Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
O presente artigo analisa as contradições emergentes da introdução da Inteligência Artificial (IA) e da automação sob a égide do modo de produção capitalista contemporâneo, articulando a teoria marxista do valor e a paralaxe classista. A despeito do pânico gerencial e da autocrítica promovida pelo capital financeiro diante da corrosão de sua própria taxa de lucro e do controle cognitivo sobre a gestão, argumenta-se que as tecnologias de simplificação e mediação da informação possuem um caráter eminentemente dialético. Quando desvincular do monopólio das corporações hegemônicas do Norte Global e reorientadas pelas dinâmicas geopolíticas do BRICS+ e da cooperação Sul-Sul, as ferramentas de IA deixam de operar unicamente como instrumentos de extração de mais-valia e passam a figurar como vetores de democratização do saber empírico e de fortalecimento da soberania dos povos.
1. Introdução: A Paralaxe Classista e a Dialética do Desenvolvimento Tecnológico
A evolução dos sistemas comunicacionais humanos esteve historicamente vinculada às transformações do processo de trabalho e à divisão social da produção. Se nos primórdios a comunicação se dava de forma direta para assegurar a subsistência do grupo social, o advento da propriedade privada e a estratificação de classes converteram a linguagem escrita e o acesso à informação em instrumentos de monopólio, dominação e ostentação de poder.
No capitalismo tardio, a emergência da Inteligência Artificial generativa e da automação intensiva atualiza essa contradição. A literatura corporativa ocidental expressa apreensão diante do que classifica como uma “cultura do resumo” ou uma perda de capacidade analítica das elites gerenciais. Contudo, sob a ótica da paralaxe classista — isto é, o deslocamento do ponto de observação para a realidade material das classes trabalhadoras —, o pânico das instâncias diretivas revela apenas a autofagia do próprio sistema. O capital, em sua busca desenfreada pela redução dos custos do trabalho vivo e pelo aumento da produtividade no curto prazo, engendra tecnologias que esvaziam a função cognitiva do seu corpo burocrático e colocam em xeque a estabilidade de seu modelo de acumulação.
2. A Lei do Valor, a Taxa de Lucro e o General Intellect
A tentativa do capital de substituir a força de trabalho humana por sistemas automatizados esbarra nas leis tendenciais da economia política marxista.
[Aumento do Capital Constante (Tecnologia/IA)] ──► [Redução do Capital Variável (Trabalho Vivo)] ──► [Tendência à Queda da Taxa Geral de Lucro]
De acordo com a Teoria do Valor-Trabalho:
- Capital Constante (c): Representa a infraestrutura, o maquinário e os algoritmos. A tecnologia não cria valor novo; apenas transfere ao produto o valor nela incorporado pelo trabalho humano prévio.
- Capital Variável (v): Representa a força de trabalho viva, única fonte geradora de mais-valia (m).
Ao elevar a composição orgânica do capital (\frac{c}{v}), o sistema reduz a proporção de trabalho vivo empregado em relação ao volume tecnológico acumulado, pressionando no longo prazo a taxa geral de lucro (g = \frac{m}{c+v}). Trata-se do paradoxo do General Intellect antecipado por Marx nos Grundrisse: a ciência e o conhecimento social acumulado tornam-se as forças produtivas primárias, enquanto o sistema insiste em mensurar a riqueza pelo tempo de trabalho direto espoliado.
3. A Dimensão Popular e Emancipatória da Simplificação do Conhecimento
A despeito da tentativa do capitalismo de transformar as redes e os modelos de IA em feudos de extração de renda digital, o desenvolvimento dessas forças produtivas carrega um potencial emancipatório intrínseco.
Para as classes populares do Sul Global, historicamente marginalizadas pelo acesso burocrático, acadêmico e técnico ao saber, as ferramentas digitais de síntese e tradução sintática atuam como um mecanismo de desintermediação:
- Quebra dos Monopólios de Informação: A mediação exercida por consórcios de mídia e aparelhos burocráticos estatais ou privados é contornada pela circulação direta do conhecimento e pelo acesso simplificado a dados complexos.
- Valorização do Saber Empírico: A convergência de redes e assistentes inteligentes permite a articulação de saberes comunitários, regionais e populares, conferindo visibilidade e capacidade de intervenção política a vozes antes silenciadas.
- Redução da Assimetria de Informação: O letramento digital e a simplificação algorítmica capacitam o cidadão comum no acompanhamento de normas, diretrizes legais e formulações de políticas públicas, convertendo a tecnologia em instrumento de controle social e soberania popular.
4. Multilateralismo, BRICS+ e a Construção da Soberania do Sul Global
O risco central do avanço tecnológico não reside na natureza das ferramentas de Inteligência Artificial, mas no controle monopólico exercido sobre a sua infraestrutura física e lógica pelas Big Techs sediadas no Norte Global. A dependência em relação a servidores de nuvem, modelos proprietários e algoritmos opacos configura uma nova forma de dependência colonial.
Nesse cenário, a atuação do BRICS+ e das instâncias do Sul Global surge como o contraponto necessário à hegemonia ocidental:
- Soberania Tecnológica e Redes Multilaterais: A criação de infraestruturas compartilhadas de dados, modelos de linguagem em código aberto e centros de processamento soberanos reduz a vulnerabilidade externa dos países em desenvolvimento.
- Garantia de Direitos e Normativas Internacionais: O fortalecimento de acordos multilaterais sob a perspectiva do desenvolvimento social assegura que a transferência de tecnologia respeite as assimetrias regionais e os direitos constitucionais de soberania sobre dados e recursos naturais.
- Desconcentração Geopolítica: A ascensão de polos alternativos de inovação — com destaque para os investimentos em biotecnologia, IA e transição energética na China e no bloco dos BRICS — rompe a divisão internacional do trabalho tradicional, permitindo a transição de economias reprimarizadas para polos de autonomia tecnológica.
5. Considerações Finais
O diagnóstico do declínio do modelo capitalista de acumulação e de suas crises gerenciais recorrentes não deve conduzir ao rejeicionismo tecnológico. A crítica materialista distingue a forma histórica assumida pela tecnologia sob o capital da sua utilidade social concreta para a reprodução da vida humana.
A simplificação do complexo operada pela Inteligência Artificial, quando integrada a um projeto soberano de desenvolvimento liderado pelas nações do Sul Global e alinhado aos anseios das classes trabalhadoras, consolida-se como uma ferramenta de democratização do conhecimento. A superação da heteronomia impostas pelas estruturas tradicionais passa, inevitavelmente, pelo domínio e pela socialização dos meios técnicos de produção e comunicação da era digital.
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. (Especialmente os artigos referentes à soberania nacional, desenvolvimento científico e tecnológico — Arts. 1º, 170 e 218).
- BRICS. Declarations of the BRICS Summits (Johanesburgo, Kazan). Mecanismos de Cooperação Multilateral em Ciência, Tecnologia e Inovação do Bloco BRICS, 2023–2024.
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I e Livro III. São Paulo: Boitempo, 2013/2017.
- MARX, Karl. Grundrisse: Esboços da Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2011. (Trecho: “Fragmento sobre as Máquinas”).
- ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU/UNCTAD). Digital Economy Report: Value Creation and Capture – Implications for Developing Countries. Genebra: United Nations Conference on Trade and Development, 2021.
- VAROUFAKIS, Yanis. Technofeudalism: What Killed Capitalism. London: Bodley Head, 2023.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista em Planejamento Estratégico e Situacional pelo CES-Nacional, com formação em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois. Sua trajetória de mais de cinco décadas une a atuação técnica em Finanças e Investimentos, incluindo passagem pelo Conselho Fiscal da Cooperbom e como ex-conselheiro do Sesc/Senac-BA, à sua sólida vivência no setor de supermercados e no movimento sindical. Dirigente da FEC Bahia, pauta sua atuação pela “práxis militante”: a dedicação de um sonhador apaixonado pela causa dos trabalhadores, focado em construir pontes e soluções para a sua classe.
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