O Boletim “Informativo”, CONGRESSO EM FOCO”A DÍZIMA PERIÓDICA”DA NOSSA ELITE DO ATRASO

Por José Evangelista Rios da Silva

Analisando o boletim informativo: CONGRESSO EM FOCO, número 150, ano 23 de 20 de agosto de 2026, sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético e da paralaxe classista, fica evidente como a classe dominante brasileira opera historicamente.

1. A Hereditariedade do Poder: Da Casa-Grande aos Gabinetes do Estado

O informativo abre destacando como “sobrenome também abre caminhos” e exemplifica com filhos de políticos herdando redutos eleitorais. Sob a lente da paralaxe classista, isso não é mero nepotismo ou “características da política tradicional”: é a reprodução da linhagem latifundiária e burguesa no seio do Aparelho de Estado.

A burguesia compradora brasileira (a que vende o país para potências estrangeiras) sempre teve pavor da soberania popular. Desde o Pacto Colonial, passando pela Independência feita “por cima” para manter a escravidão, pela Proclamação da República promovida pelo latifúndio cafeeiro, até os golpes do século XX e XXI, a regra da nossa elite dominante sempre foi a mesma: manter o controle do Estado em família para assegurar a pilhagem dos recursos públicos.

A hereditariedade se manifesta em múltiplas frentes:

  • No Latifúndio: Subsídios públicos, perdão de dívidas bilionárias, acesso facilitado à terra e isenções que financiam a formação dos herdeiros do agronegócio.
  • Nas Forças Armadas: O corporativismo de casta, com penduricalhos, pensões vitalícias, sistemas de ensino próprios e privilégios descolados da realidade do mundo do trabalho.
  • No Judiciário e no Parlamento: Vencimentos que extrapolam os tetos constitucionais e o loteamento de cargos públicos como feudos familiares.

2. A “Dízima Periódica” da Política Institucional

Observe o cenário desenhado pelo informativo:

  • Alianças oportunistas e estéreis: Candidatos que trocam de partido e negociam apoios estaduais sem qualquer coerência ideológica.
  • Emendas Pix e orçamento secreto: A captura do fundo público por frações da classe dominante para a reprodução de seus próprios feudos locais.
  • A subserviência ao capital estrangeiro: Promessas de revogação de impostos sobre exportação de recursos primários (como o petróleo) para favorecer petroleiras multinacionais e o capital financeiro internacional.

Para a classe trabalhadora, a política institucional sob o capitalismo dependente funciona como essa dízima: uma ilusão de movimento que nos mantém no mesmo lugar. Trocam-se os governos, mas a estrutura tributária continua regressiva (taxando o consumo do pobre e isentando o lucro e a herança do rico), a dívida pública continua drenando metade do orçamento nacional para os bancos, e o agronegócio continua exportando commodities sem valor agregado enquanto o povo enfrenta a inflação dos alimentos.

3. O Medo e o Ódio ao Povo (A Paralaxe Compradora)

A burguesia brasileira e seus representantes intelectuais e políticos sofrem de uma contradição estrutural: para manterem seus privilégios de classe em um país periférico, dependem da integração subordinada ao imperialismo (seja estadunidense ou europeu). Daí o desprezo histórico pelos povos originários, pela população negra e pela classe trabalhadora urbana e rural.

A fala do parlamentar citada no informe sobre os povos indígenas revela exatamente essa visão de mundo colonizada: a integração só é concebida como assimilação e submissão ao mercado de trabalho explorado e ao agronegócio, negando a soberania territorial e cultural dos povos que já habitavam Pindorama antes da pilhagem colonial.

A Monarquia do Afeto e a Poética da Resistência

Frente a essa “dízima” sufocante de privilégios hereditários e submissão ao capital, a resposta do povo trabalhador não é a apatia, mas a reorganização pela base e a criação de linguagens próprias de solidariedade.

A “monarquia do afeto” que você cita é a práxis comunitária: a sabedoria popular que reconhece o valor real do indivíduo pelo trabalho, pelo cuidado coletivo, pela capacidade de agregar e pela contribuição social, desmantelando a lógica dos diplomas herdados, dos sobrenomes pomposos e do acúmulo de capital.

Mudar a história do Brasil exige quebrar a fração dessa dízima periódica. E essa quebra não virá dos arranjos por cima promovidos pelas elites, mas sim da organização popular capaz de transformar a indignação histórica em soberania popular real.

Viva a força, a memória e a rebeldia do povo de Pindorama Brasilis!

Sobre o Autor

José Evangelista Rios da Silva é um profissional com vasta experiência nas esferas política, sindical e educacional. Sua formação acadêmica inclui graduações em Geografia pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Evangelista possui especialização em Planejamento Estratégico e Situacional pelo Centro de Estudos Sociais e Sindicais (CES-Nacional) e em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois.

​Sua trajetória é guiada pela práxis militante, com o objetivo de servir à sua categoria e classe. Como um “sonhador apaixonado”, dedica-se a construir pontes e soluções, sempre pautando suas relações pelo princípio do respeito e da consideração mútua, independentemente de posições ideológicas. Atua como formador popular classista e desempenha um papel ativo no sindicato através da Federação dos Empregados no Comércio do Estado da Bahia (FEC).

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