A análise da conjuntura geopolítica global exige o método da paralaxe classista: o deslocamento do olhar que desmistifica o discurso da “ordem internacional baseada em regras” e revela a disputa real pelo controle de recursos estratégicos, cadeias produtivas e rotas comerciais. O cenário internacional contemporâneo é marcado pela contradição entre a hipertrofia coercitivo-militar do centro atlantista e o declínio de sua base material produtiva, acelerando a transição para uma arquitetura multipolar.
O centro gravitacional dessa mudança reside na consolidação do bloco BRICS+ e no papel indutor da República Popular da China. Ao contrário do modelo ocidental fundado na financeirização rentista e na proliferação de bases militares, o desenvolvimento chinês ancorou-se no planejamento estatal de longo prazo, na liderança manufatureira e na quebra de monopólios ocidentais em tecnologias críticas. A expansão do BRICS+ impulsiona a desdolarização do comércio exterior e fortalece a soberania dos países produtores sobre hidrocarbonetos, terras raras e alimentos, alterando a divisão internacional do trabalho.
Essa reconfiguração repercute diretamente nos teatros de atrito da geopolítica mundial. No Leste Europeu, a guerra por procuração na Ucrânia evidenciou os limites industriais da OTAN diante de uma potência com profundidade estratégica e base produtiva pesada como a Rússia, acelerando a desindustrialização da Europa Central. No Oriente Médio, a capacidade de dissuasão militar do Irã e seu controle sobre o Estreito de Ormuz impõem um freio material ao intervencionismo externo, já que qualquer escalada desmedida ameaça estrangular o fluxo de petróleo global.
Para o Brasil e a América Latina, a disputa expressa-se na contradição entre as frações financeiro-rentistas — que defendem a subordinação monetária e a pauta primário-exportadora — e o projeto nacional-popular de desenvolvimento. A soberania regional depende da recuperação da capacidade de investimento do Estado, do controle público sobre ativos estratégicos como o Pré-Sal e da articulação de corredores bioceânicos com parceiros do Sul Global, superando a histórica tutela da Doutrina Monroe.
A transição para um ordenamento multipolar não é uma hipótese abstrata, mas um processo material em marcha. O cerco unilateral e a imposição de sanções perdem eficácia diante da construção de infraestruturas financeiras e logísticas alternativas. A estabilidade internacional e a soberania dos povos dependem do fortalecimento dessas redes autônomas de cooperação Sul-Sul e da afirmação de uma ordem multilateral fundada na igualdade soberana das nações.
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