A análise dos meios de pagamento no capitalismo contemporâneo costuma ser apresentada sob o véu da neutralidade técnica e da mera eficiência de mercado. Sob a lente da paralaxe classista, contudo, desfaz-se a ilusão liberal: o controle sobre os canais de liquidação monetária é uma extensão direta da soberania sobre a própria moeda nacional. O que para as frações rentistas e os conglomerados financeiros internacionais representa uma perda de receita sobre a circulação do dinheiro, para a classe trabalhadora e a pequena produção constitui uma infraestrutura pública indispensável à preservação do fundo social.
Ao ser concebido e gerido diretamente pela autoridade pública do Banco Central, o Sistema de Pagamentos Instantâneos (PIX) quebrou a intermediação parasitária operada por cartéis transnacionais de bandeiras de cartões e adquirentes privadas. A liquidação direta e a custo zero subtraiu bilhões de reais que antes eram compulsoriamente drenados do comércio popular e dos trabalhadores por meio de taxas extorsivas. Ao mesmo tempo, a custódia estatal dos dados transacionais garantiu uma blindagem essencial da soberania digital contra a captura de informações econômicas estratégicas pelas grandes plataformas financeiras globais.
No cenário geopolítico, o avanço dessa infraestrutura pública digital sintoniza-se com a transição multipolar liderada pelo bloco BRICS+. A experiência de liquidação soberana e a evolução para o Drex abrem caminhos concretos para a integração de sistemas de pagamentos transfronteiriços em moedas locais, reduzindo a vulnerabilidade externa frente ao monopólio do dólar e à coerção de sanções unilaterais. Trata-se da afirmação material do direito inalienável do Estado soberano de gerir sua própria economia, conforme preconizam os marcos multilaterais da Carta da ONU.
Essa contradição projeta o PIX no centro da disputa política e eleitoral no Brasil. De um lado, posiciona-se o projeto nacional-popular e soberanista, que compreende o sistema financeiro e seus instrumentos tecnológicos como bens públicos a serviço do desenvolvimento interno e da dignidade da população. Do outro, articulam-se setores rentistas e frações compradoras que buscam mercantilizar a infraestrutura estatal, taxar fluxos populares ou precarizar o serviço para reinstituir pedágios privados sobre a circulação monetária. A defesa da integridade pública do PIX é, em essência, a defesa da soberania nacional contra a espoliação do capital financeiro.
Deixe um comentário