Autor: Análise Classista e Formação de Lideranças Perspectiva: Análise Dialética, Paralaxe Geopolítica e Teoria Crítica do Imperialismo
Resumo
O presente artigo analisa o legado histórico e teórico-prático de Fidel Castro Ruz no âmbito do centenário do seu nascimento (1926–2026), articulando a transição da revolução nacional-popular martiana para o socialismo científico e a construção do internacionalismo proletário. Sob a lente da paralaxe geopolítica, investiga-se o paradoxo da dominação imperialista na América Latina: a inviabilidade tática de uma invasão militar direta contra a ilha de Cuba em contraste com o estrangulamento por via do bloqueio econômico, financeiro e energético (El Bloqueo). Analisa-se igualmente a reciclagem ideológica do império estadunidense — da Doutrina Monroe ao combate às “ameaças transnacionais” —, confrontando-a com as dinâmicas contemporâneas de cooperação Sul-Sul (Brasil-Cuba, alianças do Brics e a emergência da multipolaridade) e os relatos diretos de perseguição coercitiva contra militantes sindicais internacionais. Conclui-se que o pensamento fidelista permanece uma ferramenta heurística indispensável para a emancipação dos povos do Sul Global.
Palavras-chave: Fidel Castro; Revolução Cubana; Imperialismo; Bloqueio Económico; Internacionalismo Proletário; Multipolaridade.
1. Introdução: A Práxis de Fidel Castro e a Dialética do Momento Histórico
Celebrar o centenário de Fidel Castro em 2026 transcende a mera efeméride historiográfica; constitui uma necessidade analítica urgida pelas contradições do capitalismo tardio e da crise de hegemonia do imperialismo ocidental. Fidel não representou apenas o líder político de um país periférico, mas o catalisador de uma rutura epistemológica e política na América Latina: a demonstração prática de que a dependência estrutural e a tutela neocolonial não são destinos inexoráveis.
Como formulou na sua célebre definição, “Revolução é sentido do momento histórico; é mudar tudo o que deve ser mudado”. A originalidade do pensamento fidelista residiu na fusão criativa da tradição patriótica, anti-imperialista e humanista de José Martí com o materialismo histórico e dialético de Karl Marx e V. I. Lênin. O resultado foi uma teoria da ação revolucionária ancorada na realidade concreta latino-americana, capaz de converter a derrota tática — como no assalto ao Quartel Moncada em 1953 — em vitória estratégica, sintetizada no libelo A História Me Absolverá.
2. A Geopolítica da Dissuasão: Por Que o Império Não Invade Cuba
Uma análise rigorosa sob a lente da paralaxe expõe o duplo padrão e o cálculo frio da máquina de guerra imperialista. A pergunta central — por que a maior potência militar da história não invadiu militarmente uma ilha a 90 milhas da sua costa após a queda da União Soviética, enquanto ameaça e desestabiliza nações como a Venezuela — encontra resposta em três pilares estratégicos:
2.1. O Guardrail Histórico e a “Guerra de Todo o Povo”
- O Colapso da Baía dos Porcos (1961): A derrota da Brigada 2506 demonstrou que a Revolução não era um governo transitório, mas um estado de mobilização popular consciente.
- O Compromisso de 1962: O desfecho da Crise de Outubro/Crise dos Mísseis estabeleceu uma garantia diplomática internacional cuja rutura traria custos sistémicos incomportáveis para a diplomacia de Washington.
- A Doutrina Militar Cubana: A institucionalização da “Guerra de Todo o Povo” transformou a ilha numa fortaleza inexpugnável. Qualquer tentativa de ocupação resultaria num conflito de atrito prolongado e assimétrico, um “atoleiro” militar infinitamente mais dispendioso do que as intervenções no Médio Oriente.
2.2. A Preferência pela Guerra Asfixiante
Para o imperialismo, o embargo (El Bloqueo) cumpre a função de uma guerra de baixa intensidade contínua. Estrangula-se a economia, priva-se o povo de combustível, medicamentos e insumos básicos, com o objetivo de produzir desespero social e forçar o colapso interno. Trata-se de uma estratégia de baixo custo militar e político para os EUA, mas de altíssimo impacto humano para a população cubana.
3. A Doutrina do “Amigo Interno” e a Reciclagem do Caos Imperial
Historicamente, o imperialismo exerceu o seu domínio na América Latina adestrando as Forças Armadas locais — em instituições como a Escola das Américas (West Point) — sob as premissas da Doutrina Monroe e da Segurança Nacional.
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│ EVOLUÇÃO DA DOUTRINA IMPERIAL │
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[Século XX: Doutrina Monroe & Anticombatimento]
– Foco: O “Inimigo Interno” (Sindicalistas, Camponeses, Comunistas)
– Instrumento: Golpes Militares e Ditaduras Oligárquicas
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[Século XXI: A Doutrina do Caos Transnacional]
– Foco: Narcotráfico, Terrorismo, “Estados Ameaça”
– Instrumento: Sanções Extraterritoriais, Lawfare e Cerco Energético
Em Cuba, a Revolução desmantelou o exército tirânico de Batista e construiu Forças Armadas Revolucionárias fundadas no compromisso de classe com os trabalhadores. Incapaz de cooptar um “amigo interno” militar dentro de Cuba, o império reciclou a sua narrativa no século XXI: sustituiu o pânico anticomunista pelo combate ao “narcotráfico” e ao “caos transnacional”. Contudo, permanece a gritante contradição classista: os EUA continuam a ser o maior mercado consumidor de estupefacientes e o principal centro produtor e financiador de armas do planeta.
4. Solidariedade Internacionalista e a Luta de Classes na Prática
O internacionalismo proletário de Fidel Castro manifestou-se tanto na libertação da África Austral (em Cuito Cuanavale, decisivo para o fim do apartheid) como na diplomacia médica global, enviando dezenas de milhares de profissionais de saúde para os cantos mais remotos do mundo.
A atualidade dessa luta transparece nos relatos contemporâneos da militância classista internacional. Representantes sindicais e delegados da Federação Sindical Mundial (FSM), ao regressarem de simpósios internacionais em Havana (“O Direito dos Povos a Determinar o Seu Próprio Destino”), enfrentam a repressão estatal nos próprios aeroportos dos EUA. Relatos de retenção, interrogação e confisco de dispositivos por agentes da U.S. Customs and Border Protection (CBP) revelam a paranoia de um sistema que criminaliza a entrega de suprimentos médicos de emergência aos hospitais cubanos e o apoio à palavra de ordem “La Patria se defiende”.
Entretanto, as tentativas do Congresso dos EUA e do poder executivo de impor bloqueios energéticos e ameaças navais (como o destacamento de porta-aviões) encontram barreira na resistência diplomática e popular. O veto da Colômbia ao uso do seu território para agressões e a presença de frotas aliadas (russas, chinesas e iranianas) alteram o cálculo de custos do império, provando que a solidariedade latino-americana é a pedra angular da paz regional.
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│ O EIXO DA RESISTÊNCIA E COOPERAÇÃO SUL-SUL │
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[Brasil – Cuba] [Multipolaridade – BRICS] [Soberania Regional]
Reaproximação Apoio Energético e Veto da Colômbia a
Diplomática e Financeiro Contra o Bases para Invasão
Cooperação Técnica Dólar Imperial Militar
5. A Cooperação Sul-Sul: O Exemplo das Relações Brasil-Cuba
A entrega de credenciais diplomáticas do embaixador cubano Víctor Manuel Cairo Palomo ao governo brasileiro no Palácio do Planalto simboliza a vitória do multilateralismo sobre a coerção unilateral. A relação Brasil-Cuba demonstra que a cooperação em saúde, biotecnologia, educação e agricultura familiar constitui um modelo alternativo de integração regional, fundamentado no respeito mútuo e na autodeterminação dos povos.
A defesa de Cuba pelo Movimento Brasileiro de Solidariedade — concretizada em ações práticas como o envio de infraestrutura de energia solar para mitigar o cerco energético — expressa o entendimento geopolítico fundamental: defender a soberania de Cuba é defender a soberania de toda a América Latina.
6. Conclusão: Fidel aos 100 Anos — Uma Presença Invicta
No centenário do seu nascimento, Fidel Castro não pertence ao passado das estátuas frias, mas à práxis viva dos povos que lutam contra o neocolonialismo. A sua obra demonstrou que um país sem grandes recursos naturais ou poder financeiro pode erguer um sistema público universal de saúde e educação, erradicar o analfabetismo e liderar a ciência biotecnológica global quando a economia é colocada ao serviço das necessidades humanas e não do lucro privado.
Fidel foi absolvido pela História porque colocou a vida na primeira linha de combate pela dignidade humana. Diante do recrudescimento das sanções e das ameaças imperiais no século XXI, a bandeira de Cuba permanece como um farol de resistência e um testemunho inquestionável de que um mundo justo, soberano e socialista não é apenas necessário, mas viável.
Referências Bibliográficas
- CASTRO, Fidel. La Historia me Absolverá. La Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 1954.
- CASTRO, Fidel. Un Grano de Maíz: Conversación con Tomás Borge. La Habana: Oficina de Publicaciones del Consejo de Estado, 1992.
- CHOMSKY, Noam. Hegemony or Survival: America’s Quest for Global Dominance. New York: Metropolitan Books, 2003.
- GALEANO, Eduardo. Las Venas Abiertas de América Latina. México: Siglo XXI Editores, 1971.
- GUEVARA, Ernesto Che. El Socialismo y el Hombre en Cuba. La Habana: Ediciones Revolución, 1965.
- LEOGRANDE, William M.; KORNBLUH, Peter. Back Channel to Cuba: The Hidden History of Negotiations Between Washington and Havana. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2014.
- LÊNIN, V. I. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Lisboa: Avante!, 1984 [1917].
- MARINI, Ruy Mauro. Dialéctica de la Dependencia. México: Serie Cuadernos de Era, 1973.
- MARTÍ, José. Nuestra América. La Habana: Editorial Letras Cubanas, 2001 [1891].
- PETRAS, James; VELTMEYER, Henry. Empire with Imperialism: The Globalizing Dynamics of Neo-Liberal Capitalism. London: Zed Books, 2005.
José Evangelista Rios da Silva é geógrafo (UCSal), pedagogo (UNEB) e especialista pelo CES-Nacional e pela Fundação Maurício Grabois. Técnico em Finanças e Investimentos com experiência em conselhos fiscais (Cooperbom) e consultivos (ex-conselheiro Sesc/Senac-BA), dedica-se há mais de 50 anos ao setor de supermercados e ao sindicalismo. Atualmente dirigente da FEC Bahia, define seu trabalho como uma “práxis militante” voltada à construção de soluções e pontes para a classe trabalhadora.
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