Da Anestesia da Matéria à Emancipação do Ser: Ensaio sobre a Consciência, a Alienação Social e a Práxis Revolucionária

Por José Evangelista Rios da Silva

Introdução

O desvendamento da base material da consciência — seja através da suspensão eletroquímica provocada pela anestesia geral nos circuitos GABAérgicos e talâmicos, seja pelos enigmas dinâmicos do sono e do sonho — confronta a filosofia e as ciências com uma evidência ontológica incontornável: a mente não é um reduto espiritual autônomo, mas o produto supremo da matéria altamente organizada.

Transpondo essa premissa biológica para o terreno da sociabilidade capitalista, emerge uma paralaxe estrutural fecunda. Assim como a farmacologia médica pode induzir um estado de coma controlado que paralisa a percepção e desarticula a totalidade do eu, a ordem burguesa opera como um mecanismo sistêmico de entorpecimento e alienação. O presente ensaio investiga, sob a luz do materialismo histórico-dialético e da Dialética da Natureza de Friedrich Engels, os nexos entre a organização orgânica da consciência e o processo histórico de desumanização, propondo a reintegração do ser humano à sua essência natural por meio da práxis política e da consciência de classe.

A Base Material da Consciência e a Crítica ao Idealismo

A investigação neurocientífica contemporânea sobre a perda temporária da consciência sob agentes anestésicos valida o postulado materialista clássico: a interrupção das condições orgânicas concretas extingue o fenômeno psíquico. Não há “alma” errante fora do substrato físico.

Friedrich Engels, ao escrever Dialética da Natureza, já fustigava o idealismo abstrato e o mecanicismo dos cientistas do século XIX que tentavam explicar os fenômenos vitais e mentais desvinculados do movimento objetivo da matéria [1]. Para Engels, a natureza evolui dialeticamente através de leis gerais — a transformação de quantidade em qualidade, a interpenetração dos contrários e a negação da negação [1, 2, 3]. O pensamento humano é a matéria refletindo-se a si mesma em um patamar superior de complexidade evolutiva.

Quando a ciência fragmenta os processos mentais — reduzindo os sonhos a mero “ruído elétrico” estocástico ou isolando-os em funções adaptativas estáticas —, ela reproduz o erro metafísico combatido pelo materialismo dialético: o esquecimento da totalidade sistêmica. A consciência humana, em sua vigília e em seus ciclos oníricos, opera em um movimento helicoidal de contínua reelaboração da experiência objetiva.

A Anestesia Social: Alienação Econômica e o Coma Institucional

No plano político e econômico, o modo de produção capitalista converte a alienação do trabalho em uma anestesia generalizada da consciência social. A separação histórica do trabalhador dos meios de produção gera uma fratura ontológica: o ser humano deixa de reconhecer no produto do seu trabalho a expansão da sua própria força vital, experimentando-o como uma força estranha e hostil.

Este mecanismo econômico exige, para sua reprodução, a manutenção de um “coma institucional”. O sindicalismo de cooptação e as estruturas de conciliação de classes — criticadas historicamente na construção de ferramentas autônomas como a CTB frente à institucionalização tecnoburocrática — cumprem o papel de anestésicos sociais. Eles amortecem o conflito distributivo, atenuam as arestas da exploração e induzem a classe trabalhadora a um torpor político, silenciando o antagonismo estrutural entre capital e trabalho sob a promessa de uma harmonia quimérica.

Tal como o cérebro sob ação do propofol é privado de sua capacidade integradora de rede, a classe submetida à ideologia dominante é isolada em fragmentos de sobrevivência cotidiana, incapaz de articular o nexo causal entre a sua precarização material e a sanha acumulativa do capital.

Reintegrar o Ser: Da Práxis em Paralaxe à Emancipação Histórica

A superação desta paralisia exige uma mudança de perspectiva metodológica e política: o pensamento em paralaxe. Observar a realidade a partir de múltiplos ângulos irreredíveis — o determinismo material da natureza, as amarras da economia política e a urgência subjetiva da emancipação — revela que a ordem burguesa não é eterna nem natural, mas uma fase transitória e repleta de contradições insolúveis.

O processo de reintegrar o ser à sua verdadeira natureza não evoca um retorno romântico ou reacionário a um passado pré-civilizatório, mas a recuperação da potência criadora do trabalho livre, consciente e associado. Trata-se de resgatar o ser humano alienado das engrenagens da mercadoria e devolvê-lo à sua totalidade práxica.

Assim como os ciclos do sono REM reprocessam o estresse e reorganizam as redes associativas para preparar o organismo para o despertar, a luta histórica dos trabalhadores atravessa refluxos, recuos e momentos de aparente latência institucional. Contudo, sob a lei da negação da negação, as contradições do sistema acumulam-se inexoravelmente até que a quantidade de opressão se converta na qualidade da rebelião consciente.

Conclusão

A emancipação humana exige o fim de todas as formas de anestesia ideológica e exploração material. Compreender que a consciência repousa sobre a base da matéria viva confere à nossa luta um caráter científico e irreversível: o capitalismo é historicamente datado e mortal. Cabe à práxis teórica e organizativa dos trabalhadores atuar como o agente de reversão desse torpor, despertando a classe para a construção de uma sociedade onde o ser humano possa, enfim, reintegrar-se à sua essência emancipada.

Referências Bibliográficas

  • ENGELS, Friedrich. Dialética da Natureza. São Paulo: Boitempo Editorial, 2021.
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política (Livro I). São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.
  • MATUS, Carlos. Politica, Planificacion y Gobierno. Washington D.C.: OPS, 1987.
  • WALKER, Matthew. Por que nós dormimos: A nova ciência do sono e dos sonhos. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.
  • REVONSUO, Antti. The Reinterpretation of Dreams: An Evolutionary Hypothesis of the Function of Dreaming. Behavioral and Brain Sciences, v. 23, n. 6, p. 877-901, 2000.

José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista pelo CES-Nacional e pela Fundação Maurício Grabois. Técnico em Finanças e Investimentos com experiência em conselhos fiscais (Cooperbom) e consultivos (ex-conselheiro Sesc/Senac-BA), dedica-se há mais de 50 anos ao setor de supermercados e ao sindicalismo. Atualmente dirigente da FEC Bahia, define seu trabalho como uma “práxis militante” voltada à construção de soluções e pontes para a classe trabalhadora.

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