Por José Evangelista Rios da Silva
RESUMO
O presente artigo analisa as contradições estruturais da gestão liberal no setor de comércio e serviços no Brasil. Sob a lente do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista, o estudo examina o fenômeno recorrente em que o patronato do grande varejo exime-se da responsabilidade por falhas de gestão, erros de posicionamento e apostas na especulação financeira, terceirizando a culpa do seu declínio para fatores externos — tais como o “Custo Brasil”, a tributação sobre a folha de pagamento e a concorrência internacional. Demonstra-se como a obsessão pela maximização infinita de margens de lucro combinada ao rebaixamento extremo de custos e à substituição do dinamismo comercial tradicional pela lógica do rentismo desestrutura a ponta da cadeia produtiva, penalizando trabalhadores e consumidores. Por fim, aponta-se a centralidade da intervenção autônoma e científica das lideranças sindicais de base na desconstrução desse discurso ideológico e na defesa dos empregos.
Palavras-chave: Liberalismo Econômico; Paralaxe Classista; Rentismo e Especulação; Terceirização da Culpa; Reestruturação do Varejo; Liderança Sindical Classista.
1. INTRODUÇÃO: A INCAPACIDADE DE AUTOCRÍTICA DO LIBERALISMO ECONÔMICO
A atividade comercial e de serviços antecede em milênios a emergência do modo de produção capitalista. A troca mercantil, a circulação de bens e o atendimento às necessidades reais de consumo das populações sempre exigiram profunda capacidade de leitura do mercado, dinamismo operacional e conhecimento tátil das demandas sociais. Contudo, sob a hegemonia do capitalismo financeirizado e da ideologia do liberalismo econômico, a atividade comercial foi sequestrada pela lógica da especulação e do ganho rentista de curto prazo.
Quando grandes redes varejistas enfrentam crises operacionais, retração de vendas ou perda de adesão Popular, a narrativa liberal aciona um mecanismo ideológico padronizado: a negação absoluta de seus próprios erros estratégicos. A gestão corporativa recusa-se a admitir decisões equivocadas — tais como a deterioração da qualidade dos produtos, o superfaturamento de itens básicos e a conversão de lojas físicas em balcões de venda de crédito com juros extorsivos. Em vez de autocrítica, constrói-se a tese da “incompetência exógena”, atribuindo o colapso a fatores como o “Custo Brasil”, os encargos trabalhistas, a carga tributária ou a “concorrência desleal” de plataformas estrangeiras.
2. A PARALAXE CLASSISTA: A “ESPERTEZA” DO LUCRO MÁXIMO E O CUSTO MÍNIMO
O conceito de paralaxe classista permite desvelar a fratura existente entre o discurso da eficiência empresarial e a realidade concreta da reprodução do capital na ponta do varejo:
┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐ │ A PARALAXE CLASSISTA │ ├──────────────────────────────────────┬──────────────────────────────────────┤ │ NARRATIVA DO LIBERALISMO │ REALIDADE DA CLASSE TRABALHADORA│ ├──────────────────────────────────────┼──────────────────────────────────────┤ │ • "Custo Brasil e alta tributação". │ • Maximização cega das margens. │ │ • "Concorrência externa desleal". │ • Substituição de tecidos por sintético│ │ • "Livre mercado e eficiência". │ • Repasse do risco para o crediário. │ │ • "Ajuste e otimização de custos". │ • Fechamento de lojas e demissões. │ └──────────────────────────────────────┴──────────────────────────────────────┘
A ilusão liberal apoia-se na premissa irrealizável de extrair um lucro infinitamente máximo a partir de um custo infinitamente mínimo. Na tentativa de operacionalizar essa equação:
- Deterioração da Qualidade: Sacrifica-se a matéria-prima (ex.: substituição do algodão por fibras sintéticas de baixa durabilidade e alto custo ambiental), provocando a rejeição imediata do consumidor.
- Financeirização da Operação: Abandona-se a excelência do atendimento comercial para transformar vendedores em corretores de juros, cartões de crédito e seguros embutidos.
- Fuga para o Rentismo: Em vez de reinvestir na melhoria das lojas e na valorização da força de trabalho, os recursos operacionais são direcionados para aventuras especulativas no mercado financeiro.
Quando essa matemática falha — porque a classe trabalhadora atinge o limite do endividamento e rejeita o produto descartável superfaturado —, os gestores liberais recorrem ao Estado para pedir socorro e protecionismo, desmentindo a própria retórica do “livre mercado”.
3. A TERCEIRIZAÇÃO DA CULPA E O LOBBY DA DIVERGÊNCIA TRIBUTÁRIA
A reação do grande varejo nacional diante do avanço de plataformas digitais e do comércio global exemplifica com clareza a terceirização da culpa. Em vez de reestruturar a cadeia logística, negociar margens justa e recuperar a qualidade do produto, o empresariado do setor preferiu articular no Congresso Nacional a imposição de barreiras e impostos sobre as compras populares internacionais.
Essa manobra explicita a hipocrisia da doutrina liberal:
- Para a classe trabalhadora: Defende-se a “flexibilização” de direitos, o rebaixamento salarial e a redução da proteção social em nome da competitividade.
- Para o grande capital: Exige-se a intervenção estatal, a concessão de subsídios e a taxação da concorrência para garantir reserva de mercado e proteger margens de lucro insustentáveis.
O consumidor-trabalhador percebe o paradoxo: encarece-se a alternativa acessível sem que o produto nacional ofereça qualquer ganho de qualidade ou preço justo, resultando no esvaziamento das lojas físicas e na estagnação da atividade comercial.
4. O PAPEL CRÍTICO DAS LIDERANÇAS SINDICAIS CLASSISTAS
Diante do colapso do modelo rentista no varejo, a resposta não virá dos conselhos de administração ou dos analistas do mercado financeiro. A reação consciente parte da intervenção das lideranças sindicais de base, cuja atuação de vanguarda cumpre papel determinante em três frentes:
- Desconstrução Ideológica: Denunciar a falácia do “Custo Brasil” e demonstrar que a crise de vendas decorre da corrosão do poder de compra dos salários e da ganância de margem do patronato.
- Defesa do Emprego e dos Direitos: Exigir o cumprimento rigoroso da legislação trabalhista e da jurisprudência firmada no Tema 638 do STF, que impõe a negociação coletiva prévia como requisito indispensável antes de qualquer dispensa em massa ou fechamento de filiais.
- Organização da Categoria: Mobilizar a base para combater o assédio moral voltado ao cumprimento de metas abusivas de venda de crédito e defender condições dignas no chão de loja.
5. CONCLUSÃO
O comércio é uma atividade humana fundamental que exige respeito ao consumidor e valorização dos trabalhadores que movimentam a ponta da cadeia. O liberalismo econômico, ao subordinar a circulação de mercadorias ao rentismo e ao lucro especulativo de curto prazo, demonstra sua incapacidade estrutural de gerir a atividade de forma sustentável.
A recusa patronal em assumir seus erros de gestão e a constante terceirização da culpa reforçam a necessidade de um movimento sindical classista bem formado, combativo e munido de análise científica. A vitória da classe trabalhadora e a preservação do dinamismo econômico dependem da capacidade de mobilização das lideranças sindicais de base para conter a voracidade do capital e impor os direitos sociais inscritos na Constituição e nas Convenções Coletivas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Presidência da República, 1988.
- BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943.
- CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: Ipea, 1993.
- SINDICATO DOS EMPREGADOS NO COMÉRCIO DE SALVADOR. Convenção Coletiva de Trabalho 2024/2025. Salvador: SintraSuper, 2024.
- SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). Recurso Extraordinário nº 999.435/RS (Tema 638 de Repercussão Geral). Redator para o acórdão: Min. Edson Fachin. Julgado em 08/06/2021.
- ŽIŽEK, Slavoj. A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista pelo CES-Nacional e pela Fundação Maurício Grabois. Técnico em Finanças e Investimentos com experiência em conselhos fiscais (Cooperbom) e consultivos (ex-conselheiro Sesc/Senac-BA), dedica-se há mais de 50 anos ao setor de supermercados e ao sindicalismo. Atualmente dirigente da FEC Bahia, define seu trabalho como uma “práxis militante” voltada à construção de soluções e pontes para a classe trabalhadora.
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