — define o deslocamento aparente de um objeto causado pela mudança de posição do observador, revelando que a antinomia reside na própria estrutura do objeto e não apenas no sujeito. Ao aplicarmos a lente da paralaxe classista à questão da comunicação pedagógica, depara-se com uma fissura estrutural:

  • De um lado (o prisma idealista-liberal): a oratória é celebrada como a virtude cívica dos “líderes esclarecidos”, a habilidade de persuadir e enquadrar a massa nos cânones formais da política institucional.
  • Do outro lado (o prisma materialista-classista): a primazia da oratória desmascara-se como a reprodução da divisão social do trabalho dentro dos próprios instrumentos de luta da classe trabalhadora (partidos, sindicatos e movimentos populares), onde dirigentes monopolizam o trabalho intelectual/diretivo e a base é relegada à condição de audiência passiva e disciplinada.

Nesse cenário, a “escutatória” proposta por Alves ganha contornos revolucionários. Deixa de ser pedagogia do afeto abstrato para constituir-se em método rigoroso de pesquisa militante, ancoragem socioespacial e desmantelamento do pedagogismo burocrático.

2. A DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO NA FORMAÇÃO POLÍTICA: A CRÍTICA AO VANGUARDISMO ORATÓRIO

A pedagogia tradicional, cuja anatomia institucional Rubem Alves designa ironicamente como metáfora do aprisionamento (“grade curricular”), assenta-se na relação bancária do saber, dissecada criticamente por Paulo Freire. O educador bancário deposita conteúdos pré-fabricados na consciência supostamente oca do educando.

Quando transportada para o campo da militância e da formação de quadros, essa deformação assume a forma do vanguardismo retórico:

  1. O fetiche do orador: Acredita-se dogmaticamente que a consciência de classe é um produto exportável de fora para dentro da classe operária, transmitida exclusivamente pelo verbo inflamado do tribuno.
  2. A exterioridade do discurso: Os programas formativos convertem-se em cartilhas doutrinárias desprovidas de ressonância nas condições materiais de sobrevivência da periferia e do campo.
  3. O corte autoritário: Substitui-se o diálogo e a escuta mútua pelo monólogo impositivo, incorrendo naquilo que Freire caracterizou como invasão cultural, na qual a vanguarda atua como colonizadora da subjetividade das massas.

Marx e Engels, desde as teses de A Ideologia Alemã, advertiram que a consciência não determina a vida, mas a vida material determina a consciência. Uma liderança forjada unicamente na retórica oratória tende a afastar-se da base real, produzindo resoluções burocráticas estéreis. A escuta classista não é, portanto, concessão diletante ou espontaneísmo ingênuo; é o ato epistemológico de apreender as contradições vivas do chão de fábrica, da favela e do território antes de pretender formular qualquer linha de ação coletiva.

3. A DIMENSÃO ESPACIAL E GEOGRÁFICA DA ESCUTA: TERRITÓRIO, CORPO E COTIDIANO

Como pedagogo e geógrafo, o analista não pode desvincular a fala humana da sua determinação territorial. O espaço geográfico não é um mero receptáculo geométrico, mas uma relação social materializada, saturada de assimetrias de poder e contradições de classe.

Na esteira de Henri Lefebvre e Milton Santos, impõe-se a dialética entre:

  • O Espaço Concebido (das classes dominantes): O traçado da cidade capitalista, desenhado para a circulação veloz do capital e a segregação socioespacial da força de trabalho;
  • O Espaço Vivido (do proletariado): A experiência cotidiana da precariedade habitacional, a violência de Estado, o tempo espoliado no transporte público de massa e a carência de saneamento básico.

A analogia curricular formulada por Rubem Alves na entrevista — que parte da casa, do banheiro, do saneamento e das fezes para compreender a totalidade socioambiental do planeta — traduz com maestria pedagógica o imperativo de partir do espaço banal, da materialidade concreta e corpórea dos sujeitos.

A escutatória constitui a ferramenta central para a apreensão do espaço vivido. Escutar a periferia significa decodificar as rugosidades espaciais, as estratégias informais de sobrevivência, o luto pelas vidas ceifadas prematuramente e o cansaço do corpo expropriado. Sem ancoragem territorial nas fraturas geográficas onde o capital violenta a classe trabalhadora, qualquer curso de oratória militante é apenas abstração metafísica.

4. O PRAZER, A POESIA E A SUBVERSÃO CONTRA O SACRIFÍCIO MILITANTE

Outro nó górdio desatado na reflexão de Rubem Alves reside na desconstrução do sofrimento sacralizado. O autor denuncia a tradição teológica e ideológica ocidental que elegeu a culpa, a autoflagelação e a renúncia ascética como métricas de virtude moral.

Historicamente, certas linhagens da militância esquerdista incorporaram esse mesmo rigorismo sacrificial: o militante é concebido como um monge secular que deve recalcar o desejo, o afeto, o riso e a celebração em nome de um dever abstrato e distante.

Alves, respaldando-se na psicanálise e em interlocutores como Roland Barthes e Bertolt Brecht, propõe uma subversão: o prazer e a busca pela beleza são constitutivos da luta pela vida.

A alienação capitalista extrai do proletário a capacidade de usufruir da existência. Se a formação política repete a disciplina cinzenta e a pedagogia do sacrifício contínuo, ela atua em consonância com a lógica mortífera do próprio capital. A ostra precisa da irritação do grão de areia para produzir a pérola, mas a pérola é a beleza emancipada da dor, e não a glorificação eterna do sofrimento. Lideranças de base não se mobilizam duradouramente pelo remorso, mas pelo desejo incontido de experimentar o pão e a poesia no aqui e no agora.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A FORMAÇÃO POLÍTICA COMO SÍNTESE DIALÉTICA

A superação dos “cursos de oratória” pelos “cursos de escutatória” não preconiza a mudez dos movimentos sociais ou o abandono da denúncia pública. Pelo contrário: trata-se de subordinar dialeticamente a emissão da palavra à rigorosa decodificação da realidade concreta.

Para o formador classista, a escutatória opera a superação da cisão entre o educador e o educando. Em termos gramscianos, viabiliza a conformação do autêntico intelectual orgânico: aquele que não se limita a discursar sobre as massas a partir de uma cátedra externa, mas que sente, compartilha e sistematiza as paixões e as lutas do povo para transformá-las em potência política e projeto contra-hegemônico.

A escuta revolucionária é o prelúdio dialético da voz que liberta. Ao calar a soberba vanguardista para escutar o clamor do território, a militância popular reconstrói a jangada necessária para navegar as tormentas do presente, transformando a indignação dispersa em poder popular organizado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ALVES, Rubem. Estórias de quem gosta de ensinar. São Paulo: Cortez, 1984.
  • ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Planeta do Brasil, 2008.
  • BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1987.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 2: Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
  • LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Tradução de Divaldo de Almeida Pinto. Paris: Éditions Anthropos, 1974.
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
  • SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
  • ŽIŽEK, Slavoj. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.

Geógrafo, Pedagogo e Especialista em Planejamento e Economia Política. Técnico em Finanças. +50 anos de atuação sindical e no setor de supermercados. Dirigente da FEC Bahia.

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