Por José Evangelista Rios da Silva
A ocorrência simultânea ou aproximada de grandes eventos geofísicos em diferentes partes do globo — como os recentes abalos na Colômbia, Venezuela e Japão — evoca com frequência duas leituras antagônicas: a explicação científica da geofísica e a narrativa teleológica e moralizante do “castigo divino”.
Sob a ótica do Materialismo Dialético e Histórico e da paralaxe classista, a apreensão desse fenômeno exige desvelar não apenas a física da crosta terrestre, mas também como o modo de produção e as estruturas de dominação ideológica instrumentalizam a natureza para a manutenção do poder.
1. A Paralaxe Geofísica: O Tempo Profundo x A Imediatismo Ideológico
O materialismo dialético nos ensina que a matéria está em constante movimento, transformação e contradição interna. A litosfera terrestre é um exemplo acabado dessa máxima:
- Contradição e Movimento Contínuo: As placas tectônicas não estão estáticas; flutuam sobre o manto e se movem continuamente devido às correntes de convecção do calor interno do planeta. O terremoto é o momento da ruptura dialética — a transformação da quantidade (acúmulo lento e milenar de energia elástica nas falhas) em qualidade (liberação brusca dessa energia).
- Independência Sistêmica: A ocorrência de tremores em pontos distantes do planeta dentro de uma mesma janela temporal é uma coincidência estatística (Poisson clustering). Não há causalidade mágica ligando a subducção da Placa de Nazca na América do Sul à falha das Filipinas ou do Pacífico no Japão. Trata-se da dinâmica cega, amoral e contínua de um sistema termodinâmico aberto.
2. A Paralaxe Classista e o “Altar dos Tiranos”: Da Natureza ao Castigo
Enquanto a geologia explica o como, a análise de classe revela o porquê de certas narrativas se tornarem hegemônicas no campo social.
[ ESTRUTURA GEOFÍSICA ] [ SUPERESTRUTURA IDEOLÓGICA ]
Movimento contínuo e cego da Apropriação mística pelos "tiranos
matéria (Tectônica/Manto) do altar" (Nomenklatura/Elites)
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▼ ▼
Ruptura elástica pontual Transformação do evento cego em
(Acúmulo de energia local) "Castigo Moral" / Causa Mística
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└──────────────────┬─────────────────────┘
│
▼
[ VULNERABILIDADE SOCIAL ]
A tragédia não é o abalo,
mas a estrutura de classe.
- A Alienação da Causa: historicamente, as classes dominantes — os “tiranos do altar” e do capital — utilizam a teleologia (a busca por uma finalidade divina ou moral na natureza) para desviar a atenção das causas materiais. Transformar a pressão tectônica em “ira divina” transfere a responsabilidade da tragédia do terreno político para o metafísico.
- Medo e Culpa como Ferramentas de Contenção: Ao semear a ideia de que o tremor é resultado do “pecado” ou da “desobediência”, o poder ideológico converte a perplexidade dos incautos em culpa individual e paralisia política. O medo do invisível submete a classe trabalhadora à tutela moral do pastor, do bispo ou do demagogo, inibindo a consciência de classe e a organização crítica.
- A Construção do Bode Expiatório: A narrativa do castigo moral invariavelmente aponta o dedo para grupos vulneráveis e minorias (“o país sofre porque tolera a imoralidade”, “é um sinal dos tempos”). Esse mecanismo desvia a fúria popular — que deveria se voltar contra a ausência de infraestrutura e a negligência do Estado — em direção a alvos inocentes, fraturando a solidariedade de classe.
3. Vulnerabilidade Social: Onde a Classe Encontra a Tectônica
Para o materialismo histórico, a tragédia humanitária de um terremoto não é provocada pela natureza, mas pela desigualdade social estrutural:
- A Engenharia de Classe: Um abalo de magnitude 7.0 no Japão e o mesmo abalo na América Latina produzem tragédias qualitativamente distintas. O Japão investiu capital social e tecnológico em engenharia antissísmica, protocolos de emergência e planejamento urbano. Nas periferias do Sul Global, a autoconstrução precarizada, a falta de saneamento e a ausência de política habitacional transformam o mesmo evento geofísico em um massacre de classe.
- A Morte Não É Democrática: Os edifícios que desabam são majoritariamente os das populações empobrecidas, segregadas nas encostas e em solos instáveis pelo mercado imobiliário e pelo planejamento urbano classista.
Síntese
O planeta Terra é um organismo em constante transformação termodinâmica, alheio às necessidades ou desvios morais da humanidade. Desarmar a farsa do “castigo divino” e expor a instrumentalização do medo pelos “tiranos do altar” é um dever da análise crítica. A verdadeira catástrofe não está no movimento das placas sob nossos pés, mas na estrutura social que condena os trabalhadores à vulnerabilidade física e à alienação mental.
Referências Bibliográficas
- ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. (Obra fundamental sobre a aplicação do método dialético ao estudo das ciências naturais e da matéria em movimento).
- MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005. (Texto clássico onde Marx analisa o papel da religião e da alienação ideológica como “ópio do povo” e instrumento de apaziguamento social).
- MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993. (Referência essential para a compreensão das trajetórias de vulnerabilidade e da gestão de crises sob a perspectiva do planejamento situacional).
- DAVIS, Mike. Holocausto Vitoriano: As Moldagens do Terceiro Mundo pelas Fomes e Efeitos do El Niño. São Paulo: Record, 2002. (Estudo histórico crucial que demonstra como fenômenos naturais são convertidos em tragédias sociais pela lógica do capitalismo global).
- USGS (United States Geological Survey). Earthquake Myths and Misconceptions. Disponível em: https://www.usgs.gov. Acesso em: 2026. (Documentação técnica e estatística que desmistifica a falsa ideia de “ondas” ou causalidades místicas entre terremotos simultâneos).
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista pelo CES-Nacional e pela Fundação Maurício Grabois. Técnico em Finanças e Investimentos com experiência em conselhos fiscais (Cooperbom) e consultivos (ex-conselheiro Sesc/Senac-BA), dedica-se há mais de 50 anos ao setor de supermercados e ao sindicalismo. Atualmente dirigente da FEC Bahia, define seu trabalho como uma “práxis militante” voltada à construção de soluções e pontes para a classe trabalhadora.
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