Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
Este artigo analisa a dialética entre a liderança individual e a ação coletiva no campo da esquerda, articulando as contribuições de Georgi Plekhânov em O Papel do Indivíduo na História com o debate contemporâneo sobre o culto à personalidade e a práxis militante. Utilizando a lente da paralaxe classista, examina-se a tensão entre o rigor analítico do materialismo histórico e a consciência imediata da militância de base. Conclui-se que a superação da personalização da política não se dá pela negação do afeto e da referência individual, mas pela elevação das condições materiais de formação teórica e pela consolidação de instâncias coletivas de deliberação.
1. Introdução: O Problema da Personalização na Cultura Política
A ascensão do individualismo como ideologia dominante sob o modo de produção capitalista reflete-se, inevitavelmente, na cultura política das forças progressistas. O fenômeno da personalização do poder e da transfiguração de dirigentes em figuras providenciais representa uma transposição das formas ideológicas burguesas para o interior do movimento operário e popular.
A análise crítica desse fenômeno exige afastar dois desvios opostos: de um lado, o idealismo subjetivista, que reduz processos históricos complexos à genialidade ou às virtudes individuais de “grandes homens”; de outro, o sociologismo vulgar ou determinismo mecanicista, que nega qualquer relevância à intervenção consciente e às qualidades específicas das lideranças na condução dos conflitos sociais.
O objetivo deste trabalho é examinar o lugar do líder e do militante na história sob a perspectiva do materialismo histórico dialético, contrastando o rigor da elaboração teórica com as exigências concretas da práxis militante.
2. A Determinação Histórica e o Papel do Indivíduo: A Contribuição de Plekhânov
Em O Papel do Indivíduo na História, Georgi Plekhânov estabelece a demarcação entre a causalidade estrutural e a contingência individual. As leis do desenvolvimento social são determinadas fundamentalmente pelo estado das forças produtivas e pelas relações de produção que sobre elas se erguem. No entanto, a forma específica como as contradições econômicas se manifestam e o ritmo em que os acontecimentos se desdobram dependem diretamente da ação humana.
Plekhânov argumenta que um indivíduo só se torna uma “grande figura histórica” quando suas particularidades de caráter, intelecto e vontade coincidem com as necessidades objetivas de sua época e de sua classe. O líder não cria as forças sociais; ele as expressa, organiza e catalisa.
[ Condições Materiais / Relações de Produção ]
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[ Contradições e Necessidades de Classe ]
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[ Requerimento de Direção Política ]
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[ Encontro com a Individualidade do Dirigente (Atuação/Ritmo) ]
A liderança, portanto, é uma relação social mediada pelas condições objetivas. Quando a análise desloca o foco da estrutura social para o fetiche da personalidade, opera-se uma inversão idealista: a consequência (o destaque da liderança) passa a ser tratada como causa (o motor da história).
3. A Leitura em Paralaxe Classista: Distância Analítica vs. Práxis Militante
A aplicação do conceito de paralaxe — a alteração aparente de um objeto quando observado de duas posições distintas — revela uma fratura epistemológica no interior da própria esquerda:
- A Posição Crítico-Teórica: Observa o processo a partir da totalidade e da longa duração. Denuncia o risco do culto à personalidade, aponta as limitações de classe da idealização do líder e exige coerência metodológica rigorosa.
- A Posição da Práxis Militante de Base: Observa a luta a partir da urgência imediata da sobrevivência e do confronto político cotidiano. Sob condições de letramento político sistematicamente restrito pelo capital, a classe trabalhadora compreende e se engaja na política frequentemente por meio da identificação com a figura do dirigente.
| Categoria | Dimensão da Análise Estrutural | Dimensão da Práxis Concreta |
|---|---|---|
| Referencial | Leis históricas, totalidade, mediações. | Urgência material, opressão imediata. |
| Liderança | Expressão contingente de forças sociais. | Símbolo de coesão, esperança e combate. |
| Validação | Coerência teórica e método dialético. | Dedicação, desapego material e lealdade. |
| Risco Ideológico | Elitismo acadêmico e abstracionismo. | Messianismo e paralisia da crítica. |
A militância de base não deve ser julgada pela ausência de um arsenal teórico altamente elaborado, quando sua inserção na luta é movida pela dedicação, pela perseverança e pelo desapego material. A práxis — enquanto atividade humana sensível e transformadora — possui valor epistemológico próprio. No entanto, a ausência de mediação teórica expõe o movimento popular ao risco da dependência contínua de figuras providenciais, enfraquecendo a continuidade das organizações quando da ausência desses dirigentes.
4. Crítica, Autocrítica e a Defesa da Organização Coletiva
O culto à personalidade interdita o exercício da crítica e da autocrítica, ferramentas fundamentais do método dialético. Quando a decisão política é atribuída à infalibilidade do líder, qualquer divergência tática ou estratégica passa a ser interpretada como deslealdade moral ou traição.
Essa dinâmica produz dois efeitos nocivos:
- Atrofia dos Quadros: A base militante deixa de desenvolver a capacidade de análise autônoma da conjuntura, tornando-se mera executora de diretrizes verticais.
- Vulnerabilidade Estratégica: A organização torna-se incapaz de corrigir rumos diante de falhas táticas, pois o reconhecimento do erro comprometeria o mito da liderança.
Como aponta o rigor do materialismo histórico, o combate à extrema-direita e ao fascismo não se consolida pela criação de mitos simétricos, mas pela capacidade de transformar as condições concretas de vida das maiorias trabalhadoras. A coesão política duradoura nasce da eficácia da ação coletiva e do enraizamento social, e não da veneração individual.
5. Considerações Finais
A superação do individualismo burguês e da personalização da política no seio do campo progressista representa um desafio contínuo. A liderança histórica cumpre um papel decisivo ao sintetizar a vontade coletiva em momentos de virada conjuntural; contudo, ela deve atuar como ponte para a elevação da consciência de classe, e nunca como seu substituto.
A tarefa teórica e prática da esquerda revolucionária não consiste em banir o reconhecimento às lideranças nem em exigir uma pureza teórica abstrata da militância popular. Consiste, sim, em construir instâncias organizativas coletivas capazes de formar continuamente novos quadros, garantindo que a força da transformação permaneça depositada na classe organizada, e não na excepcionalidade dos indivíduos.
Referências Bibliográficas
- KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
- LENIN, Vladimir Ilich. Que Fazer? As questões escaldantes do nosso movimento. São Paulo: Boitempo, 2015.
- MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
- PLEKHÂNOV, Georgi V. O Papel do Indivíduo na História. São Paulo: Expressão Popular, 2000.
- PLEKHÂNOV, Georgi V. A Concepção Materialista da História. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.
- ZIZEK, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista pelo CES-Nacional e pela Fundação Maurício Grabois. Técnico em Finanças e Investimentos com experiência em conselhos fiscais (Cooperbom) e consultivos (ex-conselheiro Sesc/Senac-BA), dedica-se há mais de 50 anos ao setor de supermercados e ao sindicalismo. Atualmente dirigente da FEC Bahia, define seu trabalho como uma “práxis militante” voltada à construção de soluções e pontes para a classe trabalhadora.
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