Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
O presente artigo analisa, sob o método do materialismo dialético-histórico e da paralaxe de classe, o complexo de forças que tensiona a estabilidade institucional e a soberania no Brasil. A investigação articula três dimensões fenomênicas interdependentes: (i) as estratégias geopolíticas de ingerência e subordinação econômica promovidas por capitais centrais em aliança com frações da burguesia compradora local; (ii) a emergência do ciber-extremismo e de células de violência antidemocrática como subprodutos da desorganização social e da radicalização de setores da pequena burguesia e do lumpemproletariado; e (iii) a reiteração da tutela militar sobre o Estado enquanto mecanismo histórico de contenção das lutas de classes. Conclui-se que a crise política contemporânea não constitui um desvio anômalo, mas a expressão agudizada das contradições estruturais da formação socioeconômica brasileira no capitalismo periférico.
Palavras-chave: Materialismo Dialético-Histórico; Paralaxe de Classe; Ingerência Imperialista; Violência Fascista; Tutela Militar; Soberania Constitucional.
1. Introdução: O Método Dialético e a Paralaxe de Classe
A compreensão rigorosa dos conflitos políticos contemporâneos exige a superação das leituras fáticas e da historiografia liberal. A lente da paralaxe de classe — fundamentada no materialismo dialético e histórico — pressupõe que o deslocamento do ponto de observação revela não apenas diferentes perspectivas, mas a própria divisão antagônica que estrutura a sociedade de classes.
Os acontecimentos que marcam a cena política brasileira — desde denúncias de cooptação geopolítica externa até a articulação subterrânea de atos terroristas e a emissão de manifestos institucionais por setores das Forças Armadas — não podem ser compreendidos de forma fragmentada. Sob o prisma dialético, a aparências da política institucional ocultam determinações econômicas e contradições profundas entre a acumulação de capital no centro do sistema e a manutenção da ordem de exploração na periferia.
2. A Ingerência Geopolítica e a Fração Compradora da Burguesia
A dimensão externa dos conflitos políticos revela a permanência do imperialismo enquanto fase superior do capitalismo e a persistência da Teoria da Dependência no âmbito latino-americano.
2.1. A Aliança Estratégica com o Capital Central
O recurso a governos, chancelarias e parlamentos estrangeiros por parte de frações políticas locais representa a atualização histórica do papel da burguesia compradora ou associada. Incapaz de hegemonizar um projeto de desenvolvimento autônomo, o capital financeiro e o agronegócio exportador buscam respaldo em centros de poder imperial para disciplinar a política interna. A ameaça de sanções econômicas, tarifas e retaliações diplomáticas surge como o braço coercitivo para subjugar os recursos naturais, a força de trabalho e o mercado consumidor do país aos interesses de corporações transnacionais.
2.2. A Instrumentalização da Soberania como Disputa de Classe
A soberania nacional (art. 1º, I, CF/88) e o princípio da não intervenção (art. 4º, IV, CF/88) deixam de ser meras abstrações jurídicas para se tornarem o terreno onde se trava a luta de classes. A submissão da jurisdição nacional e das instituições eleitorais à aprovação ou tutela do capital internacional visa garantir a estabilidade das taxas de lucro corporativas, prevenindo rearranjos redistributivos ou soberanos.
3. Ciber-extremismo, Ideologia e a Base Social do Fascismo
No plano subterrâneo, a proliferação de grupos radicais em plataformas digitais revela a dinâmica de coesão e recrutamento ideológico de setores específicos da sociedade.
[Crise Estrutural do Capital / Precarização Social]
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[Radicalização de Setores Sociais Vulneráveis]
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▼ (Plataformas Criptografadas / Anonimato)
[Cooptação por Discursos de Ódio, Misoginia e Neonazismo]
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[Violência Assimétrica e Ações de Natureza Terrorista]
3.1. A Economia Política do Extremismo Digital
A disseminação de conteúdos extremistas, supremacistas e neonazistas em redes criptografadas não é um fenômeno meramente tecnológico. O capital corporativo das big techs, guiado pela maximização do engajamento e da extração de dados (surveillance capitalism), lucra com a circulação da agressividade e do medo. A desregulamentação desses ambientes permite a aglutinação de setores empobrecidos ou desclassificados, que convertem a frustração econômica em violência política dirigida às instituições e à diversidade social.
3.2. A Tipificação Jurídica da Violência de Classe
A planificação de atentados, a confecção de artefatos explosivos e a tentativa de destruição de prédios públicos — sob a roupagem discursiva da “revolução” ou da “destruição do Estado” — configuram condutas tipificadas pela Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito (Lei nº 14.197/2021) e pela Lei Antiterrorismo (Lei nº 13.260/2016). Sob a ótica marxista, tais atos operam como força de choque reacionária, visando instaurar o caos social para justificar o fechamento político e a supressão de direitos trabalhistas e sociais.
4. A Tutela Militar Residual e o Bonapartismo
O terceiro vetor de análise centra-se na permanência do papel tutelar desempenhado por associações corporativas das Forças Armadas e de reservistas no cenário nacional.
4.1. O Aparelho Repressivo do Estado e a Ideologia do “Poder Moderador”
Historicamente, as Forças Armadas no Brasil foram conformadas pelo capital dominante como a última salvaguarda contra revoltas populares e transformações estruturais. A publicação de manifestos e notas públicas emitidas por associações de oficiais que julgam a situação econômica, política e diplomática da nação constitui uma manifestação de bonapartismo. Tais setores arvora-se a condição de “juízes morais” da República, violando o princípio constitucional da estrita neutralidade e da subordinação ao poder civil eleito (art. 142, CF/88).
4.2. Contradição Dialética entre Direito e Coerção
A retórica de “risco à pátria” ou “falência institucional” utilizada em manifestos militares reflete a apreensão de setores das classes dominantes diante da perda de controle sobre o aparelho de Estado. Trata-se de uma contradição dialética: o mesmo Estado de Direito que assegura a reprodução das relações de produção capitalistas é percebido como insuficiente pela extrema-direita quando não atende integralmente aos seus interesses de dominação coercitiva.
5. Considerações Finais
A análise em paralaxe sob a lente do materialismo dialético-histórico evidencia que as ameaças à ordem constitucional e à soberania nacional não são incidentes isolados, mas a expressão articulada de um mesmo processo de disputa de hegemonia:
- No plano geopolítico: O capital imperialista e seus aliados internos tensionam o processo político democrático para impor a subordinação econômica.
- No plano ideológico-digital: Redes digitais instrumentalizam o desespero social para arregimentar a militância fascista voltada à violência física.
- No plano institucional: Discursos de tutela militar operam como ameaça latente de coerção estatal para disciplinar os rumos da política.
A superação dessa crise permanente exige a afirmação rigorosa dos preceitos constitucionais, a punição severa de condutas terroristas e golpistas, e o fortalecimento das instâncias soberanas do povo brasileiro contra os reclamos da dependência e do autoritarismo.
Referências Bibliográficas
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- ZIZEK, Slavoj. Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.
Sobre o Autor
José Evangelista Rios da Silva é um profissional com vasta experiência nas esferas política, sindical e educacional. Sua formação acadêmica inclui graduações em Geografia pela Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Evangelista possui especialização em Planejamento Estratégico e Situacional pelo Centro de Estudos Sociais e Sindicais (CES-Nacional) e em Economia Política pela Fundação Maurício Grabois.
Sua trajetória é guiada pela práxis militante, com o objetivo de servir à sua categoria e classe. Como um “sonhador apaixonado”, dedica-se a construir pontes e soluções, sempre pautando suas relações pelo princípio do respeito e da consideração mútua, independentemente de posições ideológicas. Atua como formador popular classista e desempenha um papel ativo no sindicato através da Federação dos Empregados no Comércio do Estado da Bahia (FEC).
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