Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O presente artigo analisa os rearranjos geopolíticos, socioeconômicos e ambientais decorrentes do desengajamento progressivo dos Estados Unidos da América (EUA) das instâncias multilaterais de governança global. Sob as lentes do materialismo histórico-dialético, da paralaxe classista e da metodologia do Planejamento Estratégico Situacional Crítico (PESC-MAPP), investiga-se como a perda do vetor unipolar abre espaço para uma reconfiguração da governança planetária. A hipótese central demonstra que a ausência da diplomacia coercitiva e do rentismo financeiro anglo-americano nas agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e em órgãos internacionais favorece a autonomia do Sul Global, flexibiliza barreiras de propriedade intelectual e estimula a democratização do crédito público direcionado à transição energética e à segurança alimentar.
Introdução
O ciclo de hegemonia unipolar inaugurado no pós-Guerra Fria caracterizou-se pela sobreposição dos interesses geopolíticos das elites financeiras norte-americanas às normas de direito internacional. A participação dos EUA nos fóruns multilaterais historicamente operou sob a tática da “excepcionalidade”: a instrumentalização do poder de veto e do financiamento condicionado para conter o avanço soberano das nações periféricas e blindar o seu complexo industrial-militar.
A decisão de efetivar o desengajamento de 66 organizações e tratados internacionais — dos quais 31 são diretamente vinculados ao sistema ONU — representa o coroamento de um processo de retração imperial. Longe de paralisar a cooperação humana, a ausência de um fiador hegemonizador sob a premissa de um “império da força” tem possibilitado a reemergência de uma multipolaridade baseada em trocas e equivalências materiais diretas.
1. A Paralaxe Classista e a Reconfiguração dos Mecanismos Multilaterais
A leitura da saída norte-americana do sistema multilateral sob a perspectiva da paralaxe classista demonstra que os fóruns internacionais do pós-Segunda Guerra carregavam uma dupla função histórica: enquanto promoviam agendas de cooperação universal, garantiam a transferência ininterrupta de riqueza do Sul Global para o centro do capital fiduciário.
- Soberania Sanitária e Quebra de Patentes: Com a retração das pressões diplomáticas de Washington em instâncias de regulação, agências como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Conselho de Direitos Humanos da ONU ganham margem para flexibilizar acordos de propriedade intelectual, acelerando a transferência de tecnologia farmacêutica e o desenvolvimento de plantas fabris públicas de vacinas e medicamentos essenciais na América Latina, África e Ásia.
- A Transição Energética Descarbonizada: O bloqueio que o setor fóssil norte-americano exercia sobre a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) deu lugar a um ecossistema produtivo baseado na oferta massiva de bens industriais de baixo carbono oriundos da China e de consórcios do Sul Global, reduzindo drasticamente o custo do capital produtivo limpo.
2. Análise Situacional Crítica (PESC-MAPP): Os Vetores da Multipolaridade
Através do Planejamento Estratégico Situacional Crítico (PESC-MAPP), observa-se que o “Nó Crítico” da dependência periférica não era a escassez de recursos ou tecnologias, mas a imposição de regras assimétricas de risco de crédito e condicionalidades macroeconômicas vinculadas ao dólar.
[Vácuo Hegemônico do Império]
│
├──> [Redução de Condicionalidades e Sanções] ──> Maior Soberania Financeira
├──> [Competição Tecnológica Aberta] ─────────> Redução de Custos de Equipamentos Limpos
└──> [Reorganização dos BRICS+] ──────────────> Financiamento de Infraestrutura sem Diktat Ocidental
A reorientação geopolítica permitiu a emergência de três frentes de avanço institucional:
- Crédito Soberano e Desdolarização: Organismos alternativos, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e arranjos bilaterais no âmbito dos BRICS, passaram a financiar projetos de infraestrutura hídrica, agrícola e logística com taxas de juros desvinculadas das oscilações da política monetária do Federal Reserve.
- Segurança Alimentar Global: O combate à fome (ODS 2 da Agenda 2030) passa a ser gerido com foco na agricultura familiar e no fortalecimento de estoques reguladores locais, desarmando a especulação financeira em bolsas de commodities sediadas no Norte Global.
- Diplomacia da Não-Intervenção: A ausência de tutelas militares diretas em fóruns de mediação da ONU abriu margem para a mediação pacífica de conflitos regionais por atores locais, desarticulando a lógica das “guerras híbridas” e da proliferação de sanções unilaterais que sufocavam as economias em desenvolvimento.
3. Síntese e Perspectivas do Planeta sem a Tutela Unipolar
A transição de uma ordem unipolar pautada pelo intervencionismo militar e financeiro para um arranjo verdadeiramente multipolar não implica o caos, mas a reorganização pacífica das forças produtivas e sociais. Os indicadores de desenvolvimento sustentável, soberania energética e governança pacífica no Sul Global indicam que a cooperação descentralizada é capaz de produzir resultados sociais superiores àqueles obtidos sob a hegemonia da força.
Ao libertar o sistema internacional do poder de veto da matriz imperialistocêntrica, o planeta experimenta o desabrochar de uma diplomacia de cooperação autêntica, ancorada no respeito à autodeterminação dos povos e na construção conjunta de um futuro ecologicamente sustentável e economicamente justo.
Referências Bibliográficas
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- ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolução 70/1: Transformando o Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: Nações Unidas, 2015.
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: Ipea, 1993. (Fundamentação do Planejamento Estratégico Situacional – PESC).
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- PRASHAD, Vijay. The Poorer Nations: A Possible History of the Global South. New York: Verso, 2012.
- SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
- STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica Jurídica e(m) Crise: Para uma explanação do sentido da Constituição. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista pelo CES-Nacional e pela Fundação Maurício Grabois. Técnico em Finanças e Investimentos com experiência em conselhos fiscais (Cooperbom) e consultivos (ex-conselheiro Sesc/Senac-BA), dedica-se há mais de 50 anos ao setor de supermercados e ao sindicalismo. Atualmente dirigente da FEC Bahia, define seu trabalho como uma “práxis militante” voltada à construção de soluções e pontes para a classe trabalhadora.
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