Por José Rios
Resumo: O presente artigo analisa, sob o método da paralaxe política e da economia política internacional, o papel desempenhado pelo governo de Pedro Sánchez na Espanha e sua projeção como articulador de uma frente democrática e multilateralista contra a ascensão transnacional do neofascismo e da extrema-direita. Examina-se como a experiência espanhola — fundamentada no Estado Social e Democrático de Direito preconizado pela Constituição de 1978 — conjuga estabilidade macroeconômica heterodoxa, defesa irrestrita do direito internacional e alianças estratégicas com lideranças do Sul Global (notadamente o Brasil). Demonstra-se que a postura diplomática autônoma de Madri desafia tanto as pressões hegemônicas atlantistas quanto as pulsões autocráticas contemporâneas, redefinindo as fronteiras da soberania democrática no século XXI.
Palavras-chave: Pedro Sánchez; Neofascismo; Multilateralismo; Constituição Espanhola de 1978; Geopolítica; Direito Internacional; ONU.
1. Introdução: O Efeito de Paralaxe e a Crise Estrutural da Ordem Liberal
A conjuntura internacional contemporânea é atravessada por uma crise orgânica da democracia representativa, na qual a erosão do consenso liberal do pós-Guerra Fria abriu flancos para a emergência de movimentos de extrema-direita de matriz neofascista, conspiracionista e revisionista.
Aplicar a análise em paralaxe a este fenômeno exige observar o deslocamento de perspectiva entre duas visões irreconciliáveis de soberania:
- De um lado, a perspectiva reacionária-autoritária, que concebe o poder sob a ótica da homogeneização etnonacionalista, da desregulamentação predatória e da instrumentalização de aparatos judiciais e midiáticos para a asfixia do dissenso;
- De outro, a perspectiva democrático-universalista encabeçada por governos progressistas que sustentam que a verdadeira soberania reside na expansão dos direitos fundamentais, na justiça distributiva e no cumprimento cogente das normas imperativas de direito internacional (jus cogens).
Nesse cenário de polarização assimétrica, a Espanha liderada pelo presidente de governo Pedro Sánchez consolidou-se como um polo dinâmico de contenção institucional e política contra a onda ultraconservadora na Europa e no Ocidente.
2. A Ancoragem Constitucional Espanhola: O Estado Social e os Direitos Fundamentais
A legitimidade da ação política do executivo espanhol repousa sobre a estrutura dogmática da Constituição Espanhola de 1978 (CE), que estabelece em suas cláusulas pétreas princípios antagônicos à cartilha neofascista:
- O Estado Social e Democrático de Direito (Art. 1º, 1 da CE): A consagração da igualdade, da liberdade, da justiça e do pluralismo político como valores superiores da ordem jurídica nacional impõe ao poder público o dever de intervir na realidade econômica para assegurar a coesão social.
- A Cláusula de Igualdade Substancial (Art. 9º, 2 da CE): O comando constitucional explícito para que os poderes públicos “promovam as condições para que a liberdade e a igualdade do indivíduo e dos grupos em que se integra sejam reais e efetivas” serve de esteio jurídico contra discursos discriminatórios, xenófobos e segregacionistas.
- A Primazia dos Direitos Humanos (Art. 10 da CE): A determinação de que a dignidade da pessoa humana e a interpretação dos direitos fundamentais devem conformar-se à Declaração Universal dos Direitos Humanos e aos tratados internacionais ratificados pela Espanha impede a naturalização de retrocessos civilizatórios.
- A Abertura Internacional e a Soberania Compartilhada (Arts. 93 a 96 da CE): O arcabouço normativo que submete as diretrizes estatais ao primado do direito internacional e à cooperação multilateral.
A resistência de Sánchez às investidas de deslegitimação institucional — operadas por alianças entre setores oligárquicos, corporações transnacionais e plataformas de desinformação — constitui, em essência, a defesa prática da integridade do pacto constitucional de 1978.
3. Economia Política da Resistência: Do Excepcionalismo Ibérico à Proteção Social
Enquanto o receituário do neoliberalismo tardio alimenta o descontentamento popular que serve de combustível eleitoral para a extrema-direita, o modelo econômico hispânico implementou políticas anticíclicas e distributivas com resultados expressivos:
- A Exceção Ibérica Energética: A capacidade do governo espanhol de negociar junto à Comissão Europeia um teto desacoplado para o preço do gás na geração de eletricidade demonstrou como a intervenção regulatória do Estado pode proteger o poder de compra da classe trabalhadora sem estrangular o investimento produtivo.
- Reforma Trabalhista e Valorização Salarial: O fortalecimento da negociação coletiva e os sucessivos aumentos reais do Salário Mínimo Interprofissional (SMI) reduziram a precariedade estrutural, enfraquecendo o ressentimento social explorado pela demagogia ultradireitista.
- Fiscalidade Progressiva: A criação de tributos temporários e extraordinários sobre lucros extraordinários do setor financeiro e das grandes corporações energéticas reafirmou a função social da economia prevista no Art. 128 da Carta Magna espanhola (“toda a riqueza do país está subordinada ao interesse geral”).
4. Geopolítica da Altivez e o Eixo Transatlântico Progressista
No plano das relações internacionais, a Espanha rompeu com a postura de alinhamento passivo às diretrizes de potências hegemônicas, articulando uma diplomacia de princípios balizada pela Carta das Nações Unidas:
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| Ordem Multilateral e Direito Global |
| (ONU / CIJ / TPI) |
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|
+----------------------+----------------------+
| |
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| Espanha (Pedro Sánchez) | | Brasil (Luiz Inácio Lula da Silva)|
| - Reconhecimento do Estado da | | - Defesa do Multilateralismo Inclusivo |
| Palestina | | - Presidência do G20 / COP30 |
| - Soberania e Defesa de Direitos | | - Aliança Global contra a Fome |
| - Regulação Democrática de Plataformas| | - Combate à Desinformação Transnacional |
+-------------------+-------------------+ +---------------------+-------------------+
\ /
\_____ Eixo Transatlântico Democrático _____/
|
v
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| Contenção da Internacional Reacionária e |
| Salvaguarda da Democracia Global |
+------------------------------------------+
- A Defesa do Direito Humanitário e o Reconhecimento da Palestina: Ao liderar na Europa o reconhecimento formal do Estado da Palestina e apoiar as deliberações da Corte Internacional de Justiça (CIJ) relativas ao cumprimento da Convenção contra o Genocídio, a Espanha resgatou o compromisso com a igualdade soberana dos povos e a universalidade dos Direitos Humanos.
- A Parceria Estratégica Sánchez–Lula: A articulação com o presidente do Brasil estabeleceu um eixo geopolítico entre o Sul da Europa e a América Latina voltado a combater a internacional reacionária. Essa aliança materializa-se na governança do G20, na defesa da regulação de corporações de tecnologia (Big Techs) e no combate coordenado ao ecossistema de notícias falsas e ódio direcionado.
- Autonomia Estratégica Europeia: A recusa em atuar como mero satélite de agendas geopolíticas terceirizadas (seja na bacia do Mediterrâneo, seja no Leste Europeu ou nas relações com o Norte da África) projeta a Espanha como um ator capaz de defender a segurança coletiva por vias diplomáticas e multilaterais.
5. Mecanismos Multilaterais e o Combate ao Extremismo como Ameaça à Paz
A ascensão do neofascismo não é apenas um desafio doméstico, mas uma ameaça à ordem de segurança coletiva internacional. A atuação espanhola nos foros da ONU conecta-se a dispositivos e resoluções vinculantes da ordem jurídica global:
- Carta das Nações Unidas (Artigos 1º e 2º): Compromisso com a paz, a autodeterminação dos povos e a cooperação internacional na resolução de problemas de caráter econômico, social, cultural e humanitário.
- Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ICERD – 1965): Adoção de medidas estatais punitivas e preventivas contra a propaganda racista e organizações baseadas em ideias de superioridade étnica ou religiosa.
- Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (PIDCP – 1966, Artigo 20): Proibição por lei de qualquer apologia do ódio nacional, racial ou religioso que constitua incitação à discriminação, à hostilidade ou à violência.
- Resoluções da Assembleia Geral da ONU sobre o Combate à Glorificação do Nazismo e do Fascismo: Apoio contínuo da diplomacia espanhola a resoluções que condenam manifestações contemporâneas de racismo sistêmico, xenofobia e intolerância correlata.
6. Considerações Finais
A experiência do governo de Pedro Sánchez representa, no horizonte político contemporâneo, a comprovação de que o enfrentamento à extrema-direita não se dá pela concessão programática ou pela capitulação retórica, mas pela radicalização substantiva da democracia: fortalecimento do Estado de bem-estar social, transparência institucional, coragem diplomática e rigor na aplicação do direito internacional.
Ao manter a Espanha firme no compromisso com o multilateralismo da ONU e ao forjar alianças de alto nível com lideranças como Lula, a liderança espanhola não apenas salvaguarda a convivência pluralista interna frente aos impulsos autoritários, mas projeta-se como uma das principais referências de sobriedade e resistência democrática no cenário global.
Referências Bibliográficas e Documentais
- ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS (AGNU). Carta das Nações Unidas. São Francisco: ONU, 1945.
- ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS (AGNU). Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. Resolução 2200A (XXI), 1966.
- ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS (AGNU). Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. Resolução 2106 (XX), 1965.
- CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA (CIJ). Application of the Convention on the Prevention and Punishment of the Crime of Genocide (South Africa v. Israel). Haia: ICJ Reports, 2024.
- ESPAÑA. Constitución Española de 1978. Boletín Oficial del Estado (BOE), n. 311, 29 de diciembre de 1978.
- HABERMAS, Jürgen. A Inclusão do Outro: Estudos de Teoria Política. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
- KANT, Immanuel. À Paz Perpétua: Um Projeto Filosófico. Porto Alegre: L&PM, 2008.
- LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
- MOUFFE, Chantal. Por um Populismo de Esquerda. São Paulo: Autonomia Literária, 2018.
- ŽIŽEK, Slavoj. The Parallax View. Cambridge, MA: MIT Press, 2006.
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