Por José Evangelista Rios da Silva
A península coreana vive um momento de inflexão histórica. A intensificação do diálogo diplomático entre Seul, Pyongyang e atores geopolíticos emergentes aponta para a possibilidade concreta de superação de um dos últimos grandes contenciosos da Guerra Fria. O resgate da unidade territorial e social da Coreia representa mais do que uma reconfiguração geográfica; trata-se da reparação de uma distorção histórica imposta por dinâmicas de dominação externa e da reintegração de um povo à sua trajetória cultural e política originária.
A Paralaxe Histórica: Superando o Framing Ocidentalizado
A narrativa hegemônica ocidental tendeu, ao longo de mais de sete décadas, a enquadrar o conflito coreano sob uma ótica maniqueísta e reducionista, opondo o “desenvolvimento” do Sul ao “isolamento” do Norte. No entanto, uma análise sob o prisma da paralaxe — alterando o ponto de vista analítico para além do viés eurocêntrico — revela que a divisão de 1945 e a subsequente guerra (1950-1953) funcionaram como instrumentos de contenção geopolítica e fragmentação social.
A ocidentalização forçada do Sul impôs modelos de sociabilidade marcados por uma competição corporativa intensa, a acumulação assimétrica de capital e a erosão do tecido comunitário tradicional, desencadeando graves crises demográficas e altos índices de marginalização social e vulnerabilidade na velhice. Por outro lado, a trajetória do Norte, apesar das severas sanções internacionais impostas ao país, preservou estruturas comunitárias de seguridade, equidade social primária e o cultivo do respeito à ancestralidade, inerentes à tradição cultural da região.
A reaproximação e a unificação representam, portanto, a síntese dialética dessas experiências: a combinação da capacidade industrial e tecnológica do Sul com a centralidade dos direitos sociais, da coesão comunitária e da resistência soberana do Norte.
| Dimensão Indicativa | Coreia do Sul | Coreia do Norte | Coreia Unificada (Estimada) |
|---|---|---|---|
| População | ~51,7 milhões | ~26,6 milhões | ~78,3 milhões (17ª maior mundial) |
| PIB Nominal | ~US$ 1,93 trilhão | ~US$ 35 bilhões | > US$ 1,96 trilhão (Potencial de rápida expansão) |
| Efetivo Militar Ativo | ~500.000 | ~1,2 milhão | Redirecionamento para Infraestrutura Social |
| Recursos Estratégicos | Tecnologia / Microchips | Minerais Críticos / Terras Raras | Cadeia Produtiva Autossuficiente |
O Papel Estratégico do Sul Global e dos BRICS
O avanço na busca pela paz na península coreana não ocorre isoladamente, mas integra o movimento mais amplo de transição geopolítica rumo à multipolaridade. O esgotamento dos arranjos unipolarizados abre margem para que a mediação e o apoio internacional passem a ser protagonizados pelas potências do Sul Global.
- Autodeterminação e Fim da Presença Estrangeira: A construção da paz na península exige a redução progressiva das forças Militares estrangeiras e a revogação de sanções econômicas coercitivas, garantindo ao povo coreano o direito inalienável de gerir o seu destino sem ingerências externas.
- A Sinergia com os BRICS: A integração da península unificada no arranjo produtivo e logístico do Sul Global (ao lado de Nações como China, Rússia, Brasil e integrantes do BRICS) abre rotas comerciais terrestres diretas pela Eurásia. Esse movimento enfraquece a lógica de cercamento marítimo e insere a economia coreana em uma rede sustentada pelo desenvolvimento mútuo e pela soberania alimentar e energética.
- Desmilitarização e Redirecionamento Social: O fim do estado de beligerância permanente permitirá a conversão de orçamentos de defesa massivos em fundos públicos destinados à saúde universal, infraestrutura de integração, superação da desigualdade e garantia da seguridade social para os idosos em toda a península.
Uma Contribuição para a Humanidade
A reunificação do povo coreano transcende a dimensão regional. Ela consagra a tese de que a soberania e a unidade cultural de uma nação são capazes de resistir a décadas de divisões ideológicas impostas de fora. Ao reescrever sua história a partir da coesão, da justiça social e do respeito às suas raízes, a Coreia oferece ao mundo um testemunho sobre a possibilidade de paz duradoura fundada na autodeterminação dos povos e na cooperação internacional soberana.
Referências Bibliográficas
- CUMINGS, Bruce. The Origins of the Korean War. Princeton University Press, 1990.
- CUMINGS, Bruce. Korea’s Place in the Sun: A Modern History. W. W. Norton & Company, 2005.
- HALLIDAY, Jon; CUMINGS, Bruce. Korea: The Unknown War. Viking, 1988.
- HWANG, Kyung Moon. A History of Korea: An Episodic Narrative. Palgrave Macmillan, 2010.
- LUKIN, Alexander. China, Russia, and the Future of the Korean Peninsula. Asian Survey, Vol. 58, No. 5, 2018.
- UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME (UNDP). Human Development Reports and Economic Assessments on East Asia, 2023-2025.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional, com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois. Sua trajetória de mais de cinco décadas une a atuação técnica em Finanças e Investimentos, incluindo passagem pelo Conselho Fiscal da Cooperbom e como ex-conselheiro do Sesc/Senac-BA, à sua sólida vivência no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, pauta sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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